sábado, 11 de abril de 2026

Cantando Ginzagunha

 Torcidas unidas jamais serão vencidas. Que beleza! E então, meu amigo torcedor, minha amiga torcedora: qual será a frase mais repetida neste fim de ano esportivo?  

Eu fico com “começar de novo”. Ao revisitar

a obra do saudoso Gonzaguinha, percebo que o poeta tinha suas razões. Mesmo sem falar diretamente de futebol, seus versos parecem feitos para os sofredores de 2010.  

> “A fé no que virá e a alegria de poder olhar para trás...”  

É nesse tom que a torcida do Flamengo embalará a virada do ano. Fé no amanhã, lembrança do ontem como exemplo. E, se tudo der certo, lá pelo meio do ano poderá repetir Gonzaguinha em Começaria tudo outra vez:  

> “E então eu cantaria a noite inteira como já cantei, e cantarei, as coisas que já tive, tenho, eu um dia terei.”  

Para os vascaínos, que há tempos não levantam um título, os mais apaixonados lembram: “Há o da Série B em 2009”. Se vale, então entendo por que o Fluminense só agora colocou o da Terceira Divisão em seu cardápio de conquistas. Afinal, depois de gritar “é campeão” na elite, vale recordar o sofrido título de 1999.  

> “Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder o que não mais dá para ocultar...”  

Assim canta Gonzaguinha em Não dá mais pra segurar. E o “Grito de Alerta” ecoa da torcida vascaína em coro para Roberto Dinamite: a hora é essa, presidente. Não dá mais para segurar as pontas. Ou assume de vez o comando, ou abre espaço para que outro conduza o bonde de São Januário.  

No Botafogo, Joel Santana não sabe se fica. Talvez pense:  

> “São tantas coisinhas miúdas, roendo, comendo, arrasando aos poucos...”  

Seria o caso Jobson, que anda tirando o Natalino do sério? Ou seriam convites para deixar o Engenhão e buscar novos rumos? O presidente alvinegro, por sua vez, parece dizer:  

> “Nosso caso é uma porta entreaberta e eu busquei a palavra mais certa...”  

Ou seja: fica conosco, Joel.  

Enquanto isso, os tricolores se esbaldam nos bares da vida, cantando:  

> “Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz...”  

Dá-lhe Fluminense, tantas vezes campeão.  

O menino Cássio, personagem das histórias do Papo de Botequim, celebra feliz a vitória do seu tricolor: “É a primeira vez, e a primeira vez a gente nunca esquece”. Hoje, já homem feito, casado e sonhando com um herdeiro tricolor, canta Gonzaguinha e traduz o que vai na alma dos jovens torcedores.  

> “Guerreiros são pessoas, são fortes, são frágeis, guerreiros são meninos por dentro do peito...”  

Parece até que esse grito não vem da voz afinada de Gonzaguinha, mas das arquibancadas iluminadas do Maracanã ou do Engenhão, onde a festa do Fluminense sempre se pinta de verde, grená e branco.  

E, no Estadual, todos soltarão o “Grito de Alerta”, estarão com o peito “Sangrando” e um “Ponto de Interrogação” pairará no ar, à espera de um novo “Começaria tudo outra vez”.  




quinta-feira, 9 de abril de 2026

Saudade em onda média

 Mais uma para o baú.

Esta semana, uma notícia que todos esperavam — inclusive eu — confirmou que a evolução da tecnologia chegou ao rádio e guardou para sempre as Amplitudes Moduladas. Sim, o velho rádio AM, companheiro inseparável de tantos de nós nos estádios mundo afora.

Quem nunca foi ao futebol com um radinho de pilha na mão para acompanhar a transmissão? Levante a mão… se conseguir.

Pois é. O rádio AM, segundo o filho Ralph Dutra, evoluiu. Mas nós, que vivemos dentro daquela caixinha mágica — fosse a pilha ou na tomada —, temos lá nossas dúvidas sobre essa tal evolução. As ondas do AM iam mais longe. Levavam o som, às vezes até ruim, é verdade, mas chegavam a todos os cantos do país — e até do mundo.

O meu velho Philco captava emissoras de todo o planeta. Quantos jogos ouvi do Sport Club Internacional, acompanhando o zagueiro Célio Silva em Libertadores e amistosos pelo mundo, tudo pelo som das rádios gaúchas.

O rádio AM me fez conhecer o Brasil sem sair do lugar.

Hoje, o FM e as modernas Web Rádios muitas vezes deixam o radialista refém de estúdios e transmissões “off tube” — narrando de uma sala fechada, olhando para uma televisão que nem sempre mostra tudo que o olho treinado do locutor gostaria de ver. Se isso é evolução… eu até posso dar o braço a torcer, mas com alguma resistência.

Lembro de uma conversa com o amigo Arnaldo Garcia, um dos grandes narradores com quem trabalhei e verdadeiro baluarte do rádio AM. Ele fazia de tudo para transmitir os jogos dos times campistas nessa era de internet e celular. Mas nunca — nunca mesmo — conseguiu a mesma qualidade de som que o velho AM entregava.

Sempre havia falhas, cortes, aquele som “pipocando”. Porque celular não é microfone de transmissão esportiva. E, definitivamente, não tem a alma — nem a potência — de uma rádio AM. Se isso é evolução, talvez eu esteja mesmo ficando para trás… mas ainda não concordo com o filho Ralph.

A verdade é que o rádio AM estava prestes a “morrer”. Não pela sua qualidade — essa nunca foi o problema —, mas pela falta de cuidado. Empresários que o deixaram virar sucata, emissoras do interior que foram se deteriorando, e uma economia que não ajudava.

Houve um tempo em que o rádio tinha mais audiência que a televisão em todo o território nacional. Depois, sim, a imagem falou mais alto — mesmo não chegando aonde o rádio chegava.

Não digam que este saudosista está errado.

Digam apenas que vocês também sentem falta do velho e querido companheiro: o radinho de pilha, com aquele som pequeno, quase íntimo, colado ao ouvido.

A FM e as Web Rádios estão aí, dominando o espaço. E eu torço — de verdade — para que elas aprendam com o AM: que vão aos estádios, às ruas, aos cantos mais distantes, e que deem voz e trabalho a milhares de radialistas que ainda esperam, como sempre esperaram, por um lugar ao sol.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

40 anos se passaram

 Guarânia, 40 anos e outras           armadilhas do tempo

Cuiabá, virada dos anos 70 para 80.

Calor, gente suando elegância e promessas de ano novo que já nasciam vencidas.

Num restaurante qualquer — desses que a gente entra sem saber que vai sair diferente — encontrei um grupo cantando guarânia.

Não pediam atenção. Tomavam a nossa.

Sentei, ouvi, gostei.

Cantei junto, meio sem jeito, como quem pede licença pra entrar numa história que não é sua.

Aplaudi muito. Não por educação — isso eu nunca tive em excesso — mas porque ali tinha verdade, e verdade não se economiza.

A vida, que gosta de pregar peças quando a gente acha que está só de passagem, resolveu armar a dela.

3 de janeiro.

Meu aniversário. 40 anos — idade em que o sujeito já começa a desconfiar das próprias certezas, mas ainda finge que manda em alguma coisa.

Meu primo Frederico, com aquele sorriso de quem apronta sem culpa, preparou a surpresa.

Festa, tudo bem. Já era esperado.

Mas ele foi além.

Trouxe o grupo.

Sim, aquele mesmo.

Não para um palco, não para uma plateia qualquer.

Para dentro de casa.

Para dentro da minha história.

E aí, meu amigo… não teve jeito.

A guarânia, que dias antes era só música bonita de fim de ano, virou outra coisa.

Virou espelho.

Virou lembrança antes mesmo de acabar.

Virou dessas coisas que a gente não sabe explicar, mas também não esquece.

Cantaram perto.

Olharam nos olhos.

E, sem saber, me deram um daqueles presentes que o tempo até tenta levar… mas não consegue.

Hoje olho a foto.

A versão antiga me encara sem piedade:

— passou.

A colorida, atrevida, tenta me enganar:

— nem tanto.

Fico com as duas.

Porque no fundo, o tempo é meio pantaneiro:

parece manso, mas quando a gente menos espera… dá o bote.

E deixa a gente ali, parado,

com um sorriso no rosto

e uma música que não vai embora.

O tempo passa...

        Entre o tempo e a guarânia

Cuiabá. Férias na virada da década de 70 para 80.

Calor daqueles que não se explica — só se aceita.

Na noite de réveillon, entre mesas cheias e conversas soltas, conheci um grupo que não estava ali apenas para tocar. Eles cantavam como quem conta a própria vida.

Fiquei. Ouvi. Gostei.

Sem convite, sem palco, cantei junto — baixo, no meu canto — como se já fizesse parte daquilo.

E aplaudi. Muito.

Não por educação, mas por reconhecimento.

Dias depois, 3 de janeiro.

Meu aniversário. 40 anos.

A gente acha que já viu de tudo aos 40.

Ledo engano.

Meu primo Frederico, desses que entendem a gente sem precisar de explicação, preparava em silêncio algo que dinheiro nenhum compra.

Uma surpresa.

E não era só festa.

Era aquele mesmo grupo.

Ali, na sua casa.

Ali, pra mim.

E então aconteceu de novo — mas diferente.

A guarânia voltou a ecoar, só que agora mais perto, mais íntima, mais minha.

As vozes já não eram novidade, eram companhia.

A música já não era descoberta, era memória sendo criada.

Não havia palco.

Não havia distância.

Só gente, som e verdade.

Hoje, olhando a foto, percebo duas coisas:

Uma me mostra que o tempo passou.

A outra insiste que ele apenas mudou de roupa.

E entre uma e outra, sigo eu —

ainda ouvindo aquela noite que nunca terminou.

sábado, 4 de abril de 2026

Palco e arquibancada

 Eduardo Afonso escreveu hoje, em sua coluna em O Globo, sobre um concerto precisando de conserto. E este colunista, que vos fala, acrescenta: não é só o concerto — as cadeiras, antes arquibancadas de estádios e hoje chamadas de arenas, também carecem, e muito, de educação e civilidade.

Afonso observa que, para muitos, o único motivo de ir a um concerto em um teatro lírico é colocar a conversa em dia, fotografar, filmar, rir e se divertir — não com a música erudita, mas com a própria turma, neófita e alheia ao tema principal do evento.

Este colunista, por sua vez, deixou de frequentar estádios — ou arenas — desde 2018, quando tentou assistir a um Atlético x Cruzeiro, no Independência, em Belo Horizonte. Foi destratado, empurrado e xingado simplesmente por pedir aos torcedores à frente que se sentassem.

E o que se vê hoje, mesmo pela televisão, também pede revisão urgente. Mas será que é isso que a torcida realmente quer?

quinta-feira, 26 de março de 2026

O Trem da Valle

 

Um trem para Minas

Na locomotiva que seguia de Vitória a Governador Valadares, “Seu” Albino, mineiro de 94 anos, falava com a energia de um rapaz. Lúcido, opinativo e cheio de histórias, lembrava sua vida no Exército e a passagem pela Segunda Guerra. Entre goles de café e comentários sobre política, confessava: “Já não encontro alegria em torcer pelo Flamengo ou pelo América. Assim como na vida, às vezes é preciso mudar de rumo”.

No mesmo vagão, Carlos Augusto ironizava nossa paixão pelo futebol: “Conheço Garrincha, Pelé, Maradona… mas não entendo como vocês gastam tanto tempo com essas discussões”. França, ao contrário, trazia o futebol como memória viva. Aos 75 anos, emocionou-se ao recordar Miracema: os craques locais, os bailes do Aeroclube, o Colégio Miracemense. Cada lembrança reacendia nele a chama da juventude.

A viagem pelo Rio Doce tornou-se mais que deslocamento: foi encontro de gerações, de opiniões e de saudades. Entre causos, risadas e confidências, o trem transformou-se em palco de histórias que não se apagam. Para Albino, Carlos Augusto e França, e também para nós, foi uma travessia que misturou passado e presente — e que ficará guardada como uma das mais belas jornadas por Minas Gerais.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Diário de viagem

 DIARIO DE UMA VIAGEM


O projeto de ir a Europa, em viagem cultural e de lazer, começou a ser traçado em 2005, logo após ver frustrada uma possibilidade de seguir com a mesma passagem, ganha em concurso da Sky, que nos levou a Madrid para ver um jogo de futebol entre os times da capital espanhola, Real x Atlético, que culminou com um belo passeio até Toledo, cidade medieval e primeira capital dos espanhóis.

Ficamos, eu e Marina, cerca de um ano escolhendo roteiro em revistas especializadas, na internet e no Caderno de Turismo do Globo. Grécia? Sim. Dizia Marina. Áustria? Pensava eu quieto para não influenciar a decisão da esposa. Quem sabe Fátima, Lourdes, Campostela, Vaticano ou até mesmo Israel? É muito, a grana não dá para tantos quilômetros a percorrer. O tempo passa e os projetos estão engavetados, falta o principal, dinheiro disponível e que não comprometerá o futuro da família Dutra.

Março chega e com ele uma boa surpresa. A justiça do trabalho determina o pagamento de um processo, contra o FGTS, e pimba, voltamos a idéia de rodar pelo Velho Continente como turistas culturais. Lá vem de novo a escolha e, claro, a Itália está no roteiro e Portugal ganha força porque a visita a Fátima é fundamental para todos nós, católicos e fervorosos devotos de Nossa Senhora. 

Roteiro nas mãos e lá vamos nós para a Esperança Turismo fazer as contas e projetar definitivamente nossa viagem. Com o apoio do Júnior fizemos as escolhas e chegamos a conclusão que Brasileiros na Europa era o que havia de melhor e que iria preencher todos os nossos requisitos. Portugal, com Estoril, Cascais, Sinta e Fátima, além de uma breve passagem por Monsanto, seguindo para a Espanha, onde poderíamos rever Madri e Toledo, e conhecer Zaragoza, com sua imponente catedral dedicada a Nossa Senhora do Pilar, e Barcelona, berço catalão e uma das cidades mais visitadas do mundo.

Até aí tudo bem, estávamos no rumo certo e o roteiro foi se completando com Nice e Mônaco, entrando na França para alcançarmos a Itália, onde visitaríamos Pisa, passando por Gênova, e seguindo para Roma, onde encontraríamos com o primo Miguel e eu estaria realizando o antigo sonho de ver o Coliseu, o Vaticano, as ruínas e a Roma Romântica, tão badalada em filmes e documentários. O sonho estava vivo e os passeios adicionais estavam sendo imaginados, claro que para isto era preciso alguns euros a mais.

E mais alguns dias de conversa, eu e Marina ficamos pelo menos duas semanas definindo como seria o nosso trajeto e mentalizamos uma possível visita a Suíça, que não estava no roteiro original e sim no roteiro da CVC, empresa ligada a Europamundo, que nos levou pela Europa em ônibus especial. De Roma, para chegar a Lugano, Lucerna, Zurique e Berna, na Suíça, teríamos que passar por Florença e Veneza, ambas cidades histórias no norte da Itália, incluídas em nosso roteiro original, e que preenche qualquer agenda de um viajante iniciante. 

Fecharíamos finalmente nosso roteiro em Paris, onde por três dias passearíamos pelas ruas da mais famosa cidade do mundo e transformaria o sonho de Marina, de ver de perto o Museu do Louvre, em realidade. Torre Eiffel, Rio Sena, Bateaux Mouche, Arco do Triunfo, Can-Can, luz, saber e alegria. Tudo isto é Paris e lá vamos nós para nossa primeira aventura na Europa.

DIÁRIO DE UMA VIAGEM 2

Saímos do Rio por volta das 17 horas do dia onze de setembro, o Carlos Fernando Motta nos levou ao Aeroporto Tom Jobim onde pegamos o vôo 0479 da TAP rumo a Lisboa, capital portuguesa e primeira parada de nosso roteiro. Nossa viagem foi tranqüila, apesar do pequeno mal estar que quase me fez pensar em desistir, antes mesmo do avião começar a taxiar no pátio do Galeão. Um comprimido de Alcadil resolveu o problema e a viagem transcorreu em absoluta calmaria, muito embora eu tenha certeza de que Marina estava preocupada comigo.

Chegamos por volta das sete da manhã no Aeroporto de Lisboa, onde fomos recebidos pelo agente da Europamundo, que nos levou ao Arts Lisboa Hotel e aos poucos fomos nos entrosando com o grupo de mineiros liderados pelo guia Fábio, que chegara ao mesmo tempo em que nós nos registrávamos na portaria do hotel. Aos poucos formos conhecendo casais e firmando novas parcerias. A primeira destas foi com um casal, que já ultrapassou a faixa dos setenta anos, Júlio e Marieta, com quem almoçamos em um shoping próximo ao Arts Hotel. 



Cantando Ginzagunha

  Torcidas unidas jamais serão vencidas. Que beleza! E então, meu amigo torcedor, minha amiga torcedora: qual será a frase mais repetida nes...