Histórias das Copas 1978

 ARGENTINA 78 – A COPA DAS SOMBRAS

A situação na Argentina era das mais delicadas. A linha-dura do regime do general Jorge Rafael Videla impunha censura, repressão e medo. Ainda assim, a realização da Copa do Mundo virou trunfo político para os militares.

Houve protestos, pedidos de boicote e pressões para que a FIFA mudasse a sede. Mas o então presidente, o brasileiro João Havelange, foi irredutível.

No Brasil, a turbulência era outra. A bronca caía sobre o técnico Cláudio Coutinho. A imprensa e os apaixonados por futebol não engoliam suas improvisações — embora ele carregasse no currículo o sucesso no Flamengo e a participação na preparação física da seleção de 70.

Para que a Copa acontecesse, chegou-se a um acordo silencioso: uma espécie de trégua entre militares e grupos de oposição, que prometeram evitar ações durante o torneio. Era o futebol tentando sobreviver em meio ao caos.

Na nossa Santa Terrinha, já não tínhamos mais a presença constante do guru Ermenegildo Solon, que havia partido para voos mais altos na capital. Mas suas palavras ecoavam.

“Dutra, já começamos errando na improvisação”, dizia ele.

E tinha razão.

Como bom brasileiro, Coutinho inventou: Toninho Baiano na ponta, Edinho improvisado, e — pasmem — deixou no Brasil um jovem talento chamado Paulo Roberto Falcão.

“Vi esse garoto jogar… não dava pra acreditar”, lembrava o guru.

“E ainda me colocam Chicão, o botinudo, como volante…”

Raras vezes uma Copa foi tão cercada de polêmicas. O futebol, muitas vezes, ficou em segundo plano diante das discussões políticas e denúncias contra o regime argentino.

Mesmo assim, o mundo foi. Quase todos. Ficaram de fora seleções importantes como Inglaterra e União Soviética, além da Iugoslávia. Outras estreavam, como Irã e Tunísia. A França voltava depois de longa ausência.

Mas foi dentro de campo que a ferida maior ficou.

O episódio mais controverso envolveu o jogo entre Argentina e Peru. Os donos da casa precisavam vencer por quatro gols de diferença para chegar à final. E venceram… por seis.

Um resultado que até hoje levanta suspeitas.

Para Ermenegildo, porém, a culpa era nossa:

“Entramos para não perder. E quem joga assim já perdeu.”

Segundo ele, o Brasil era melhor. Mas o medo, o excesso de cautela e a falta de ousadia custaram caro. Contra a Argentina, em Rosário, o time travou. Contra a Polônia, faltou ambição.

Enquanto isso, os argentinos “arrumavam a casa”.

Na final, diante da Seleção Holandesa — novamente protagonista — a Seleção Argentina confirmou o título com vitória por 3 a 1 na prorrogação, sob o comando de César Luis Menotti e com brilho de Mario Kempes.

O Brasil terminou invicto.

E, ainda assim, fora da final.

Ao fim, Coutinho soltou a frase que ficou marcada:

— “Somos os campeões morais.”

Mas futebol… não se ganha na moral.

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