quinta-feira, 26 de março de 2026

O Trem da Valle

 

Um trem para Minas

Na locomotiva que seguia de Vitória a Governador Valadares, “Seu” Albino, mineiro de 94 anos, falava com a energia de um rapaz. Lúcido, opinativo e cheio de histórias, lembrava sua vida no Exército e a passagem pela Segunda Guerra. Entre goles de café e comentários sobre política, confessava: “Já não encontro alegria em torcer pelo Flamengo ou pelo América. Assim como na vida, às vezes é preciso mudar de rumo”.

No mesmo vagão, Carlos Augusto ironizava nossa paixão pelo futebol: “Conheço Garrincha, Pelé, Maradona… mas não entendo como vocês gastam tanto tempo com essas discussões”. França, ao contrário, trazia o futebol como memória viva. Aos 75 anos, emocionou-se ao recordar Miracema: os craques locais, os bailes do Aeroclube, o Colégio Miracemense. Cada lembrança reacendia nele a chama da juventude.

A viagem pelo Rio Doce tornou-se mais que deslocamento: foi encontro de gerações, de opiniões e de saudades. Entre causos, risadas e confidências, o trem transformou-se em palco de histórias que não se apagam. Para Albino, Carlos Augusto e França, e também para nós, foi uma travessia que misturou passado e presente — e que ficará guardada como uma das mais belas jornadas por Minas Gerais.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Diário de viagem

 DIARIO DE UMA VIAGEM


O projeto de ir a Europa, em viagem cultural e de lazer, começou a ser traçado em 2005, logo após ver frustrada uma possibilidade de seguir com a mesma passagem, ganha em concurso da Sky, que nos levou a Madrid para ver um jogo de futebol entre os times da capital espanhola, Real x Atlético, que culminou com um belo passeio até Toledo, cidade medieval e primeira capital dos espanhóis.

Ficamos, eu e Marina, cerca de um ano escolhendo roteiro em revistas especializadas, na internet e no Caderno de Turismo do Globo. Grécia? Sim. Dizia Marina. Áustria? Pensava eu quieto para não influenciar a decisão da esposa. Quem sabe Fátima, Lourdes, Campostela, Vaticano ou até mesmo Israel? É muito, a grana não dá para tantos quilômetros a percorrer. O tempo passa e os projetos estão engavetados, falta o principal, dinheiro disponível e que não comprometerá o futuro da família Dutra.

Março chega e com ele uma boa surpresa. A justiça do trabalho determina o pagamento de um processo, contra o FGTS, e pimba, voltamos a idéia de rodar pelo Velho Continente como turistas culturais. Lá vem de novo a escolha e, claro, a Itália está no roteiro e Portugal ganha força porque a visita a Fátima é fundamental para todos nós, católicos e fervorosos devotos de Nossa Senhora. 

Roteiro nas mãos e lá vamos nós para a Esperança Turismo fazer as contas e projetar definitivamente nossa viagem. Com o apoio do Júnior fizemos as escolhas e chegamos a conclusão que Brasileiros na Europa era o que havia de melhor e que iria preencher todos os nossos requisitos. Portugal, com Estoril, Cascais, Sinta e Fátima, além de uma breve passagem por Monsanto, seguindo para a Espanha, onde poderíamos rever Madri e Toledo, e conhecer Zaragoza, com sua imponente catedral dedicada a Nossa Senhora do Pilar, e Barcelona, berço catalão e uma das cidades mais visitadas do mundo.

Até aí tudo bem, estávamos no rumo certo e o roteiro foi se completando com Nice e Mônaco, entrando na França para alcançarmos a Itália, onde visitaríamos Pisa, passando por Gênova, e seguindo para Roma, onde encontraríamos com o primo Miguel e eu estaria realizando o antigo sonho de ver o Coliseu, o Vaticano, as ruínas e a Roma Romântica, tão badalada em filmes e documentários. O sonho estava vivo e os passeios adicionais estavam sendo imaginados, claro que para isto era preciso alguns euros a mais.

E mais alguns dias de conversa, eu e Marina ficamos pelo menos duas semanas definindo como seria o nosso trajeto e mentalizamos uma possível visita a Suíça, que não estava no roteiro original e sim no roteiro da CVC, empresa ligada a Europamundo, que nos levou pela Europa em ônibus especial. De Roma, para chegar a Lugano, Lucerna, Zurique e Berna, na Suíça, teríamos que passar por Florença e Veneza, ambas cidades histórias no norte da Itália, incluídas em nosso roteiro original, e que preenche qualquer agenda de um viajante iniciante. 

Fecharíamos finalmente nosso roteiro em Paris, onde por três dias passearíamos pelas ruas da mais famosa cidade do mundo e transformaria o sonho de Marina, de ver de perto o Museu do Louvre, em realidade. Torre Eiffel, Rio Sena, Bateaux Mouche, Arco do Triunfo, Can-Can, luz, saber e alegria. Tudo isto é Paris e lá vamos nós para nossa primeira aventura na Europa.

DIÁRIO DE UMA VIAGEM 2

Saímos do Rio por volta das 17 horas do dia onze de setembro, o Carlos Fernando Motta nos levou ao Aeroporto Tom Jobim onde pegamos o vôo 0479 da TAP rumo a Lisboa, capital portuguesa e primeira parada de nosso roteiro. Nossa viagem foi tranqüila, apesar do pequeno mal estar que quase me fez pensar em desistir, antes mesmo do avião começar a taxiar no pátio do Galeão. Um comprimido de Alcadil resolveu o problema e a viagem transcorreu em absoluta calmaria, muito embora eu tenha certeza de que Marina estava preocupada comigo.

Chegamos por volta das sete da manhã no Aeroporto de Lisboa, onde fomos recebidos pelo agente da Europamundo, que nos levou ao Arts Lisboa Hotel e aos poucos fomos nos entrosando com o grupo de mineiros liderados pelo guia Fábio, que chegara ao mesmo tempo em que nós nos registrávamos na portaria do hotel. Aos poucos formos conhecendo casais e firmando novas parcerias. A primeira destas foi com um casal, que já ultrapassou a faixa dos setenta anos, Júlio e Marieta, com quem almoçamos em um shoping próximo ao Arts Hotel. 



terça-feira, 24 de março de 2026

Sábado, em Miracema, com chuva e futebol


Sábado, muita chuva e um frio fora de época, pego o tênis, o boné e deixo o celular em casa, para que ninguém incomode as minhas andanças pelo centro da cidade em busca de um tema novo para prosear aqui, neste espaço, com os amigos deste “Papo de Bola”. 

Ando por ali, volto por aqui, chego às esquinas e nada, ninguém comenta, ninguém opina sobre o velho e querido esporte bretão. 

O papo era de política e como saí de casa, arriscando um resfriado, que com certeza virá, dou uma parada no Bar Central, onde encontro meu amigo Ricardo, ainda se restabelecendo de um problema coronário, este tenta me dizer alguma coisa sobre o seu Botafogo, velho Fogão que já deu lenha e que já nos deixou, torcedores rubro negros, encostados à beira de um balcão, sem flor, chorando mágoas e tomando todas por esta ou aquela vitória alvinegra.

Tenho saudades do Ricardo, também do Glorioso Botafogo, que um dia me deu raiva, mas quando aquelas feras se juntavam na seleção brasileira, ah!, dava prá sentir a felicidade no rosto de qualquer brasileiro, mesmo estes que neste sábado chuvoso e frio, querem ficar falando de política. 

Eu, até que dou razão a esta turma, tenho um pensamento sobre este fenômeno extemporâneo. O que faz este grupo se esconder do papo de bola é a fase ruim do futebol do Rio de Janeiro, pode acreditar. Sei que quando tudo isto passar não há Lula, Ciro, Serra ou Garotinho que suplantem o amor destes brasileiros pela bola, principalmente em se tratando de Campeonato Brasileiro, hoje com um espaço bem maior do que os estaduais velhos de guerra.

Mas eu dizia que tinha saudades do Ricardo, meu bom parceiro, que quando jovem me deu muita botinada nas canelas tentando me parar na defesa do seu Operário. Hoje o Ricardo reclama, com razão, que o seu Bar Central já não produz mais discussões frenéticas como no tempo do seu pai, o velho e bom Zé Careca, que debaixo do seu estilo silencioso sabia, como ninguém, colocar um pouco de pimenta nas “brigas” esportivas. 

“O nível e o número das apostas caiu bastante”, reclama o bom Ricardo. “Isto aqui fervia quando havia clássico carioca. Se apostava até em quem cederia o primeiro lateral”. 

Isto eu presenciei, e acredito que em todo o país os apostadores do futebol faziam o mesmo, mas hoje, além do dinheiro curto, as emoções do futebol já não mexem conosco, muito pelo contrário, até se foge do assunto em prol de um papo de política.

Adentrando um pouco mais encontro o Di Breu, flamenguista, apostador, ex-jogador e hoje um torcedor frustrado. É dele a principal reclamação do dia. “Pô, cara. A gente fica plantado em frente a tevê e espera, espera, espera e nada”. 

Acho que o leitor, que é inteligente, entendeu a bronca do Di Breu. Ele simplesmente, debaixo de sua humildade e pouca instrução, disse tudo aquilo que está acontecendo no futebol do nosso Estado do Rio. Nada, simplesmente nada. Uma pena, mas é a dura realidade.

Como o sábado estava acabado e a boa conversa estava reservada apenas para os salões dos bares, resolvi voltar prá casa do Arthur, meu cunhado, olha o Botafogo aí outra vez, para sentar-me à mesa e prosear um pouco mais sobre as coisas do futebol. Ali, pelo menos, o clássico Fogão x  Mengão, terminava sempre empatado, duas prá lá e duas prá cá. Depois disso uma soneca e mais uma vez uma “pelada” na tevê, afinal, ninguém é de ferro e o futebol faz parte de nossa vida.

domingo, 22 de março de 2026

Sonho de artilheiro


GOL QUE ESPEROU POR MIM

Naquela madrugada,

quando o calor nem deixava o sono descansar direito,

eu viajei.

Não de ônibus,

não de trem,

nem de avião.

Viajei no tempo.

Voltei a ser menino.

Sem barba, sem pressa, sem cansaço.

Só sonho.

E lá estava eu,

em Miracema,

com a camisa do Rink colada ao corpo

e o coração batendo mais forte que qualquer torcida.

O campo não tinha arquibancada,

mas tinha história.

E tinha eles.

Lauro.

Cabeludo.

Braizinho.

Não eram homens.

Eram luz.

Jogavam fácil,

como quem conversa com a bola

e ela entende.

Eu corria.

Tentava acompanhar.

Chegava perto,

errava,

voltava.

Como sempre.

Mas o sonho…

ah, o sonho tem piedade da gente.

E então veio.

Pelo lado direito,

como se o tempo desacelerasse só pra ver melhor.

Braizinho toca.

Cabeludo sorri com a bola nos pés.

Lauro recebe como quem já sabia o final.

E eu…

eu estava lá.

Pela primeira vez,

no lugar certo.

No tempo certo.

A bola veio.

Mansa.

Redonda.

Perfeita.

Como um presente guardado a vida inteira.

Dominei.

O mundo parou.

Não havia moto.

Não havia barulho.

Não havia Belo Horizonte.

Só Miracema.

Só o campo.

Só eu…

e o gol.

Bati.

Sem força.

Sem medo.

Com tudo o que eu fui,

com tudo o que eu sonhei ser.

A bola entrou.

Devagar,

como quem respeita o momento.

Rede balançando.

Silêncio bonito.

Depois… alegria.

Eles vieram.

Lauro me abraçou.

Cabeludo riu daquele jeito solto.

E Braizinho…

Braizinho olhou pra mim

como quem diz:

— Demorou, mas você chegou.

Acordei.

Sem grito.

Sem susto.

Só com um sorriso molhado.

Porque tem sonhos

que não acabam quando a gente abre os olhos.

Eles ficam.

Esperando a gente voltar.

Ou…

esperando a gente ir 


sábado, 21 de março de 2026

Sábado dos bons no Brasileirão

 Até parece que atenderam às súplicas do torcedor brasileiro. Hoje teremos três jogos do Brasileirão e, acreditem, poderemos assistir a todos na íntegra.  

RB Bragantino x Botafogo, às 17h – abre o sábado. Quem leva a melhor? O Massa Bruta está no meio da tabela, enquanto o Glorioso, afundado na zona de rebaixamento, luta para sair da fase ruim e voltar a vencer.  

Fluminense x Atlético, às 18h30, no Maracanã – de um lado, o Tricolor precisando de reabilitação; do outro, o Atlético querendo embalar de vez no campeonato depois de vencer e tirar a liderança do São Paulo. Promessa de bom jogo.  

São Paulo x Palmeiras, às 21h30, no Morumbi – simplesmente o Derby Paulista que vale a liderança do Brasileirão. Pode ser a melhor partida da rodada. Tem favorito? Diga você, porque eu, simples comentarista, não acredito que haja.  


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sexta-feira, 20 de março de 2026

Duas derrotas em 98

 🇫🇷 A Copa do Mundo de 1998 — entre o brilho e o mistério

Você captou bem o espírito: o Brasil chegou à final, mas nunca passou confiança plena. Era um time forte no papel — com Ronaldo Nazário e Rivaldo decidindo — mas irregular, meio aos trancos e barrancos.

E aquela estreia contra a Scotland national football team já deu o tom: vitória, sim… mas com sofrimento. Depois, o alívio contra Morocco national football team, e a pancada inesperada diante da Norway national football team — ali, como você disse, começou a aparecer algo errado no ambiente.

⚽ Caminho até a final — mais suor do que brilho

A goleada sobre o Chile national football team deu aquela falsa sensação de “agora vai”. Mas logo voltou o aperto:

Dinamarca: jogo duro, decidido no detalhe

Holanda: drama puro… e Cláudio Taffarel virando herói nos pênaltis

Ali, muita gente acreditou: “esse time tem estrela”. Só que…

😶 O enigma Ronaldo

Você tocou

quinta-feira, 19 de março de 2026

94 em outra visão

 

Copa de 1994: Entre o grito e a barba

O grito de Galvão Bueno — “É tetra! É tetra! É tetra!” — ao lado de Pelé, ainda ecoa como um exagero folclórico. Até hoje me pergunto se aquilo foi o pior da Copa de 1994, jogada nos Estados Unidos, ou se foi a frase de Carlos Alberto Parreira, “gol é um mero detalhe”, dita para esculhambar antes de elogiar a conquista de Romário e companhia.

Foi a segunda Copa que vivi em Campos dos Goytacazes, minha morada desde 1986, e a primeira em que não participei das decorações de rua. Nem bandeirinhas, nem fogos. Fiz até uma aposta com minha filha: se o Brasil fosse campeão, eu rasparia a barba que cultivava desde 1970. Não acreditava naquele time. Era bom, sim, mas jogava feio. Parreira era o retrato do que havia de pior no nosso futebol: defensivista, adepto do jogo bruto, com Mauro Silva e Dunga segurando o meio sem criatividade alguma. Bons na marcação, péssimos na saída de bola.

Na Rua Pereira Nunes, a turma acreditava. Ricardo e seus amigos pediam contribuição para fogos e ornamentação. Eu, descrente, prometi pagar a cerveja e dividir a churrascada se o título viesse. Loucura. Antes mesmo das cobranças de pênalti, já tinham comprado um engradado de “gelada da Boa” no bar do Joélcio — na minha conta.

E a barba? Raspei no dia seguinte, na barbearia do Vicente, durante o almoço no Banerj. Cumpri a promessa para Gisele, minha filha, que não gostou nada e exigiu que eu deixasse crescer de novo.

Sobre a conquista, pouco há a acrescentar. Hoje a internet e os canais esportivos já contam tudo em detalhes. Mas lembro bem: a Argentina só não foi campeã porque caçaram Maradona no antidoping. Era meu time favorito. No Brasil, Raí foi a grande decepção; Mazinho, a surpresa positiva. E sim, comemorei. Bastaram dez passos até a Avenida Pelinca para cair no meio da festa que varou a madrugada.

Naquele 1994, havia também quem protestasse. Gente nas ruas pedindo que o governo olhasse para os gastos da CBF e não desviasse dinheiro da saúde e da educação. Parece com os dias de hoje, não é?

Copa 1994

 🇺🇸⚽ COPA DE 94 – A REDENÇÃO

Depois do gosto amargo de 90, o Brasil chegou aos Estados Unidos carregando mais desconfiança do que esperança.

Era um time eficiente, organizado… mas longe de encantar. Nada de futebol arte como em 82 ou 86. Era outro estilo. Mais pragmático. Mais europeu. E isso incomodava muita gente.

Mas tinha algo diferente.

Tinha fome.

Sob o comando de Carlos Alberto Parreira, o Brasil foi avançando sem fazer barulho. Vitória aqui, empate ali, e o time ia se ajeitando. Não brilhava… mas também não se perdia.

Até que surgiram eles.

Romário e Bebeto.

Dois baixinho, endiabrados, decisivos. Um faro de gol absurdo. O outro, inteligência e parceria. E, juntos, carregaram o Brasil.

Veio o jogo contra a Holanda — talvez o grande momento da Copa. 3 a 2, jogo aberto, emoção até o fim. Ali deu pra sentir: podia ser.

Na semifinal, a Suécia. Jogo duro. Truncado. Tenso.

Até que Romário… claro, ele… subiu mais que todo mundo e fez o gol da classificação.

E aí, a final.

Brasil x Itália.

Duas camisas pesadas. Duas histórias gigantes. Mas dentro de campo… quase nada. Um jogo amarrado, travado, nervoso. Ninguém queria errar.

E ninguém errou.

0 a 0.

Pênaltis.

Coração na boca.

Um por um… até chegar nele.

Roberto Baggio.

Craque. Gênio. O homem da Itália na Copa.

Correu… bateu…

Pra fora.

O céu era verde e amarelo naquele instante.

O Brasil era tetracampeão do mundo.

Depois de 24 anos.

Depois de tantas quedas.

Depois de tanta cobrança.

Era mais do que um título.

Era alívio.

Era redenção.

Era o grito preso desde 70.

E, no meio de tudo isso, ficou uma imagem eterna: Bebeto balançando os braços, embalando um bebê invisível, homenageando o filho que acabara de nascer.

Ali, o futebol virou poesia.

Porque, no fim das contas, 94 não foi a Copa mais bonita.

Mas foi a mais necessária.

E, talvez por isso… uma das mais inesquecíveis.

🇧🇷💛💚

Histórias das Copas 1990


COPA DE 90 - A PIOR COPA DOS TEMPOS MODERNOS

A Copa da Itália, em 90, parecia ter sido feita exclusivamente para Maradona brilhar intensamente. O argentino, ídolo no país da bota, vivia a melhor fase de sua vida jogando no Nápoles. Ídolo em todo o país, Maradona pensava ter o apoio de todos os italianos. Engano total.

O gringo foi vaiado pelos “compatriotas’ e, momento raro, só recebeu aplausos na vitória sobre o Brasil, com aquele gol de Cannigia que ainda está entalado na garganta de muitos brasileiros, alguns tiraram o entalo na Copa de 94 nos Estados Unidos."

O Brasil teve um desempenho decepcionante. Sob o comando de Sebastião Lazaroni, que adotou o esquema com três zagueiros, a equipe venceu Suécia, Costa Rica e Escócia sem jogar bem. E quando atuou melhor, um lance genial de Maradona e a conclusão de Cannigia eliminou a equipe da competição.

Muitos brasileiros viram a copa nos estádios italianos. Meu amigo Solon, velho jornalista e meu guru eterno, tem muitas histórias sobre esta passagem pela Velha Bota. “Foi a Copa dos belos passeios. Quem tinha criatividade ou grana no bolso, fez turismo de verdade.

Eu, com o suficiente para passar vinte dias rodando atrás da seleção brasileira, aproveitei a boa vontade de um casal paulista cuja mulher, maravilhosa, tinha sempre um programa pronto, viajei por todos os cantos da Itália”, conta o bom companheiro Solon.

“Fizemos um passeio em Veneza, que lugar maravilhoso meu caro Dutra, fomos jantar em um restaurante chique. Madame Vanusa, vamos chamá-la assim, gostou de um garçom francês, foi a nossa sorte.

O cara também gostou da madame e, pobre Januário, pagaria a conta desde que a patroa tirasse umas fotos com ele em uma gôndola. Os dois saíram, com aquiescência do marido, e voltaram quase uma hora depois, quando já havíamos tomado um punhado de vinhos e comido bons quitutes da culinária italiana. A conta? O garçom não deixou ninguém pagar”.

Sobre o futebol nada a acrescentar. Foi um dos piores campeonatos do mundo de todos os tempos. Os números também comprovam o baixo nível técnico e a pouca disposição ofensiva mostrados pelas 24 seleções. A média de 2,21 gols por jogo foi a menor da história das Copas. Além disso, as duas semifinais foram definidas nos pênaltis. Nem mesmo as seleções tradicionalmente mais ofensivas, como Brasil e Argentina, mostraram bom futebol. A equipe brasileira, sob o comando de Sebastião Lazaroni, quis imitar o estilo europeu, com líbero e alas em vez de laterais. O resultado foi desastroso. Sem criatividade no meio-campo, o Brasil perdeu poder ofensivo e acabou eliminado nas oitavas-de-final pela eterna rival Argentina. Foi a pior participação brasileira desde 1966.

No dia do jogo contra a Argentina, em Turim, quando o Brasil foi eliminado, nosso personagem teve problemas com um motorista de táxi. “Nós vínhamos de uma visita à fábrica de automóveis Fiat, que fica nos arredores de Turim.

Nosso motorista acreditou que éramos ricos e praticamente forçou um seqüestro relâmpago. Mais uma vez fomos salvos pela esposa do Januário, que desceu do carro e ameaçou fazer um escândalo caso o motorista não nos liberasse, segundo Madame Vanusa ele não estava armado. Ela tirou a roupa e ficou seminua na auto estrada e um carro de polícia parou por ali e nos livrou daquele taxista safado”.

Voltando à Copa, que teve a Alemanha como campeã, o terceiro título alemão, a única equipe que brilhou em 1990 foi a de Camarões. Sem grandes pretensões, os africanos surpreenderam o mundo ao baterem os campeões logo na estréia com um futebol aberto e ofensivo. Comandados pelo veterano Roger Milla, autor de quatro gols no torneio, alcançaram as quartas-de-final. Foram eliminados pela Inglaterra apenas na prorrogação



COPA DE 90 - A PIOR COPA DOS TEMPOS MODERNOS


A Copa da Itália, em 90, parecia ter sido feita exclusivamente para Maradona brilhar intensamente. O argentino, ídolo no país da bota, vivia a melhor fase de sua vida jogando no Nápoles. Ídolo em todo o país, Maradona pensava ter o apoio de todos os italianos. Engano total. 

O gringo foi vaiado pelos “compatriotas’ e, momento raro, só recebeu aplausos na vitória sobre o Brasil, com aquele gol de Cannigia que ainda está entalado na garganta de muitos brasileiros, alguns tiraram o entalo na Copa de 94 nos Estados Unidos."

O Brasil teve um desempenho decepcionante. Sob o comando de Sebastião Lazaroni, que adotou o esquema com três zagueiros, a equipe venceu Suécia, Costa Rica e Escócia sem jogar bem. E quando atuou melhor, um lance genial de Maradona e a conclusão de Cannigia eliminou a equipe da competição.

Muitos brasileiros viram a copa nos estádios italianos. Meu amigo Solon, velho jornalista e meu guru eterno, tem muitas histórias sobre esta passagem pela Velha Bota. “Foi a Copa dos belos passeios. Quem tinha criatividade ou grana no bolso, fez turismo de verdade. 

Eu, com o suficiente para passar vinte dias rodando atrás da seleção brasileira, aproveitei a boa vontade de um casal paulista cuja mulher, maravilhosa, tinha sempre um programa pronto, viajei por todos os cantos da Itália”, conta o bom companheiro Solon.

“Fizemos um passeio em Veneza, que lugar maravilhoso meu caro Dutra, fomos jantar em um restaurante chique. Madame Vanusa, vamos chamá-la assim, gostou de um garçom francês, foi a nossa sorte. 

O cara também gostou da madame e, pobre Januário, pagaria a conta desde que a patroa tirasse umas fotos com ele em uma gôndola. Os dois saíram, com aquiescência do marido, e voltaram quase uma hora depois, quando já havíamos tomado um punhado de vinhos e comido bons quitutes da culinária italiana. A conta? O garçom não deixou ninguém pagar”. 

Sobre o futebol nada a acrescentar. Foi um dos piores campeonatos do mundo de todos os tempos. Os números também comprovam o baixo nível técnico e a pouca disposição ofensiva mostrados pelas 24 seleções. A média de 2,21 gols por jogo foi a menor da história das Copas. Além disso, as duas semifinais foram definidas nos pênaltis. Nem mesmo as seleções tradicionalmente mais ofensivas, como Brasil e Argentina, mostraram bom futebol. A equipe brasileira, sob o comando de Sebastião Lazaroni, quis imitar o estilo europeu, com líbero e alas em vez de laterais. O resultado foi desastroso. Sem criatividade no meio-campo, o Brasil perdeu poder ofensivo e acabou eliminado nas oitavas-de-final pela eterna rival Argentina. Foi a pior participação brasileira desde 1966. 

No dia do jogo contra a Argentina, em Turim, quando o Brasil foi eliminado, nosso personagem teve problemas com um motorista de táxi. “Nós vínhamos de uma visita à fábrica de automóveis Fiat, que fica nos arredores de Turim. 

Nosso motorista acreditou que éramos ricos e praticamente forçou um seqüestro relâmpago. Mais uma vez fomos salvos pela esposa do Januário, que desceu do carro e ameaçou fazer um escândalo caso o motorista não nos liberasse, segundo Madame Vanusa ele não estava armado. Ela tirou a roupa e ficou seminua na auto estrada e um carro de polícia parou por ali e nos livrou daquele taxista safado”. 

Voltando à Copa, que teve a Alemanha como campeã, o terceiro título alemão, a única equipe que brilhou em 1990 foi a de Camarões. Sem grandes pretensões, os africanos surpreenderam o mundo ao baterem os campeões logo na estréia com um futebol aberto e ofensivo. Comandados pelo veterano Roger Milla, autor de quatro gols no torneio, alcançaram as quartas-de-final. Foram eliminados pela Inglaterra apenas na prorrogação


Histórias das Copas - 1986

 SEU SONHO – MÉXICO 86

Em 1986, por conta de problemas políticos e de um clima de violência provocado pelos narcotraficantes, a Copa do Mundo foi retirada da Colômbia. Três anos antes da competição, em 1983, a FIFA voltou a indicar o México como sede.

Mas o México também teve que superar seu drama. Oito meses antes do início da Copa, a Cidade do México e outras regiões foram devastadas por um terremoto que matou cerca de 25 mil pessoas. Era o caos. Era dor. E, mesmo assim, emergiu a força de um povo que decidiu não desistir. O México seguiu em frente — e fez da Copa um símbolo de superação.

Do lado de cá, embalados pelo título de 70 e pela esperança renovada, os brasileiros invadiram o país. Filas em agências de viagem, bandeiras nas malas e o samba no coração. Guadalajara e a Cidade do México ganharam um tempero verde e amarelo, com torcedores tomando — no melhor dos sentidos — bares, ruas e estádios.

Foi, até então, a maior presença de brasileiros em uma Copa. E, para mim, teve um gosto ainda mais especial: até a minha querida “Santa Terrinha” mandou sua comitiva, liderada pelo inesquecível compadre João Moreno — padrinho do meu Leandro Dutra — que partiu cedo demais, mas deixou lembranças eternas.

Era o Brasil de arquibancada raiz: corneta, palavrão, cerveja sem medida e uma paixão que transbordava. Como dizia meu amigo de infância, Geneci Pestana, que ali vivia sua sexta Copa: era assim que se empurrava a Seleção rumo ao tetra.

Dentro de campo, foi a Copa dos fenômenos. De um lado, a encantadora Dinamarca, que surgiu como um furacão e conquistou a simpatia dos mexicanos. Do outro, um gênio em estado puro: Diego Armando Maradona.

Entre os favoritos, Argentina, França e Brasil mostraram força desde a primeira fase. O time de Telê Santana fez campanha impecável: três vitórias, nenhum gol sofrido. Passou pela Polônia com autoridade — 4 a 0 — e alimentou o sonho.

Até que veio a França.

O Brasil abriu o placar com Careca. Jogava bem. Dominava. Mas futebol, às vezes, é cruel. Michel Platini empatou. O jogo foi para a prorrogação.

Então veio o momento que até hoje aperta o peito.

Zico, o Galinho de Quintino, entrou em campo e, pouco depois, teve nos pés a chance da classificação. Pênalti. Silêncio. Expectativa. Mas o goleiro Bats defendeu.

Ali, o destino começou a mudar.

Na decisão por pênaltis, a França venceu por 4 a 3. Mesmo com Platini desperdiçando sua cobrança, o goleiro Bats brilhou novamente, defendendo o chute de Sócrates. E o Brasil — que até então encantava — voltava para casa mais cedo.

Foram quatro vitórias, 10 gols marcados, apenas um sofrido. Uma campanha linda… interrompida por detalhes.

Enquanto isso, Maradona escrevia sua obra-prima. Fez gol contra a Itália, protagonizou contra a Inglaterra dois dos lances mais famosos da história — a “Mão de Deus” e o gol mais bonito das Copas — e ainda marcou duas vezes contra a Bélgica.

Na final, conduziu a Argentina ao título.

E assim ficou México 86: a Copa da superação mexicana, da festa brasileira nas arquibancadas… e do gênio argentino que transformou o sonho em eternidade.

Histórias das Copas 1982

 COPA 82 – DO VOA CANARINHO AO CHORO NA CALÇADA


A Copa da Espanha foi mágica e provocativa. A magia fica por conta do futebol do time brasileiro, a provocação ficou a cargo dos italianos, que em um momento de sorte sacaram dos brasileiros a oportunidade de ver um de seus melhores times erguer a Copa do Mundo e dar a volta olímpica como fizera a geração 70. 

Sei que o futebol é ingrato, mas vivemos um momento especial naqueles vinte e poucos dias de competição. Fomos da alegria, como cantar o Voa Canarinho, música que o craque Júnior gravou e servia de pano de fundo para as vitórias do Brasil, à decepção, representada pelo choro de pai e filho, o escriba aqui e o Ralph, no meio fio da calçada da Rua João Pessoa lá na Santa Terrinha. 

A seleção de Zico, Sócrates e Falcão mereceu um destaque à parte. Após boas vitórias e um futebol extremamente convincente, o time virou unanimidade na crítica internacional,franco favorito ao título. Mas perdeu para a Itália por 3 a 2 (com três gols do artilheiro Paolo Rossi) e foi eliminado. Tá certo, isto todos nós sabemos e não há explicações para o caso. 

Mas, mesmo assim vou relembrar o episódio que ficou conhecido como "Tragédia do Sarriá". O Brasil apresentava um futebol encantador. A Itália, pelo contrário, mostrava um jogo feio e havia encontrado dificuldades para se classificar (com três empates na primeira fase). 

Parecia que a Azzurra seria apenas uma mera formalidade para a equipe de Telê Santana. Ninguém contava, porém, que o atacante Paolo Rossi - que havia sido suspenso em seu país por envolvimento num esquema para forjar resultados - estaria numa tarde inspirada. 

O carrasco abriu o placar aos cinco minutos. Sócrates empatou, mas Rossi ampliou após uma falha de Cerezo. O próprio Cerezo se redimiu e fez linda jogada para o gol de Falcão. Mas Rossi fez mais um. No fim, o goleiro italiano Dino Zoff fez, segundo suas próprias palavras, a defesa mais importante de sua vida, ao evitar um gol de Oscar em cima da linha

Para os brasileiros, a Copa de 1982 vai ficar marcada para sempre como uma grande frustração. O esquadrão montado pelo técnico Telê Santana era recheado de craques, sendo comparado por muitos ao time tricampeão doze anos antes. Mas, como o futebol é imprevisível, dentro de campo a força superou a arte. Brasil e França, que maravilharam os espectadores com a plasticidade de suas jogadas, dribles e toques, foram superados por Itália e Alemanha Ocidental, que tinham como maiores armas em campo a força física, a disciplina tática e a rigidez na marcação.

Era a reta final para a brilhante geração brasileira. A Itália tinha o caminho aberto para a decisão e passou pela Polônia por 2x0 nas semifinais. 

No outro confronto, Alemanha Ocidental e França fizeram um dos maiores jogos da história de todas as copas, eu revi este jogo dias atrás, pude comprovar que aquele 82 não era dos grandes craques, a França ficou de fora, fato que amenizou um pouco o sofrimento do time brasileiro, pois viu cair por terra o sonho de um grande time de futebol comandados pelo craque Platini.

Este jogo, Alemanha e França, 1x1 no tempo normal e 2x2 na prorrogação, foi decidido nas cobranças de penalidades máximas e vencido pelos alemães ocidentais pelo placar de 5x4, com isto se classificaram para o jogo final contra os italianos.  No jogo final, um dos mais fracos de todos os tempos, a Itália bateu os combalidos alemães por 3x1 e conquistaram o terceiro título mundial. 

Esta copa foi um marco para a Fifa, ainda dirigida pelo brasileiro João Havelange, que fazia da política o grande trunfo para o sucesso de sua administração. Assim, em termos reais, a Copa da Espanha significou um aumento de 50% no número de países participantes na fase final (de 16 para 24 nações). Seis destas novas vagas foram para os países com o futebol em desenvolvimento: duas para África, duas para a Concacaf e duas para os representantes da Ásia. 

Cada um dos seis grupos classificaria duas seleções para a segunda fase, que teria quatro grupos de três equipes cada. A melhor de cada chave passaria às semifinais. Os maiores beneficiados com o inchaço foram a África, que ganhou uma vaga a mais, e a chave Ásia/Oceania, que também levaria uma seleção a mais.

                                   

Histórias das Copas 1978

 ARGENTINA 78 – A COPA DAS SOMBRAS

A situação na Argentina era das mais delicadas. A linha-dura do regime do general Jorge Rafael Videla impunha censura, repressão e medo. Ainda assim, a realização da Copa do Mundo virou trunfo político para os militares.

Houve protestos, pedidos de boicote e pressões para que a FIFA mudasse a sede. Mas o então presidente, o brasileiro João Havelange, foi irredutível.

No Brasil, a turbulência era outra. A bronca caía sobre o técnico Cláudio Coutinho. A imprensa e os apaixonados por futebol não engoliam suas improvisações — embora ele carregasse no currículo o sucesso no Flamengo e a participação na preparação física da seleção de 70.

Para que a Copa acontecesse, chegou-se a um acordo silencioso: uma espécie de trégua entre militares e grupos de oposição, que prometeram evitar ações durante o torneio. Era o futebol tentando sobreviver em meio ao caos.

Na nossa Santa Terrinha, já não tínhamos mais a presença constante do guru Ermenegildo Solon, que havia partido para voos mais altos na capital. Mas suas palavras ecoavam.

“Dutra, já começamos errando na improvisação”, dizia ele.

E tinha razão.

Como bom brasileiro, Coutinho inventou: Toninho Baiano na ponta, Edinho improvisado, e — pasmem — deixou no Brasil um jovem talento chamado Paulo Roberto Falcão.

“Vi esse garoto jogar… não dava pra acreditar”, lembrava o guru.

“E ainda me colocam Chicão, o botinudo, como volante…”

Raras vezes uma Copa foi tão cercada de polêmicas. O futebol, muitas vezes, ficou em segundo plano diante das discussões políticas e denúncias contra o regime argentino.

Mesmo assim, o mundo foi. Quase todos. Ficaram de fora seleções importantes como Inglaterra e União Soviética, além da Iugoslávia. Outras estreavam, como Irã e Tunísia. A França voltava depois de longa ausência.

Mas foi dentro de campo que a ferida maior ficou.

O episódio mais controverso envolveu o jogo entre Argentina e Peru. Os donos da casa precisavam vencer por quatro gols de diferença para chegar à final. E venceram… por seis.

Um resultado que até hoje levanta suspeitas.

Para Ermenegildo, porém, a culpa era nossa:

“Entramos para não perder. E quem joga assim já perdeu.”

Segundo ele, o Brasil era melhor. Mas o medo, o excesso de cautela e a falta de ousadia custaram caro. Contra a Argentina, em Rosário, o time travou. Contra a Polônia, faltou ambição.

Enquanto isso, os argentinos “arrumavam a casa”.

Na final, diante da Seleção Holandesa — novamente protagonista — a Seleção Argentina confirmou o título com vitória por 3 a 1 na prorrogação, sob o comando de César Luis Menotti e com brilho de Mario Kempes.

O Brasil terminou invicto.

E, ainda assim, fora da final.

Ao fim, Coutinho soltou a frase que ficou marcada:

— “Somos os campeões morais.”

Mas futebol… não se ganha na moral.

Histórias das Copas - 1974

 PRIMEIRA NA ALEMANHA 1974

ALEMANHA 74 – O FIM DO ENCANTO

A turma da “Santa Terrinha” estava pronta para repetir a festa de 70. Mas, assim como o time de Zagallo, que seguia no comando da seleção brasileira, o nosso grupo já não era o mesmo.

Alguns amigos haviam ido embora, outros já estavam formados, trabalhando, cuidando da vida. Aquele bando que transformava vitória em carnaval fora de época começava a se dispersar. Eu, já noivo e com casamento no horizonte, ainda resistia. Fiquei encarregado de preparar os instrumentos — percussão, sopro, o que fosse preciso — para animar os jogos da primeira fase. Achávamos que viria mais uma festa.

Havia expectativa, claro. O Brasil vinha de uma conquista gloriosa no México e, mesmo sem Pelé, ainda tinha um time respeitável: Emerson Leão, Paulo César Carpegiani, Ademir da Guia, Roberto Rivelino, Jairzinho. Ainda éramos vistos como favoritos.

Mas quando a bola rolou… a máscara caiu.

O ano de 1974 também pesava fora de campo. O general Ernesto Geisel assumia a presidência, o “milagre econômico” dava sinais claros de esgotamento, a inflação apertava e o país começava a sentir mudanças no ar. Era outro Brasil — e talvez outra seleção.

Dentro de campo, a festa foi murchando jogo a jogo.

Empates sem graça contra Escócia e Iugoslávia. Nenhum gol, nenhum foguete, nenhuma emoção. Contra o modesto Zaire, um 3 a 0 que mais aliviou do que empolgou. Classificação arrancada mais pela fragilidade do grupo do que por mérito.

Fomos para a segunda fase ainda com alguma esperança. Pegamos a Alemanha Oriental e vencemos por 1 a 0, gol de Rivelino. Mas já não havia entusiasmo. A verdade é que, naquele ponto, muita gente da turma preferia bater uma bola no Ginásio ou no Rink a assistir aos jogos na televisão. O feriado ajudava… e a pelada parecia mais interessante que a seleção.

A única explosão de alegria veio contra a Argentina: 2 a 1. Ali sim, por alguns minutos, a cidade reviveu 70. Foguetes no céu, gritos nas ruas. Mas foi só.

No jogo seguinte, contra a Holanda — o grande fenômeno daquela Copa — ficou claro que algo estava errado. O Brasil entrou com um esquema ultrapassado, sem entender o chamado “futebol total” dos europeus. E ali se encerrou qualquer sonho.

Com um futebol burocrático, distante da magia de 70, o Brasil terminou em quarto lugar, derrotado pela Polônia por 1 a 0.

Enquanto isso, a dona da casa, a Seleção Alemã Ocidental, conquistava seu segundo título mundial ao vencer a Seleção Holandesa por 2 a 1 — frustrando a equipe que encantou o mundo.

E havia também um símbolo dessa mudança: como o Brasil ficara em definitivo com a Taça Jules Rimet em 1970, a FIFA apresentou um novo troféu. Nascia ali a atual Copa do Mundo.

O encanto tinha acabado.

E, pela primeira vez, a gente percebeu que nem toda Copa termina em festa.



quarta-feira, 18 de março de 2026

Histórias das Copas - 1970

   A COPA DA ORGANIZAÇÃO E DO REGIME MILITAR


MÉXICO 70 – A COPA QUE MORA NA MEMÓRIA

Se a Copa da Inglaterra, em 66, é daquelas que a gente prefere esquecer, a do México, em 70, é para ser guardada com carinho na memória de todos nós — brasileiros e amantes do futebol.

Foi a primeira Copa transmitida ao vivo para o Brasil, pela tevê. Foi também, talvez, a única em que houve organização séria e tempo suficiente para preparar uma equipe forte, técnica e fisicamente impecável. Não por acaso, Brito foi considerado o jogador com melhor preparo físico da competição.

Nos bastidores, a presença firme dos militares do governo Médici. Em campo, jovens talentos também na comissão: Carlos Alberto Parreira, Admildo Chirol e Cláudio Coutinho. Tudo sob o comando de Mário Jorge Lobo Zagallo, que assumiu após a saída de João Saldanha.

Saldanha, comunista declarado, não aceitava interferência na convocação. Uns diziam que caiu por não chamar Dadá Maravilha. Outros, que foi por suas posições políticas. Verdade mesmo é que não cabia naquele momento turbulento do país.

E foi ali que o Brasil parou. Literalmente. Em dias de jogo, ninguém trabalhava, ninguém piscava. Talvez ali tenham nascido os “copeiros” — aqueles que aparecem de quatro em quatro anos — e também as meninas que sabiam tudo de escalação só pra entrar na resenha.

A estreia foi em 3 de junho, no Estádio Jalisco, em Guadalajara, contra a Tchecoslováquia. Levamos um susto com o gol de Petras. Mas foi ali também que começou aquela tradição de agradecer aos céus após o gol. E foi ali que Roberto Rivelino eternizou a sua Patada Atômica.

Nós, já rapazes, na velha Miracema, fazíamos festa como dava. Corneta, caixa, bumbo da Banda Marcial… e a Rua Direita virava carnaval antes do carnaval existir fora de época.

Contra o Peru, já no mata-mata, assistimos em Miraí, terra de Ataulfo Alves. Televisão enorme, imagem ruim, mas o grito de Geraldo José de Almeida cortava o chiado: “Olha lá… olha lá… no placar!”

E, entre um lance e outro, confesso: ninguém pensava só em futebol. As mais belas meninas da cidade estavam ali… e o pós-jogo prometia mais que a partida.

Na final contra a Itália, já estava tudo pronto. O velho jipe do seu Osmar, enfeitado, levava na traseira a Taça Jules Rimet. Bandeiras, confetes, esperança. Ficamos de prontidão: eu, Armando, David, Dodote… só esperando o apito final.

E veio.

O Brasil não apenas venceu. Encantou.

Seis jogos, seis vitórias.

Pelé, Gérson, Jairzinho… nem precisa detalhar. O mundo já viu, reviu e reverencia.

Para muitos — e eu assino embaixo — ali estava a maior seleção de todos os tempos.

A magia, que havia sumido na Inglaterra, ressurgiu no México.

E, para nós, nunca mais foi embora.

Histórias das Copas - 1966

                                     INGLATERRA 66 – UMA COPA PARA SER ESQUECIDA 


Na Copa da Inglaterra, em 1966, eu já acompanhava de perto o noticiário e lia, em O Jornal, os preparativos da nossa seleção. Lembro-me bem uma discussão que tive com o Gilson, que hoje está no Mato Grosso, lá bem pertinho da Bolívia, que também era um apaixonado pela bola e fã de carteirinha dos programas da Rádio Globo. O Gilson me garantia que o Ditão, do Corinthians, estava convocado pela CBD, como era chamada a CBF naquele tempo. “Os dirigentes do Corinthians impuseram a convocação de mais um do elenco e a comissão técnica chamou Ditão, o zagueiro central corintiano”. Eles erraram meu caro Gilson, retrucava o companheiro, escondendo o fato ocorrido nos bastidores, contado por Oduvaldo Cozzi em seu programa das 18h na Rádio Tupi.

- Gilson, o convocado foi o Ditão, do Flamengo. Cravei como um entendido no assunto. Isto já na hora do recreio, por volta das 21h, lá no Colégio Nossa Senhora das Graças. – Que nada, ouvi na Rádio Globo que o Vicente Matheus exigiu junto ao Havelange que incluísse mais um do time dele entre os convocados, retrucava-me o amigo.  O negócio foi o seguinte: Na elaboração da lista de 43 jogadores convocados para a preparação da Copa de 1966, um dirigente da CBD ponderou que havia poucos jogadores do Corinthians e sugeriu a convocação do zagueiro Ditão. Na hora de datilografar os nomes de batismo, porém, a secretária escreveu o nome de outro Ditão, o do Flamengo. Para não cair no ridículo, a comissão técnica não desfez o mal-entendido, e tudo ficou por isso mesmo, o Ditão do Flamengo foi e completou a lista, 44 nomes convocados, ou seja quatro times. 

Um outro fato me chamou a atenção antes da Copa, você me perguntará por que falo tanto da pré-copa e não da competição em si, antes de continuar com as curiosidades, arremato de primeira: a Copa foi um fiasco para o Brasil. Uma incrível bagunça tomou conta da delegação brasileira, desde a convocação, passando pelos treinos e finalmente, nos três jogos que disputamos: duas derrotas e apenas uma vitória magra sobre a fraca Bulgária, portanto é melhor contar “causos” como o do cachorrinho que achou a Taça Jules Rimet do que falar dos jogos do Brasil.

Três meses antes da Copa, a taça Jules Rimet foi roubada de uma exposição no Westminster Central Hall. Os ladrões pediram um resgate de 15 mil libras. Três dias depois, porém, a Scotland Yard prendeu Edward Betchley, que se recusou a revelar o paradeiro da taça. A polícia procurou o troféu, sem sucesso, até que um vira-lata chamado Pickles farejou algo enrolado em jornais durante uma caminhada por South London. Seu dono, David Corbett, logo viu que se tratava do troféu roubado. Pickles se tornou uma celebridade nacional e, ao lado de Corbett, foi convidado de honra da partida de abertura do Mundial. Dezessete anos depois, a taça seria roubada definitivamente no Brasil.

O fato originou uma série de batismo de vira-latas nas ruas da cidade. Qualquer cachorro que passava pela Rua Direita ou na Avenida Carvalho, caminho do Estádio Municipal, a molecada já batizava o bicho de Pickles, até as meninas do Grêmio Estudantil, que carregavam cachorrinhos nas capas de seus cadernos, escreviam em vermelho o nome do bichano para agradar os namorados. 

Meu avô, que ficou fã do Amarildo, disse que não iria torcer pela seleção brasileira por causa do Vicente Feola. “Este gordo sonolento não levou o Amarildo por ele estar jogando no Milan, da Itália, leia aqui no Diário de Notícias esta barbaridade, meu filho”. E lá estava a notícia “Amarildo foi o primeiro estrangeiro a ser convocado para a seleção brasileira. Ele, que jogou no Milan, Fiorentina e Roma, estava entre os 47 chamados por Feola na fase de preparação, mas não foi inscrito para o Mundial”, dizia a matéria que provocou a ira no velho Vicente Dutra. 

Como foi uma Copa para a gente esquecer, juro que apaguei da memória e por isto abrimos um capitulo para a Copa de 70, a primeira transmitida pela tevê para o Brasil e a primeira que realmente vi uma torcida organizada. Bem este papo fica para domingo. 


Histórias das Coipas - 1962


COPA DO CHILE – AS HISTÓRIAS DO SEU FELISBERTO

Esta Copa teve um grande significado para minha cidade, Miracema, no noroeste do Estado do Rio de Janeiro. Foi a primeira vez que ouvi histórias de um torcedor brasileiro presente no local da competição: o pai do amigo Olegário, o Seu Felisberto.

Abastado comerciante da cidade, ele viajou ao Chile para ver de perto o escrete canarinho, que tinha entre suas estrelas vários jogadores do Botafogo, sua grande paixão. Garrincha, o ídolo maior, vivia fase espetacular — e, por isso mesmo, o conterrâneo não pensou duas vezes: gastou um bom dinheiro para “voar nas asas da Panair do Brasil”, como gostava de dizer.

Seu Felisberto contava que ficou hospedado no mesmo hotel em que estava Elza Soares, a grande musa de Garrincha. Segundo ele, o craque a visitava praticamente todos os dias — encontros, claro, sempre a portas fechadas e sem hora para terminar.

— “Como é que aquele camarada pode atuar tão bem naquela Copa?”, perguntava, já rindo.

E ele mesmo respondia:

— “Também… com um mulherão daquele à disposição, só podia estar feliz. Tinha tudo pra jogar muito!”

Em 1962, as emissoras de rádio já estavam mais bem equipadas. Por ser no Chile, aqui na América do Sul, enviaram mais profissionais. E nós, lá em Miracema, ouvíamos Waldir Amaral pela Rádio Globo — sempre no velho rádio “rabo quente”, esquentado pelo Miguel Magaldi.

Meu avô, dono do bar em frente à prefeitura, mantinha tudo exatamente como em 1958:

— “É pra regular! Não podemos tirar as caixas nem o rádio do lugar!”

E ninguém mexia.

As ruas da cidade se preparavam para a festa a cada vitória. Era também uma forma de homenagear o ilustre miracemense Aymoré Moreira, treinador da seleção.

Seu João, cunhado de Aymoré, frequentava o bar todos os dias — menos em dia de jogo. Sumia. Diziam que temia alguma reação em caso de derrota. Mas derrota não passava pela cabeça do povo. A confiança era total. Já se sonhava com a visita do técnico à cidade, trazendo consigo alguns campeões do mundo.

Depois soubemos que em Pádua também houve festa para Jair Marinho — mais discreta, é verdade, já que o lateral era reserva do inesquecível Djalma Santos e não chegou a entrar em campo.

Meu avô ficou “maluco da vida” quando soube que Pelé não jogaria contra a Espanha. Mas se acalmou ao saber que Amarildo seria o substituto:

— “Se jogar como o pai, vai fazer estrago nesses espanhóis!”

E completava, cheio de orgulho, lembrando de Amaro Silveira, pai do craque:

— “Era um craque! Saiu daqui pra seleção… e jogava mais do que esse moleque aí!”

Voltando ao Seu Felisberto…

Havia uma história que ele nunca conseguia terminar. Sempre começava assim:

— “Vocês, meninos, precisavam ver a cara do torcedor chileno… quando o inglês se ajoelhou no gramado pra pegar aquele cachorro que invadiu o campo…”

E parava.

Caía na gargalhada.

Ria tanto que Dona Filomena, sua mãe, precisava acudir, temendo um troço. A cena nunca chegava ao fim — ficava eternamente suspensa no riso.

No final, vi pela primeira vez uma carreata para comemorar um título. O nome de Aymoré Moreira ecoava pelas ruas.

O prefeito — creio que Jamil Cardoso — fez convites para homenagear o treinador. Mas a frustração durou décadas. Foram quase quarenta anos de espera até que os irmãos Moreira, Zezé e Aymoré, voltassem à cidade, já na inauguração do Estádio Irmãos Moreira, da Associação Atlética Miracema.

E, ainda assim, a homenagem que parecia tão natural nunca aconteceu como deveria.

Miracema demorou a reconhecer um de seus maiores filhos.

E talvez — só talvez — também tenha faltado aos campeões olhar com mais carinho para a terra onde tudo começou




    COPA DO CHILE – AS HISTÓRIAS DO SEU FELISBERTO 


Esta copa teve um grande significado para minha cidade, Miracema, no noroeste do Estado do Rio de Janeiro. Pela primeira vez eu ouvi histórias de um torcedor brasileiro presente no local da competição, o pai do amigo Olegário, Seu Felisberto, um abastado comerciante da cidade, viajou para o Chile para ver de perto o escrete canarinho, que tinha entre suas estrelas vários jogadores do Botafogo, paixão do Seu Felisberto. Garrinha, o grande ídolo, estava em grande fase e por isto o conterrâneo gastou um pouco de seu dinheiro para voar nas asas da Panair do Brasil, como gostava de dizer.

Seu Felisberto contava que ficou hospedado no mesmo hotel em que estava Elza Soares, a grande musa de Garrincha, que a visitava praticamente todos os dias e, claro, eram encontros sempre às portas fechadas e sem hora para terminar. “Como é que aquele camarada pode atuar tão bem naquela copa”, dizia Seu Felisberto, que logo depois completava o seu raciocínio sobre o gênio das pernas tortas. “Também, com um mulherão daquele a sua disposição ele só podia estar feliz e tinha de tudo para jogar muito”.

Este ano, 1962, as emissoras de rádio já estavam mais bem equipadas e por ter sido realizada no Chile, aqui na América do Sul, enviaram mais profissionais para cobrir o evento e nós, la na nossa Miracema, ouvíamos Waldir Amaral e a Rádio Globo, claro que ainda naquele velho rádio “rabo quente” esquentado pelo Miguel Magaldi. Meu avô, dono do bar em frente a prefeitura, colocava sempre as caixas de som nos mesmos lugares em que eram colocados na Copa de 58, na Suécia. “É pra regular, não podemos tirar do lugar as caixas e o nosso rádio”, dizia o velho Vicente Dutra.

Nas ruas da cidade se preparavam festas para cada vitória, era uma maneira de homenagear o ilustre miracemense, Aymoré Moreira, treinador do nosso escrete nacional. Seu João, cunhado de Aymoré, era um freqüentador assíduo do bar do meu avô, mas durante os jogos ele desaparecia, dizia-se que ele temia ser hostilizado em caso de uma derrota do nosso selecionado, mas a população não pensava em derrota e havia muita confiança e a conquista de mais um título era esperada por todos, pensando em uma visita de Aymoré a cidade trazendo consigo alguns campeões do mundo. Depois ficamos sabendo que em Pádua havia festa para Jair Marinho, mas em menor escala, já que o lateral era reserva do grande Djalma Santos e não jogou nem uns minutinhos sequer.

Meu avô ficou “maluco da vida” quando soube que Pelé não jogaria contra a Espanha, mas se tranqüilizou quando soube que Amarildo seria o seu substituto. “Se jogar como o pai ele vai fazer estrago nestes espanhóis de merda”, dizia o bom Vicente, que sempre falava do tempo em que Amaro Silveira, pai do craque da seleção, jogava no Miracema FC. “Era um craque, e saiu daqui pra jogar na seleção brasileira e jogava muito mais do que este moleque ali”, vibrava.

Voltando ao seu Felisberto. Eu me lembro de outra história contada por ele, mas que nunca terminava a narração. “Vocês meninos, precisavam ver a cara do torcedor chileno, nas arquibancadas, quando o inglês se ajoelhou no gramado para pegar aquele cachorro que invadiu o gramado no jogo contra a Inglaterra...”, era só o que seu Felisberto conseguia contar, pois gargalhava de passar mal e ser acudido por dona Filomena, sua mãe, que temia um infarto do filho, que se emocionava demais quando contava estas passagens por terras chilenas. 

No final eu vi, pela primeira vez, uma carreata para comemorar um título. O nome de Aymoré Moreira era gritado e o prefeito da cidade, se não me engano era o Jamil Cardoso, fez vários convites para que o famoso miracemense fosse receber uma homenagem da cidade e da Câmara de Vereadores, mas a frustração durou pelo menos uns quarenta anos, tempo que a cidade esperou para receber a visita dos irmãos Moreira, Zezé e Aymoré, que estiveram por lá para assistir a inauguração do Estádio Irmãos Moreira, da Associação Atlética Miracema, mas jamais receberam a tal homenagem, a cidade esqueceu que o treinador da seleção campeã de 62 tivesse nascido por lá, o que acredito ser por culpa exclusiva dos vitoriosos treinadores, que pouco valor deram a sua terra natal. 

                                                                                                                         

Histórias da Copa - 1958

   A COPA DA ORGANIZAÇÃO E DO REGIME MILITAR


Se a Copa da Inglaterra é passível de esquecimento, por este motivo contamos apenas detalhes de bastidores e pré-copa, a do México, em 70, é para ficar guardada na memória de todos nós, brasileiros e desportistas. Foi a primeira a ser mostrada para o Brasil, via tevê, e a única em que tivemos uma organização séria e com tempo hábil para se preparar uma equipe forte e saudável, tanto que Brito foi considerado o melhor preparo físico da competição. Nos bastidores trabalhavam militares de confiança do Presidente Médici, em campo os jovens capitães Parreira, Carlesso e Coutinho faziam parte da comissão técnica comandada por Antonio do Passo, um cartola carioca acostumado ao poder do futebol. 


Curiosamente o primeiro comandante deste time era um comunista de carteirinha, João Saldanha, que dizem ter sido deposto do cargo por não aceitar interferência em sua convocação, apostavam que ele foi demitido por não ter convocado Dario, o Peito de Aço, na época a grande sensação do Atlético Mineiro. Os historiadores contam que nada disto aconteceu e João Saldanha saiu por não comungar com o regime ditatorial dos militares e por ter idéias comunistas. 


A tevê foi fundamental para que Brasil parasse em dias de jogos da seleção, acredito que tenha sido em 70 o começo da infiltração dos “copeiros”, aqueles que discutem futebol de quatro em quatro anos, e das meninas prodígios, aquelas que decoram tudo sobre a Copa com a intenção de ganhar espaços nas conversas com os namorados. A bola rolou, para o Brasil, em 3 de junho, no estádio Jalisco, em Guadalajara, contra a Tchecoslováquia. Logo aos 12 minutos, o tcheco Petras aproveitou uma indecisão da zaga brasileira e abriu o placar, e foi ali que começou a febre de agradecimento a Deus por uma jogada bem complementada, usada até hoje por Romário, sem se ajoelhar, e por boleiros de todo o planeta bola. O Brasil empataria ainda no primeiro tempo e Rivelino ganharia o apelido que carregou até o final de sua gloriosa carreira, Patada Atômica. 


Nós, já rapazes, lá na Santa Terrinha, tínhamos um time de torcedores aptos para todos os tipos de comemorações. Saíamos pela Rua Direita com cornetas, caixas e bumbos da Banda Marcial do Colégio Miracemense e fazíamos o que hoje chamam de micareta ou coisa parecida. Se eu comentar sobre os lances de Pelé, Gerson ou Jairzinho você vira a página, afinal muito já se falou sobre o assunto e neste período pré-copa é comum às emissoras de tevê mostrarem todos estes belos lances.


No jogo contra o Peru, já na fase de mata-mata, estávamos na cidade de Mirai, terra de Ataufo Alves, na Zona da Mata Mineira. Era um torneio de futebol de salão e nosso time assistiu ao jogo em um ginásio junto a uma enorme torcida, em uma tevê enorme, não me lembro a marca, mas com um sinal fraquinho e que só dava para ouvir os gritos de Geraldo José de Almeida, aquele do olha lá... olha lá.... no placar... Ninguém estava preocupado com a vitória, que acreditávamos ser conseqüência de um melhor futebol, mas com o que viria depois, ali estavam as mais belas meninas da cidade e o carnaval seria um motivo para amassar um pouco os vestidos das gurias. 


Na decisão, contra a Itália, a festa estava toda programada e a ornamentação já estava pronta desde a véspera, quando o velho Jipe do seu Osmar, devidamente paramentado, levava na traseira a Taça Jules Rimet e em toda sua lataria haviam bandeiras, flâmulas e confetes nas cores da bandeira brasileira. Guardamos o Jipe em local estratégico, o Armando, hoje médico conceituado, o David, comerciante de bebidas, Dodote, hoje petroleiro, e um punhado de amigos só esperavam o apito final do árbitro para cair na folia e mostrar para toda a cidade nossa alegria pela conquista do terceiro título mundial.


A magia brasileira, que sumiu na Inglaterra, ressurgiu no México. Com um time repleto de craques e muito bem preparado fisicamente para suportar a altitude e os jogos sob forte calor, o Brasil fez uma campanha perfeita em 70, com seis vitórias em seis partidas. Para muitos analistas, o país conseguiu formar a melhor seleção de todos os tempos.


terça-feira, 10 de março de 2026

Como o tempo passa rápido

 

Olhar para essa foto é entender que o tempo não apenas passou; ele construiu. Entre o sim de 1975 e o horizonte de 2025, lá se vão cinco décadas de uma estrada percorrida a dois. O título "Aqui tem Ouro" não é força de expressão; é a constatação de um metal que foi forjado no dia a dia, nas viagens pelo mundo e na criação de uma família que é o maior legado dessa união.

​Na imagem, o cenário europeu ao fundo parece emoldurar o que realmente importa: o sorriso de quem sabe que tem um porto seguro ao lado. Marina, com o brilho no olhar de quem atravessou tempestades e bonanças, e você, Adilson, com a serenidade de quem soube ser o capitão dessa jornada.

​Esses 50 anos não são apenas um número no calendário. São milhares de quilômetros rodados, crônicas escritas nas entrelinhas da vida e a certeza de que, de todos os destinos que os "andarilhos do mundo" visitaram, o melhor lugar sempre foi um ao lado do outro.





quarta-feira, 4 de março de 2026

Falso fantasma

Durante décadas, uma lenda assustou incrédulos e curiosos em Miracema.
Muitos juravam ter visto, outros zombavam das histórias contadas pelos atiradores do Tiro de Guerra 217, que garantiam existir um velho soldado — um atirador morto em serviço, embora ninguém jamais tenha confirmado isso — que voltava para atormentar os rapazes de plantão.

Se existem duas histórias sobre o tal fantasma, de uma eu fui testemunha ocular. A outra deu origem a toda essa lenda.

A primeira aconteceu no primeiro ano do sargento Lecine no comando da tropa de Miracema. Durante uma noite de guarda, alguns soldados começaram a ouvir passos no salão de reuniões, localizado acima do dormitório e da sala de armas.

E não eram apenas passos.

Junto com eles vinha o som de um instrumento musical, tocando suavemente, sem parar, como se alguém estivesse ali ensaiando na madrugada.

O susto foi geral.
Os rapazes saíram às pressas do prédio e se reuniram em frente à prefeitura. No dia seguinte o boato correu pela tropa inteira e tirar plantão, dali em diante, passou a ser uma verdadeira aventura.

A segunda história eu vivi.

Numa noite de chuva forte, com trovões, relâmpagos e vento daqueles de meter medo — cenário perfeito para um filme de terror — estávamos de serviço quando o clima começou a ficar pesado. Qualquer barulho parecia anunciar o retorno do famoso Fantasma do TG.

Por volta da meia-noite veio o susto.

De repente, todos os fuzis caíram ao mesmo tempo no local onde eram guardados. Um barulho infernal tomou conta do alojamento.

Corremos assustados — eu, cabo de plantão, e os quatro soldados da guarda — e fomos procurar abrigo e proteção na gruta da Igreja de Santo Antônio.

Mas afinal, o que aconteceu para desmistificar a história do fantasma?

No primeiro caso, o “fantasma” da época do sargento Lecine era simplesmente o pai do próprio sargento, músico conhecido no Rio de Janeiro e integrante da Orquestra da Globo. Em visita ao filho, acordou na madrugada e encontrou no salão um bom lugar para ensaiar as músicas que tocaria no final de semana.

Esse foi o famoso fantasma músico que assustou a turma de 1965.

Já o nosso fantasma era bem mais terreno: o vento e o mau estado de conservação da armação dos fuzis. Com as rajadas fortes, a estrutura cedeu e derrubou todas as armas ao mesmo tempo, provocando o pânico nos cinco soldados de serviço.

Só dias depois, quando tivemos acesso à sala das armas, entendemos o que realmente havia acontecido.

Mas assim nascem as lendas.

Lendas são lendas, causos são causos.
E tudo isso serve para ser contado e relembrado — hoje com boas gargalhadas e muita gozação entre os antigos atiradores.

Tarciso

 Certa vez comentei aqui sobre minhas aventuras de “vendedor” pelas ruas da minha Miracema, pelos parques e circos que chegavam à cidade e, principalmente, nas filas do Cine Sete e do Cine XV, tentando angariar algum dinheiro para os matinês de sábado.

Também falei do meu tempo de engraxate, dos amigos que dividiam as calçadas comigo. O tempo passou e, felizmente, tudo deu certo em meu caminho e cá estou hoje, já grandinho e quase um setentão miracemense, falando e escrevendo sobre os personagens e os fatos da nossa terrinha.

E hoje faço um abre-alas para um personagem que já caminha para meio século de presença no nosso jardim.

Sempre alegre, educado e com um carinho especial pelas crianças que frequentam o parque. Elas puxam os pais pela mão e pedem:

— Quero pipoca do seu Tarcísio!

E ele, sempre com um belo e largo sorriso, atende a todos contando um causo ou lembrando do pai, do avô ou de algum parente da criança que está à sua frente. Tarcísio conhece a história de muita gente que viu crescer ali.

Quando chego por perto é sempre um abraço afetuoso e uma lembrança dos tempos do bar do meu avô ou das travessuras dos meus filhos em volta do seu carrinho de pipoca.

Um assunto que o deixa particularmente feliz é falar do filho, que vive em Santa Catarina e conseguiu organizar sua vida profissional com segurança. Hoje, com as facilidades do celular, os dois mantêm contato quase diário, e Tarcísio se diverte contando as aventuras do rapaz nas terras da terra vermelha.

Tarcísio talvez nunca ganhe um busto no jardim.
Mas aquele lugar — onde ele faz a alegria das crianças da cidade — jamais será esquecido.

E tenho certeza de que, sempre que um homem ou uma mulher, já bem sucedido na vida, passar por ali, vai se lembrar do grande personagem daquele espaço: Tarcísio, o pipoqueiro.

Mas eu sempre gosto de ouvir dele a resposta que dá quando elogio sua alegria de viver:

— Devo tudo isso à minha Maria.

Um amor de muitos anos — e que eu admiro profundamente.

Desde 1985

 


Assim que cheguei por aqui, em outubro de 1985, um amigo do banco me disse:

— Em Campos, naquele tempo ainda não havia sido agregado o sobrenome “dos Goytacazes”, temos o segundo melhor carnaval do Rio de Janeiro e o melhor do interior fluminense.

Claro que discordei.
Poderia até ser o maior desfile de agremiações carnavalescas do interior, com blocos, bois — que não são pintadinhos como os nossos — e toda aquela estrutura. Porém… sempre existe um porém.

Faltava animação, organização e, principalmente, não havia carnaval de rua como na minha Miracema.

O tempo passou e nós dois deixamos de participar das coberturas carnavalescas.
Nunca havia horário certo para começar ou terminar os desfiles e nós, radialistas e jornalistas, ficávamos à mercê dos donos dos blocos e da boa vontade das agremiações para entrar na Avenida XV de Novembro.

Foram tantos atrasos que me aborreci até chegar o dia do basta. Serginho também decidiu parar.

No ano seguinte, ele me procurou e disse:

— Vou a Miracema para comprovar, ou não, se lá realmente tem o melhor carnaval do interior, como você sempre apregoa nos microfones da Campos Difusora.

E não é que ele foi mesmo?

Eu nem acreditava. Tanto que, quando me pediu o endereço da casa dos meus pais — disse que ficaria hospedado por lá, na casa do Zebinho Dutra — respondi apenas que me procurasse na rua ou que, ao chegar à cidade, perguntasse pelo Adilson Penacho ou pelo Adilson do Zebinho.

Bingo!

O sujeito chegou mesmo.

Parou na rodoviária e perguntou como chegar à minha casa.

— Onde encontro a casa do Adilson Dutra? Ele tem um apelido que não sei qual é… trabalha no rádio e no Banerj.

Perguntou isso a um motorista de táxi que depois descobri ser meu saudoso amigo Valdir Chocalho.

Valdir explicou o caminho, mostrou por onde entrar e ainda avisou que era melhor deixar o carro estacionado e seguir a pé, porque na Rua Direita estava acontecendo desfile e ele não conseguiria passar.

Eram cerca de sete da noite de domingo de carnaval.

O visitante já ficou espantado. Ali mesmo parece que começou a comprovar tudo o que eu sempre dizia.

Seguindo a orientação, estacionou o carro, pegou a bolsa e caminhou até a esquina do antigo correio — que na época funcionava como mercado da família Chiapin — e fez nova pergunta a um folião:

— Sou de Campos, venho encontrar o Adilson… disseram que o apelido dele é Penacho. Onde moram os pais dele?

O sujeito simplesmente o levou até lá em casa.

Naquele tempo meus pais moravam na Avenida Nilo Peçanha, perto do Cenecista, e o visitante foi entregue à família como se fosse da casa.

Jucão, que morava no andar de cima, desceu e entrou na primeira roda de samba que já animava o quintal. Fernando Nascimento estava por lá e o esquenta ficou ainda melhor.

E Serginho, que é um baita intérprete, puxou alguns sambas.

Depois saímos pela Rua Direita acompanhando os blocos de embalo e fomos atrás do carro do Fogaréu. Botei o amigo na cara do gol.

Bolinha pegou Serginho pelo braço, levou até a carroceria e, de lá de cima, ele mostrava toda a sua alegria.

E assim foram os dois dias que ele passou comigo na cidade.

Festa total.
Muita cerveja, muita animação e uma improvisação absoluta durante o dia.

À noite, o Clube XV completamente lotado. A banda afinada e animada mostrava ao campista que ali, em Miracema, havia realmente o melhor carnaval do interior fluminense.

E ficamos conversados.

terça-feira, 3 de março de 2026

A Merche do Lúcio

 O Bar Pracinha e o “Merche” Mexido

O Bar Pracinha, que conheci na esquina da Rua Francisco Procópio com a Rua Direita, guarda histórias incríveis e personagens inesquecíveis. Ali passaram ricos e pobres, brancos, negros, mulatos e índios. Gente de todo tipo viveu momentos especiais naquele que, no meu ponto de vista, foi o bar mais elegante da cidade.

Principalmente no prédio antigo, o da famosa esquina, já comentado em outras crônicas. Havia ali uma atmosfera que lembrava os bares europeus dos anos 1950 — balcão imponente, garçons atentos, conversa alta e aquele ar de importância que só certos lugares conseguem manter.

Conheci o Pracinha já na administração dos Irmãos Salim — Jofre, Nacif e José — vindos de Palma, Minas Gerais, para viver seus grandes momentos em Miracema. Com amor, dedicação e espírito inovador, comandaram o estabelecimento numa época em que o município vivia talvez seu melhor momento comercial e industrial.

Cada um que frequentou o Pracinha até seu fechamento — hoje no local funciona o Supermercado Ramos — carrega na memória suas próprias histórias. Eu mesmo guardo várias. Entre elas, uma narrada pelo ex-zagueiro Célio Silva, que trabalhou no bar antes de se tornar atleta de sucesso.

Conta Celinho:

— O Sten, cozinheiro da casa, ao lado do Jofre, preparava uma comida árabe, especialidade do Pracinha. Aqui o pessoal chamava de trouxinha de uva ou charutinho de repolho. Mas, na verdade, em árabe, é o famoso “Merche”: arroz com carne moída enrolado em folha de uva — ou de repolho, mais comum no Brasil.

Sten temperou tudo com capricho, enrolou as trouxinhas e colocou num grande panelão, pronto para levar ao fogo. A panela ficou ali, no balcão da cozinha, aguardando o momento certo.

Eis que surge Lúcio.

Veterano, folclórico, garçom de longas jornadas no Pracinha.

— Sten, o que é isso na panela?

— Merche, Lúcio. Merche.

Lúcio ouviu. Foi até a cozinha. Voltou com uma imensa colher de pau. Sem hesitar, mergulhou a colher no panelão e começou a mexer vigorosamente — até desmanchar tudo.

Satisfeito, anunciou:

— Tá pronto, Sten. Tá tudo mexido como pediu.

Quem conhece a iguaria pode imaginar a cena seguinte.

A ira de Jofre. O desespero do cozinheiro. E “Soninha”, companheiro de cozinha de Sten, sem saber se ria ou chorava diante da “destruição gastronômica” promovida pelo dedicado — e literal — Lúcio.

E assim era o Bar Pracinha.

Entre elegância e trapalhadas, entre receitas tradicionais e interpretações livres, construía-se ali não apenas pratos, mas histórias.

Cajá e tiro de sal

 

Tiro de Sal, Cajá-Manga e Rua Direita

Relendo esta crônica, escrita há alguns anos, percebo que já havia ali uma vontade de segurar o tempo pelas mãos. Hoje, com mais estrada percorrida, entendo melhor: não eram apenas lembranças. Era gratidão. Gratidão por ter vivido uma Miracema de portas abertas, quintais generosos e amizades que atravessaram décadas.

Andando pelas calçadas de Miracema, olhando os belos casarões da Rua Direita e admirando a beleza do nosso Jardim, encontro dois amigos da velha guarda: Naipe — Luiz Alberto Aguiar — e Jorge Neiva, nosso querido Dodote.

Bastou o cumprimento para que um punhado de recordações viesse à tona. Vieram gargalhadas. Vieram lágrimas. Lágrimas de alegria por estarmos vivos… e de tristeza ao perceber como o tempo passou rápido demais, levando tantos amigos queridos do nosso convívio.

Minha prima Janete passou, parou, me deu um abraço e um beijo apressado: — Depois a gente se fala com calma, vou ali na Leader ver algo para minha mãe.

Saiu andando e deixou no ar a pergunta: — Quem é a moça?

Respondi: — Filha da tia Maria, neta do Seu Pedrinho Soares.

Foi o bastante.

Naipe abriu aquele sorriso antigo: — Eita! Quantas vezes entramos no quintal do Seu Pedrinho para pegar cajá-manga! E lá em cima, subindo pelo Ribeirão Santo Antônio, tinha o pomar do Seu Lino… bravo que só, dava corrida na turma!

E como não lembrar dessas aventuras à beira-rio?

Dodote então lança a pergunta que mistura dor e riso: — Algum de vocês já tomou tiro de sal na bunda?

Rimos todos. Mostrei a perna — a marca ainda está ali. Muito sangue, muita adrenalina, mas nenhum perigo. Um tiro de sal que incomodou bastante, deixou susto… e hoje rende boas histórias.

Dodote olhou em volta, apontou para uma casa próxima ao Jardim: — Ali morava o Didi Baiano. Um dos caras mais legais e malucos da geração do meu irmão Teteca.

E vieram as descidas a nado, ou nas boias feitas de câmara de ar de caminhão, nos dias de chuva forte, pelo Ribeirão Santo Antônio. Didi era mestre nos mergulhos da ponte do Aero Clube. Quem viveu sabe. E quando conta, sempre aumenta um pouquinho — porque memória também gosta de exagero.

A conversa seguiu firme. Naipe pegou embalo: — Só não aumentam nem inventam quando o assunto é pelada no Miracemense. Ali tinha testemunha demais! Não dá para dizer que jogava bem se não jogava.

Olhou para mim e completou: — Você foi um dos que jogava.

Sorri. Não discuti.

E seguimos trocando figurinhas com o passado. A memória pode até vacilar em detalhes, mas não esquece os rachas nas ruas, as peladas no Rink, os piques-bandeira, as andanças pela Rua Direita depois da sessão das seis no Cine XV.

Lembro bem de uma aposta: desfilar de calção e sem camisa pela rua logo após o fim do filme no XV. Fiz. Vaiado por muitos, aplaudido por poucos. No fim, rir era o melhor negócio.

Hoje, até esses encontros ficaram mais difíceis. A pandemia complicou até o simples ato de prosear na praça. Ainda bem que existe o Zap para manter viva a conversa dos tempos da carochinha — ou melhor, dos nossos tempos de infância e juventude.

E como disse, com orgulho, o desembargador Custódio Tostes:

“Nós, da nossa geração e de outras gerações de Miracema, somos uma família. Nossos pais eram amigos e nós crescemos unidos pelo laço da amizade fraterna. Por isso, até hoje nos respeitamos e nos amamos como verdadeiros irmãos.”

Pois é…

Saudade não tem idade.
Mas temos a certeza de uma coisa:
Fomos felizes.
E sabíamos disso.



 Tiro de Sal, Cajá-Manga e Rua Direita

Andando pelas calçadas de Miracema, olhando os belos casarões da Rua Direita e admirando a beleza do nosso Jardim, encontro dois amigos da velha guarda: Naipe — Luiz Alberto Aguiar — e Jorge Neiva, nosso querido Dodote.

Bastou o cumprimento para que um punhado de recordações viesse à tona. Vieram gargalhadas. Vieram lágrimas. Lágrimas de alegria por estarmos vivos… e de tristeza ao perceber como o tempo passou rápido demais, levando tantos amigos queridos do nosso convívio.

Minha prima Janete passou, parou, me deu um abraço e um beijo apressado: — Depois a gente se fala com calma, vou ali na Leader ver algo para minha mãe.

Saiu andando e deixou no ar a pergunta: — Quem é a moça?

Respondi: — Filha da tia Maria, neta do Seu Pedrinho Soares.

Foi o bastante.

Naipe abriu aquele sorriso antigo: — Eita! Quantas vezes entramos no quintal do Seu Pedrinho para pegar cajá-manga! E lá em cima, subindo pelo Ribeirão Santo Antônio, tinha o pomar do Seu Lino… bravo que só, dava corrida na turma!

E como não lembrar dessas aventuras à beira-rio?

Dodote então lança a pergunta que mistura dor e riso: — Algum de vocês já tomou tiro de sal na bunda?

Rimos todos. Mostrei a perna — a marca ainda está ali. Muito sangue, muita adrenalina, mas nenhum perigo. Um tiro de sal que incomodou bastante, deixou susto… e hoje rende boas histórias.

Dodote olhou em volta, apontou para uma casa próxima ao Jardim: — Ali morava o Didi Baiano. Um dos caras mais legais e malucos da geração do meu irmão Teteca.

E vieram as descidas a nado, ou nas boias feitas de câmara de ar de caminhão, nos dias de chuva forte, pelo Ribeirão Santo Antônio. Didi era mestre nos mergulhos da ponte do Aero Clube. Quem viveu sabe. E quando conta, sempre aumenta um pouquinho — porque memória também gosta de exagero.

A conversa seguiu firme. Naipe pegou embalo: — Só não aumentam nem inventam quando o assunto é pelada no Miracemense. Ali tinha testemunha demais! Não dá para dizer que jogava bem se não jogava.

Olhou para mim e completou: — Você foi um dos que jogava.

Sorri. Não discuti.

E seguimos trocando figurinhas com o passado. A memória pode até vacilar em detalhes, mas não esquece os rachas nas ruas, as peladas no Rink, os piques-bandeira, as andanças pela Rua Direita depois da sessão das seis no Cine XV.

Lembro bem de uma aposta: desfilar de calção e sem camisa pela rua logo após o fim do filme no XV. Fiz. Vaiado por muitos, aplaudido por poucos. No fim, rir era o melhor negócio.

Hoje, até esses encontros ficaram mais difíceis. A pandemia complicou até o simples ato de prosear na praça. Ainda bem que existe o Zap para manter viva a conversa dos tempos da carochinha — ou melhor, dos nossos tempos de infância e juventude.

E como disse, com orgulho, o desembargador Custódio Tostes:

“Nós, da nossa geração e de outras gerações de Miracema, somos uma família. Nossos pais eram amigos e nós crescemos unidos pelo laço da amizade fraterna. Por isso, até hoje nos respeitamos e nos amamos como verdadeiros irmãos.”

Pois é…

Saudade não tem idade.

Mas temos a certeza de uma coisa:

Fomos felizes.

E sabíamos disso.

segunda-feira, 2 de março de 2026

O dilema do aluno

                  Músicas de                           Parque de Diversões

Na noite passada recebi a visita do amigo e vizinho Marco Aurélio Motta. Sentamos para ouvir as músicas dos tempos de “pé de valsa do Grêmio do Nossa Senhora das Graças. Ele, dos salões do Automóvel Clube Fluminense. O repertório era praticamente o mesmo: Beatles, Elvis, Bee Gees, Roberto Carlos, Os Incríveis e tantos outros que embalaram os anos 70.

Porém... 畕 há sempre um porém.

Existe um sonho que pousava em Miracema nos anos 60.

Tenho no Spotify uma playlist que volta e meia coloco para tocar: “Músicas de Parque de Diversões”. E não é por acaso.

Uma das m4./~inhas formas de ganhar dinheiro para o cinema e para as noites na Rua Direita, depois das sessões do Cine XV, era trabalhar nas cabines de música dos parques que armavam seus brinquedos na pracinha em frente ao Colégio Nossa Senhora das Graças, na Avenida Nilo Peçanha.

Eu ficava ali, entre discos e alto-falantes, ganhando minhas pratinhas — se não me falha a memória, um cruzeiro por música, metade para mim. E os bordões eram clássicos:

“Alguém oferece a menina de vestido verde que está no Balanço Veneziano!”

Da cabine, eu soltava “Sonhar Contigo”, do Adilson Ramos. A menina de vestido verde começava a procurar, curiosa, quem teria feito a dedicatória.

Era mágico.

Eu tinha bom gosto musical — modéstia à parte — e levava meus próprios discos. Nelson Gonçalves era sucesso absoluto. Uma vez, lembro bem, um casal que andava separado resolveu se entender ali mesmo, ao som de “Negue”. Antônio ofereceu Maria como prova de amor. A moça foi até a cabine, perguntei quem era o rapaz e apontei. Veio abraço, veio beijo. Depois me disseram que nunca mais se separaram. Se é verdade, não sei — mas gosto de acreditar que fui cupido por uma noite.

Tenho também uma passagem que guardo com carinho.

Eu estava na terceira série do ginásio e havia perdido a prova de Geografia, da professora Nerilda Alves, porque estava trabalhando no parque. Sabia que ela ouviria o alto-falante ao se aproximar do colégio. Então anunciei:

“Um aluno que não pôde fazer a prova por estar trabalhando oferece à professora Nerilda como prova de respeito e admiração.”

E toquei a música preferida dela: “A Noite de Meu Bem”, com Dolores Duran.

Se ela gostou, não sei. Mas tinha certeza de que sabia quem era o atrevido.

Na semana seguinte fiz a prova. Tirei um dez.

E garanti a nota para passar na matéria.

Por aquela cabine passaram sonhos embalados por Moacyr Franco, Paulo Sérgio, Antônio Marcos, Waldick Soriano, Lindomar Castilho, Nilson César, Agnaldo Timóteo, Altemar Dutra, Reginaldo Rossi — e, claro, muito Roberto Carlos, o grande ídolo dos parques.

Ali, entre o cheiro de pipoca e o barulho do carrossel, eu descobri que música não era só som.

Era ponte.

Era mensagem.

Era sentimento traduzido em três minutos.

Talvez tenha sido ali, naquela cabine improvisada na pracinha da minha Miracema, que aprendi a narrar emoções antes mesmo de saber que um dia viveria delas.

Um dia de loucura

  ABERTURA Cara… quando eu te conheci, mal sabia falar direito. Chegava aqui pelas mãos do Nijel ou do Alvinho. Hoje estou aqui, já grandão,...