Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de março, 2026

O Trem da Valle

  Um trem para Minas Na locomotiva que seguia de Vitória a Governador Valadares, “Seu” Albino, mineiro de 94 anos, falava com a energia de um rapaz. Lúcido, opinativo e cheio de histórias, lembrava sua vida no Exército e a passagem pela Segunda Guerra. Entre goles de café e comentários sobre política, confessava: “Já não encontro alegria em torcer pelo Flamengo ou pelo América. Assim como na vida, às vezes é preciso mudar de rumo”. No mesmo vagão, Carlos Augusto ironizava nossa paixão pelo futebol: “Conheço Garrincha, Pelé, Maradona… mas não entendo como vocês gastam tanto tempo com essas discussões”. França, ao contrário, trazia o futebol como memória viva. Aos 75 anos, emocionou-se ao recordar Miracema: os craques locais, os bailes do Aeroclube, o Colégio Miracemense. Cada lembrança reacendia nele a chama da juventude. A viagem pelo Rio Doce tornou-se mais que deslocamento: foi encontro de gerações, de opiniões e de saudades. Entre causos, risadas e confidências, o trem transform...

Diário de viagem

  DIARIO DE UMA VIAGEM O projeto de ir a Europa, em viagem cultural e de lazer, começou a ser traçado em 2005, logo após ver frustrada uma possibilidade de seguir com a mesma passagem, ganha em concurso da Sky, que nos levou a Madrid para ver um jogo de futebol entre os times da capital espanhola, Real x Atlético, que culminou com um belo passeio até Toledo, cidade medieval e primeira capital dos espanhóis. Ficamos, eu e Marina, cerca de um ano escolhendo roteiro em revistas especializadas, na internet e no Caderno de Turismo do Globo. Grécia? Sim. Dizia Marina. Áustria? Pensava eu quieto para não influenciar a decisão da esposa. Quem sabe Fátima, Lourdes, Campostela, Vaticano ou até mesmo Israel? É muito, a grana não dá para tantos quilômetros a percorrer. O tempo passa e os projetos estão engavetados, falta o principal, dinheiro disponível e que não comprometerá o futuro da família Dutra. Março chega e com ele uma boa surpresa. A justiça do trabalho determina o pagamento de um pr...

Sábado, em Miracema, com chuva e futebol

Sábado, muita chuva e um frio fora de época, pego o tênis, o boné e deixo o celular em casa, para que ninguém incomode as minhas andanças pelo centro da cidade em busca de um tema novo para prosear aqui, neste espaço, com os amigos deste “Papo de Bola”.  Ando por ali, volto por aqui, chego às esquinas e nada, ninguém comenta, ninguém opina sobre o velho e querido esporte bretão.  O papo era de política e como saí de casa, arriscando um resfriado, que com certeza virá, dou uma parada no Bar Central, onde encontro meu amigo Ricardo, ainda se restabelecendo de um problema coronário, este tenta me dizer alguma coisa sobre o seu Botafogo, velho Fogão que já deu lenha e que já nos deixou, torcedores rubro negros, encostados à beira de um balcão, sem flor, chorando mágoas e tomando todas por esta ou aquela vitória alvinegra. Tenho saudades do Ricardo, também do Glorioso Botafogo, que um dia me deu raiva, mas quando aquelas feras se juntavam na seleção brasileira, ah!, dava prá sentir...

Sonho de artilheiro

GOL QUE ESPEROU POR MIM Naquela madrugada, quando o calor nem deixava o sono descansar direito, eu viajei. Não de ônibus, não de trem, nem de avião. Viajei no tempo. Voltei a ser menino. Sem barba, sem pressa, sem cansaço. Só sonho. E lá estava eu, em Miracema, com a camisa do Rink colada ao corpo e o coração batendo mais forte que qualquer torcida. O campo não tinha arquibancada, mas tinha história. E tinha eles. Lauro. Cabeludo. Braizinho. Não eram homens. Eram luz. Jogavam fácil, como quem conversa com a bola e ela entende. Eu corria. Tentava acompanhar. Chegava perto, errava, voltava. Como sempre. Mas o sonho… ah, o sonho tem piedade da gente. E então veio. Pelo lado direito, como se o tempo desacelerasse só pra ver melhor. Braizinho toca. Cabeludo sorri com a bola nos pés. Lauro recebe como quem já sabia o final. E eu… eu estava lá. Pela primeira vez, no lugar certo. No tempo certo. A bola veio. Mansa. Redonda. Perfeita. Como um presente guardado a vida inteira. Dominei. O mundo p...

Sábado dos bons no Brasileirão

  Até parece que atenderam às súplicas do torcedor brasileiro. Hoje teremos três jogos do Brasileirão e, acreditem, poderemos assistir a todos na íntegra.   RB Bragantino x Botafogo, às 17h – abre o sábado. Quem leva a melhor? O Massa Bruta está no meio da tabela, enquanto o Glorioso, afundado na zona de rebaixamento, luta para sair da fase ruim e voltar a vencer.   Fluminense x Atlético, às 18h30, no Maracanã – de um lado, o Tricolor precisando de reabilitação; do outro, o Atlético querendo embalar de vez no campeonato depois de vencer e tirar a liderança do São Paulo. Promessa de bom jogo.   São Paulo x Palmeiras, às 21h30, no Morumbi – simplesmente o Derby Paulista que vale a liderança do Brasileirão. Pode ser a melhor partida da rodada. Tem favorito? Diga você, porque eu, simples comentarista, não acredito que haja.   ---

Duas derrotas em 98

 🇫🇷 A Copa do Mundo de 1998 — entre o brilho e o mistério Você captou bem o espírito: o Brasil chegou à final, mas nunca passou confiança plena. Era um time forte no papel — com Ronaldo Nazário e Rivaldo decidindo — mas irregular, meio aos trancos e barrancos. E aquela estreia contra a Scotland national football team já deu o tom: vitória, sim… mas com sofrimento. Depois, o alívio contra Morocco national football team, e a pancada inesperada diante da Norway national football team — ali, como você disse, começou a aparecer algo errado no ambiente. ⚽ Caminho até a final — mais suor do que brilho A goleada sobre o Chile national football team deu aquela falsa sensação de “agora vai”. Mas logo voltou o aperto: Dinamarca: jogo duro, decidido no detalhe Holanda: drama puro… e Cláudio Taffarel virando herói nos pênaltis Ali, muita gente acreditou: “esse time tem estrela”. Só que… 😶 O enigma Ronaldo Você tocou

94 em outra visão

  Copa de 1994: Entre o grito e a barba O grito de Galvão Bueno — “É tetra! É tetra! É tetra!” — ao lado de Pelé, ainda ecoa como um exagero folclórico. Até hoje me pergunto se aquilo foi o pior da Copa de 1994, jogada nos Estados Unidos, ou se foi a frase de Carlos Alberto Parreira, “gol é um mero detalhe”, dita para esculhambar antes de elogiar a conquista de Romário e companhia. Foi a segunda Copa que vivi em Campos dos Goytacazes, minha morada desde 1986, e a primeira em que não participei das decorações de rua. Nem bandeirinhas, nem fogos. Fiz até uma aposta com minha filha: se o Brasil fosse campeão, eu rasparia a barba que cultivava desde 1970. Não acreditava naquele time. Era bom, sim, mas jogava feio. Parreira era o retrato do que havia de pior no nosso futebol: defensivista, adepto do jogo bruto, com Mauro Silva e Dunga segurando o meio sem criatividade alguma. Bons na marcação, péssimos na saída de bola. Na Rua Pereira Nunes, a turma acreditava. Ricardo e seus amigos ped...

Copa 1994

 🇺🇸⚽ COPA DE 94 – A REDENÇÃO Depois do gosto amargo de 90, o Brasil chegou aos Estados Unidos carregando mais desconfiança do que esperança. Era um time eficiente, organizado… mas longe de encantar. Nada de futebol arte como em 82 ou 86. Era outro estilo. Mais pragmático. Mais europeu. E isso incomodava muita gente. Mas tinha algo diferente. Tinha fome. Sob o comando de Carlos Alberto Parreira, o Brasil foi avançando sem fazer barulho. Vitória aqui, empate ali, e o time ia se ajeitando. Não brilhava… mas também não se perdia. Até que surgiram eles. Romário e Bebeto. Dois baixinho, endiabrados, decisivos. Um faro de gol absurdo. O outro, inteligência e parceria. E, juntos, carregaram o Brasil. Veio o jogo contra a Holanda — talvez o grande momento da Copa. 3 a 2, jogo aberto, emoção até o fim. Ali deu pra sentir: podia ser. Na semifinal, a Suécia. Jogo duro. Truncado. Tenso. Até que Romário… claro, ele… subiu mais que todo mundo e fez o gol da classificação. E aí, a final. Brasil ...

Histórias das Copas 1990

COPA DE 90 - A PIOR COPA DOS TEMPOS MODERNOS A Copa da Itália, em 90, parecia ter sido feita exclusivamente para Maradona brilhar intensamente. O argentino, ídolo no país da bota, vivia a melhor fase de sua vida jogando no Nápoles. Ídolo em todo o país, Maradona pensava ter o apoio de todos os italianos. Engano total. O gringo foi vaiado pelos “compatriotas’ e, momento raro, só recebeu aplausos na vitória sobre o Brasil, com aquele gol de Cannigia que ainda está entalado na garganta de muitos brasileiros, alguns tiraram o entalo na Copa de 94 nos Estados Unidos." O Brasil teve um desempenho decepcionante. Sob o comando de Sebastião Lazaroni, que adotou o esquema com três zagueiros, a equipe venceu Suécia, Costa Rica e Escócia sem jogar bem. E quando atuou melhor, um lance genial de Maradona e a conclusão de Cannigia eliminou a equipe da competição. Muitos brasileiros viram a copa nos estádios italianos. Meu amigo Solon, velho jornalista e meu guru eterno, tem muitas histórias sobr...

Histórias das Copas - 1986

 SEU SONHO – MÉXICO 86 Em 1986, por conta de problemas políticos e de um clima de violência provocado pelos narcotraficantes, a Copa do Mundo foi retirada da Colômbia. Três anos antes da competição, em 1983, a FIFA voltou a indicar o México como sede. Mas o México também teve que superar seu drama. Oito meses antes do início da Copa, a Cidade do México e outras regiões foram devastadas por um terremoto que matou cerca de 25 mil pessoas. Era o caos. Era dor. E, mesmo assim, emergiu a força de um povo que decidiu não desistir. O México seguiu em frente — e fez da Copa um símbolo de superação. Do lado de cá, embalados pelo título de 70 e pela esperança renovada, os brasileiros invadiram o país. Filas em agências de viagem, bandeiras nas malas e o samba no coração. Guadalajara e a Cidade do México ganharam um tempero verde e amarelo, com torcedores tomando — no melhor dos sentidos — bares, ruas e estádios. Foi, até então, a maior presença de brasileiros em uma Copa. E, para mim, teve u...

Histórias das Copas 1982

  COPA 82 – DO VOA CANARINHO AO CHORO NA CALÇADA A Copa da Espanha foi mágica e provocativa. A magia fica por conta do futebol do time brasileiro, a provocação ficou a cargo dos italianos, que em um momento de sorte sacaram dos brasileiros a oportunidade de ver um de seus melhores times erguer a Copa do Mundo e dar a volta olímpica como fizera a geração 70.  Sei que o futebol é ingrato, mas vivemos um momento especial naqueles vinte e poucos dias de competição. Fomos da alegria, como cantar o Voa Canarinho, música que o craque Júnior gravou e servia de pano de fundo para as vitórias do Brasil, à decepção, representada pelo choro de pai e filho, o escriba aqui e o Ralph, no meio fio da calçada da Rua João Pessoa lá na Santa Terrinha.  A seleção de Zico, Sócrates e Falcão mereceu um destaque à parte. Após boas vitórias e um futebol extremamente convincente, o time virou unanimidade na crítica internacional,franco favorito ao título. Mas perdeu para a Itália por 3 a 2 (com...

Histórias das Copas 1978

  ARGENTINA 78 – A COPA DAS SOMBRAS A situação na Argentina era das mais delicadas. A linha-dura do regime do general Jorge Rafael Videla impunha censura, repressão e medo. Ainda assim, a realização da Copa do Mundo virou trunfo político para os militares. Houve protestos, pedidos de boicote e pressões para que a FIFA mudasse a sede. Mas o então presidente, o brasileiro João Havelange, foi irredutível. No Brasil, a turbulência era outra. A bronca caía sobre o técnico Cláudio Coutinho. A imprensa e os apaixonados por futebol não engoliam suas improvisações — embora ele carregasse no currículo o sucesso no Flamengo e a participação na preparação física da seleção de 70. Para que a Copa acontecesse, chegou-se a um acordo silencioso: uma espécie de trégua entre militares e grupos de oposição, que prometeram evitar ações durante o torneio. Era o futebol tentando sobreviver em meio ao caos. Na nossa Santa Terrinha, já não tínhamos mais a presença constante do guru Ermenegildo Solon, que ...

Histórias das Copas - 1974

 P RIMEIRA NA ALEMANHA 1974 ALEMANHA 74 – O FIM DO ENCANTO A turma da “Santa Terrinha” estava pronta para repetir a festa de 70. Mas, assim como o time de Zagallo, que seguia no comando da seleção brasileira, o nosso grupo já não era o mesmo. Alguns amigos haviam ido embora, outros já estavam formados, trabalhando, cuidando da vida. Aquele bando que transformava vitória em carnaval fora de época começava a se dispersar. Eu, já noivo e com casamento no horizonte, ainda resistia. Fiquei encarregado de preparar os instrumentos — percussão, sopro, o que fosse preciso — para animar os jogos da primeira fase. Achávamos que viria mais uma festa. Havia expectativa, claro. O Brasil vinha de uma conquista gloriosa no México e, mesmo sem Pelé, ainda tinha um time respeitável: Emerson Leão, Paulo César Carpegiani, Ademir da Guia, Roberto Rivelino, Jairzinho. Ainda éramos vistos como favoritos. Mas quando a bola rolou… a máscara caiu. O ano de 1974 também pesava fora de campo. O general Ernesto...

Histórias das Copas - 1970

    A COPA DA ORGANIZAÇÃO E DO REGIME MILITAR MÉXICO 70 – A COPA QUE MORA NA MEMÓRIA Se a Copa da Inglaterra, em 66, é daquelas que a gente prefere esquecer, a do México, em 70, é para ser guardada com carinho na memória de todos nós — brasileiros e amantes do futebol. Foi a primeira Copa transmitida ao vivo para o Brasil, pela tevê. Foi também, talvez, a única em que houve organização séria e tempo suficiente para preparar uma equipe forte, técnica e fisicamente impecável. Não por acaso, Brito foi considerado o jogador com melhor preparo físico da competição. Nos bastidores, a presença firme dos militares do governo Médici. Em campo, jovens talentos também na comissão: Carlos Alberto Parreira, Admildo Chirol e Cláudio Coutinho. Tudo sob o comando de Mário Jorge Lobo Zagallo, que assumiu após a saída de João Saldanha. Saldanha, comunista declarado, não aceitava interferência na convocação. Uns diziam que caiu por não chamar Dadá Maravilha. Outros, que foi por suas posições pol...

Histórias das Copas - 1966

                                      INGLATERRA 66 – UMA COPA PARA SER ESQUECIDA  Na Copa da Inglaterra, em 1966, eu já acompanhava de perto o noticiário e lia, em O Jornal, os preparativos da nossa seleção. Lembro-me bem uma discussão que tive com o Gilson, que hoje está no Mato Grosso, lá bem pertinho da Bolívia, que também era um apaixonado pela bola e fã de carteirinha dos programas da Rádio Globo. O Gilson me garantia que o Ditão, do Corinthians, estava convocado pela CBD, como era chamada a CBF naquele tempo. “Os dirigentes do Corinthians impuseram a convocação de mais um do elenco e a comissão técnica chamou Ditão, o zagueiro central corintiano”. Eles erraram meu caro Gilson, retrucava o companheiro, escondendo o fato ocorrido nos bastidores, contado por Oduvaldo Cozzi em seu programa das 18h na Rádio Tupi. - Gilson, o convocado foi o Ditão, do Flamengo. Cravei como um entendido n...

Histórias das Coipas - 1962

COPA DO CHILE – AS HISTÓRIAS DO SEU FELISBERTO Esta Copa teve um grande significado para minha cidade, Miracema, no noroeste do Estado do Rio de Janeiro. Foi a primeira vez que ouvi histórias de um torcedor brasileiro presente no local da competição: o pai do amigo Olegário, o Seu Felisberto. Abastado comerciante da cidade, ele viajou ao Chile para ver de perto o escrete canarinho, que tinha entre suas estrelas vários jogadores do Botafogo, sua grande paixão. Garrincha, o ídolo maior, vivia fase espetacular — e, por isso mesmo, o conterrâneo não pensou duas vezes: gastou um bom dinheiro para “voar nas asas da Panair do Brasil”, como gostava de dizer. Seu Felisberto contava que ficou hospedado no mesmo hotel em que estava Elza Soares, a grande musa de Garrincha. Segundo ele, o craque a visitava praticamente todos os dias — encontros, claro, sempre a portas fechadas e sem hora para terminar. — “Como é que aquele camarada pode atuar tão bem naquela Copa?”, perguntava, já rindo. E ele mesm...

Histórias da Copa - 1958

    A COPA DA ORGANIZAÇÃO E DO REGIME MILITAR Se a Copa da Inglaterra é passível de esquecimento, por este motivo contamos apenas detalhes de bastidores e pré-copa, a do México, em 70, é para ficar guardada na memória de todos nós, brasileiros e desportistas. Foi a primeira a ser mostrada para o Brasil, via tevê, e a única em que tivemos uma organização séria e com tempo hábil para se preparar uma equipe forte e saudável, tanto que Brito foi considerado o melhor preparo físico da competição. Nos bastidores trabalhavam militares de confiança do Presidente Médici, em campo os jovens capitães Parreira, Carlesso e Coutinho faziam parte da comissão técnica comandada por Antonio do Passo, um cartola carioca acostumado ao poder do futebol.  Curiosamente o primeiro comandante deste time era um comunista de carteirinha, João Saldanha, que dizem ter sido deposto do cargo por não aceitar interferência em sua convocação, apostavam que ele foi demitido por não ter convocado Dario, o P...

Como o tempo passa rápido

  Olhar para essa foto é entender que o tempo não apenas passou; ele construiu. Entre o sim de 1975 e o horizonte de 2025, lá se vão cinco décadas de uma estrada percorrida a dois. O título "Aqui tem Ouro" não é força de expressão; é a constatação de um metal que foi forjado no dia a dia, nas viagens pelo mundo e na criação de uma família que é o maior legado dessa união. ​Na imagem, o cenário europeu ao fundo parece emoldurar o que realmente importa: o sorriso de quem sabe que tem um porto seguro ao lado. Marina, com o brilho no olhar de quem atravessou tempestades e bonanças, e você, Adilson, com a serenidade de quem soube ser o capitão dessa jornada. ​Esses 50 anos não são apenas um número no calendário. São milhares de quilômetros rodados, crônicas escritas nas entrelinhas da vida e a certeza de que, de todos os destinos que os "andarilhos do mundo" visitaram, o melhor lugar sempre foi um ao lado do outro.

Falso fantasma

Durante décadas, uma lenda assustou incrédulos e curiosos em Miracema. Muitos juravam ter visto, outros zombavam das histórias contadas pelos atiradores do Tiro de Guerra 217 , que garantiam existir um velho soldado — um atirador morto em serviço, embora ninguém jamais tenha confirmado isso — que voltava para atormentar os rapazes de plantão. Se existem duas histórias sobre o tal fantasma, de uma eu fui testemunha ocular. A outra deu origem a toda essa lenda. A primeira aconteceu no primeiro ano do sargento Lecine no comando da tropa de Miracema. Durante uma noite de guarda, alguns soldados começaram a ouvir passos no salão de reuniões, localizado acima do dormitório e da sala de armas. E não eram apenas passos. Junto com eles vinha o som de um instrumento musical, tocando suavemente, sem parar, como se alguém estivesse ali ensaiando na madrugada. O susto foi geral. Os rapazes saíram às pressas do prédio e se reuniram em frente à prefeitura. No dia seguinte o boato correu pela tropa ...

Tarciso

  Certa vez comentei aqui sobre minhas aventuras de “vendedor” pelas ruas da minha Miracema, pelos parques e circos que chegavam à cidade e, principalmente, nas filas do Cine Sete e do Cine XV, tentando angariar algum dinheiro para os matinês de sábado. Também falei do meu tempo de engraxate, dos amigos que dividiam as calçadas comigo. O tempo passou e, felizmente, tudo deu certo em meu caminho e cá estou hoje, já grandinho e quase um setentão miracemense, falando e escrevendo sobre os personagens e os fatos da nossa terrinha. E hoje faço um abre-alas para um personagem que já caminha para meio século de presença no nosso jardim. Sempre alegre, educado e com um carinho especial pelas crianças que frequentam o parque. Elas puxam os pais pela mão e pedem: — Quero pipoca do seu Tarcísio! E ele, sempre com um belo e largo sorriso, atende a todos contando um causo ou lembrando do pai, do avô ou de algum parente da criança que está à sua frente. Tarcísio conhece a história de muita ...

Desde 1985

  Assim que cheguei por aqui, em outubro de 1985, um amigo do banco me disse: — Em Campos, naquele tempo ainda não havia sido agregado o sobrenome “dos Goytacazes”, temos o segundo melhor carnaval do Rio de Janeiro e o melhor do interior fluminense. Claro que discordei. Poderia até ser o maior desfile de agremiações carnavalescas do interior, com blocos, bois — que não são pintadinhos como os nossos — e toda aquela estrutura. Porém… sempre existe um porém. Faltava animação, organização e, principalmente, não havia carnaval de rua como na minha Miracema. O tempo passou e nós dois deixamos de participar das coberturas carnavalescas. Nunca havia horário certo para começar ou terminar os desfiles e nós, radialistas e jornalistas, ficávamos à mercê dos donos dos blocos e da boa vontade das agremiações para entrar na Avenida XV de Novembro. Foram tantos atrasos que me aborreci até chegar o dia do basta. Serginho também decidiu parar. No ano seguinte, ele me procurou e disse: — Vo...

A Merche do Lúcio

  O Bar Pracinha e o “Merche” Mexido O Bar Pracinha, que conheci na esquina da Rua Francisco Procópio com a Rua Direita, guarda histórias incríveis e personagens inesquecíveis. Ali passaram ricos e pobres, brancos, negros, mulatos e índios. Gente de todo tipo viveu momentos especiais naquele que, no meu ponto de vista, foi o bar mais elegante da cidade. Principalmente no prédio antigo, o da famosa esquina, já comentado em outras crônicas. Havia ali uma atmosfera que lembrava os bares europeus dos anos 1950 — balcão imponente, garçons atentos, conversa alta e aquele ar de importância que só certos lugares conseguem manter. Conheci o Pracinha já na administração dos Irmãos Salim — Jofre, Nacif e José — vindos de Palma, Minas Gerais, para viver seus grandes momentos em Miracema. Com amor, dedicação e espírito inovador, comandaram o estabelecimento numa época em que o município vivia talvez seu melhor momento comercial e industrial. Cada um que frequentou o Pracinha até seu fechamento ...

Cajá e tiro de sal

  Tiro de Sal, Cajá-Manga e Rua Direita Relendo esta crônica, escrita há alguns anos, percebo que já havia ali uma vontade de segurar o tempo pelas mãos. Hoje, com mais estrada percorrida, entendo melhor: não eram apenas lembranças. Era gratidão. Gratidão por ter vivido uma Miracema de portas abertas, quintais generosos e amizades que atravessaram décadas. Andando pelas calçadas de Miracema, olhando os belos casarões da Rua Direita e admirando a beleza do nosso Jardim, encontro dois amigos da velha guarda: Naipe — Luiz Alberto Aguiar — e Jorge Neiva, nosso querido Dodote. Bastou o cumprimento para que um punhado de recordações viesse à tona. Vieram gargalhadas. Vieram lágrimas. Lágrimas de alegria por estarmos vivos… e de tristeza ao perceber como o tempo passou rápido demais, levando tantos amigos queridos do nosso convívio. Minha prima Janete passou, parou, me deu um abraço e um beijo apressado: — Depois a gente se fala com calma, vou ali na Leader ver algo para minha mãe. ...
 Tiro de Sal, Cajá-Manga e Rua Direita Andando pelas calçadas de Miracema, olhando os belos casarões da Rua Direita e admirando a beleza do nosso Jardim, encontro dois amigos da velha guarda: Naipe — Luiz Alberto Aguiar — e Jorge Neiva, nosso querido Dodote. Bastou o cumprimento para que um punhado de recordações viesse à tona. Vieram gargalhadas. Vieram lágrimas. Lágrimas de alegria por estarmos vivos… e de tristeza ao perceber como o tempo passou rápido demais, levando tantos amigos queridos do nosso convívio. Minha prima Janete passou, parou, me deu um abraço e um beijo apressado: — Depois a gente se fala com calma, vou ali na Leader ver algo para minha mãe. Saiu andando e deixou no ar a pergunta: — Quem é a moça? Respondi: — Filha da tia Maria, neta do Seu Pedrinho Soares. Foi o bastante. Naipe abriu aquele sorriso antigo: — Eita! Quantas vezes entramos no quintal do Seu Pedrinho para pegar cajá-manga! E lá em cima, subindo pelo Ribeirão Santo Antônio, tinha o pomar do Seu Lino...

O dilema do aluno

                  Músicas de                           Parque  de  Diversões Na noite passada recebi a visita do amigo e vizinho Marco Aurélio Motta. Sentamos para ouvir as músicas dos tempos de “pé de valsa do Grêmio do Nossa Senhora das Graças. Ele, dos salões do Automóvel Clube Fluminense. O repertório era praticamente o mesmo: Beatles, Elvis, Bee Gees, Roberto Carlos, Os Incríveis e tantos outros que embalaram os anos 70. Porém... 畕 há sempre um porém. Existe um sonho que pousava em Miracema nos anos 60. Tenho no Spotify uma playlist que volta e meia coloco para tocar: “Músicas de Parque de Diversões”. E não é por acaso. Uma das m4./~inhas formas de ganhar dinheiro para o cinema e para as noites na Rua Direita, depois das sessões do Cine XV, era trabalhar nas cabines de música dos parques que armavam seus brinquedos na pracinha em frente ao Colégio Nossa Senho...