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Meus olhos não me enganaram: por dentro, o Teatro Amazonas realmente lembra muito a Ópera Estatal de Viena.   O salão em ferradura, as fileiras de camarotes, o veludo vermelho, os dourados e a ornamentação criam quase a sensação de reencontro. Mas não é propriamente um clone. São como dois irmãos arquitetônicos da mesma época europeia: A Ópera de Viena foi inaugurada em 1869, em estilo neorrenascentista. O Teatro Amazonas começou a ser construído em 1884 e foi inaugurado em 1896, também sob forte influência renascentista e da Belle Époque europeia. O projeto de Manaus veio de um escritório português e foi desenvolvido pelo arquiteto italiano Celestial Sacardim, com decoração de artistas europeus. Ambos adotaram o modelo clássico das grandes casas de ópera: plateia em ferradura, vários níveis de camarotes, vermelho, dourado e decoração monumental. Há ainda uma curiosidade: o auditório vienense original foi destruído durante a Segunda Guerra Mundial e reconstruído, reabrindo em 1955....
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O falso fantasma

Em Miracema, o Tiro de Guerra 217 era um prédio antigo e cansado. O ar pesava ali dentro. Havia sempre conversas sobre um velho soldado, um atirador que morrera em serviço e que agora, diziam, rondava os corredores durante as vigílias. Alguns juravam por Deus tê-lo visto. Outros riam e chamavam os outros de covardes. Eu ouvia tudo e ficava quieto. A gente nunca sabe a verdade até que ela se apresenta. A primeira história começou quando o sargento Lecine assumiu. Foi num ano em que o inverno foi frio e a solidão parecia sentar-se junto às paredes. De madrugada, passos começaram a ecoar no salão de reuniões, bem acima de onde os soldados tentavam dormir. Então veio o som. Era música. Uma melodia suave que teimava em flutuar na penumbra. Os rapazes saltaram dos beliches. Saíram correndo e pararam em frente à prefeitura, o coração batendo descompassado. Quando a luz do dia veio, o medo havia se transformado em lenda. A segunda história foi a minha. Foi numa noite de tempestade. O vento uiv...

99 anos e somando

 Miracema: Noventa Anos de uma História Viva ​Ao completar 90 anos, Miracema não celebra apenas o tempo decorrido, mas a densidade das vidas que aqui se cruzam. Não é preciso falar do amor recíproco que nos une; ele é evidente em cada palavra escrita e em cada história resgatada. ​O Chão dos Personagens e da Acolhida ​Falar desta "Princesinha do Noroeste" é falar de sua gente. É evocar os personagens que caminham por nossas ruas e que, com sua simplicidade e sabedoria, dão cor ao cotidiano. É sentir o calor do povo mais acolhedor que o interior fluminense já conheceu, uma gente que abre a porta de casa e o coração com a mesma naturalidade. ​A Tradição que se Renova ​Nossa Exposição não é apenas um evento; é o pulsar de uma identidade. É onde o passado e o presente se encontram para celebrar nossa força e nossa alegria. Ser o narrador dessas memórias é um privilégio que a vida me deu. E se hoje recebo comendas, títulos e carinho, nada disso supera a amizade sincera que brota e...

Lençóis Maranhenses

 O Deserto de Águas ​Há lugares no mundo que parecem existir apenas no intervalo entre o sonho e a matéria. Os Lençóis Maranhenses pertencem a esse território suspenso. Dizer que é um deserto é cometer uma injustiça geográfica; dizer que é um mar de dunas é simplificar a poesia do vento. Os Lençóis são, acima de tudo, uma escultura viva feita de tempo, areia e chuva. ​Chega-se lá com o corpo ainda pesado das pressas da cidade. Mas a caminhada inicial sobre a areia alva impõe outro ritmo. A cada passo, os pés afundam numa maciez morna, como se a terra nos pedisse para desacelerar, para despir os sapatos e as certezas. Olhando em redor, a imensidão branca parece infinita, desenhada em curvas suaves que o vento Nordeste refaz pacientemente todas as tardes. Nada ali é definitivo. A duna de hoje não será a mesma amanhã; o caminho percorrido ao amanhecer já se apagou ao pôr do sol. ​E então, surge o milagre. ​Ao subir a crista de um morro de areia, o horizonte não entrega o vazio estéril...

Para Raio’s Bar

 O sol, esse gigante de fogo que insiste em se pôr mais devagar em Campos dos Goytacazes, mal tinha deixado as barras da calça no horizonte quando me vi diante do Para Raio’s Bar. O ambiente estava o de sempre: aquela mistura de néon, cheiro de fritura e a promessa tácita de que, ali, as leis do relógio não tinham jurisdição. Entrei com a "Caixinha do Demônio" — meu rádio vintage, de timbre grave e leal — debaixo do braço, já esperando aquele tilintar de gelo de quem tem pressa para o primeiro brinde. Mas a realidade pregou uma peça. O dono, figuraça de mil batalhas, balançou a cabeça antes que eu formulasse o pedido. — Hoje a bicha não veio, meu amigo. A geladeira deu um soluço de morte e a cerveja tá apenas... ambiente. Olhei para a prateleira vazia, desolado. Como debater os mistérios de Gonzaguinha ou as complexidades da vida sem a cúmplice gelada para aliviar o esôfago? Acomodei-me em um canto estratégico. O rádio soltou um estalo antes de harmonizar. Coloquei "Mesa...

Como vai você?

 A segunda-feira em Campos dos Goytacazes despertou com um calor desses que fazem o asfalto tremeluzir e a gente buscar sombra antes mesmo do primeiro café. Aqui, onde o sol parece ter uma intimidade exagerada com a terra, a gente vive no ritmo lento do tempo que o clima impõe. Mas, nesta manhã, o meu ritmo foi ditado por uma lembrança, por um fio invisível de melodia que invadiu o quarto assim que abri os olhos: Antônio Marcos. Não é que a tristeza tenha me visitado; na verdade, o coração acordou habitado por uma nostalgia doce, daquelas que não doem, mas que fazem a gente querer assentar a poeira da alma. E enquanto o ar lá fora fritava o horizonte, me peguei pensando que, às vezes, a gente só quer conversar com Deus para agradecer pelo presente que foi a passagem de certas pessoas por aqui. Antônio foi uma delas. Pode ser que você, que me lê agora — com esse olhar de quem atravessa o cotidiano como o "Homem de Nazaré" ou a sutileza de uma "Menina de Trança" —, so...

Manoel, José e Einstein

  " A imaginação é mais importante do que o conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação abraça o mundo." Assim disse Albert Einstein. Essa é uma das mais célebres citações do físico alemão. E o que ela tem a ver com o que comento hoje, neste Papo de Botequim? Tudo. Manoel tem pouco estudo e poucas oportunidades. Seu conhecimento formal é limitado, mas lhe sobram imaginação, paciência e vontade de aprender. É torneiro mecânico e lê o suficiente para sentar-se à mesa do bar e conversar, de igual para igual, com os amigos da roda de sábado. Na contramão do que acabei de dizer, José, advogado formado, oriundo de uma família financeiramente abastada, teve todas as oportunidades para adquirir amplo conhecimento. E, de fato, o adquiriu. Mesmo assim, não consegue decolar na carreira que escolheu. No último sábado, mostrei essa citação aos dois, separadamente. Manoel respondeu de imediato: — Essa frase foi feita para mim. Esse cara sou eu! José, por sua vez, disse ap...