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A Merche do Lúcio

  O Bar Pracinha e o “Merche” Mexido O Bar Pracinha, que conheci na esquina da Rua Francisco Procópio com a Rua Direita, guarda histórias incríveis e personagens inesquecíveis. Ali passaram ricos e pobres, brancos, negros, mulatos e índios. Gente de todo tipo viveu momentos especiais naquele que, no meu ponto de vista, foi o bar mais elegante da cidade. Principalmente no prédio antigo, o da famosa esquina, já comentado em outras crônicas. Havia ali uma atmosfera que lembrava os bares europeus dos anos 1950 — balcão imponente, garçons atentos, conversa alta e aquele ar de importância que só certos lugares conseguem manter. Conheci o Pracinha já na administração dos Irmãos Salim — Jofre, Nacif e José — vindos de Palma, Minas Gerais, para viver seus grandes momentos em Miracema. Com amor, dedicação e espírito inovador, comandaram o estabelecimento numa época em que o município vivia talvez seu melhor momento comercial e industrial. Cada um que frequentou o Pracinha até seu fechamento ...

Cajá e tiro de sal

  Tiro de Sal, Cajá-Manga e Rua Direita Relendo esta crônica, escrita há alguns anos, percebo que já havia ali uma vontade de segurar o tempo pelas mãos. Hoje, com mais estrada percorrida, entendo melhor: não eram apenas lembranças. Era gratidão. Gratidão por ter vivido uma Miracema de portas abertas, quintais generosos e amizades que atravessaram décadas. Andando pelas calçadas de Miracema, olhando os belos casarões da Rua Direita e admirando a beleza do nosso Jardim, encontro dois amigos da velha guarda: Naipe — Luiz Alberto Aguiar — e Jorge Neiva, nosso querido Dodote. Bastou o cumprimento para que um punhado de recordações viesse à tona. Vieram gargalhadas. Vieram lágrimas. Lágrimas de alegria por estarmos vivos… e de tristeza ao perceber como o tempo passou rápido demais, levando tantos amigos queridos do nosso convívio. Minha prima Janete passou, parou, me deu um abraço e um beijo apressado: — Depois a gente se fala com calma, vou ali na Leader ver algo para minha mãe. ...
 Tiro de Sal, Cajá-Manga e Rua Direita Andando pelas calçadas de Miracema, olhando os belos casarões da Rua Direita e admirando a beleza do nosso Jardim, encontro dois amigos da velha guarda: Naipe — Luiz Alberto Aguiar — e Jorge Neiva, nosso querido Dodote. Bastou o cumprimento para que um punhado de recordações viesse à tona. Vieram gargalhadas. Vieram lágrimas. Lágrimas de alegria por estarmos vivos… e de tristeza ao perceber como o tempo passou rápido demais, levando tantos amigos queridos do nosso convívio. Minha prima Janete passou, parou, me deu um abraço e um beijo apressado: — Depois a gente se fala com calma, vou ali na Leader ver algo para minha mãe. Saiu andando e deixou no ar a pergunta: — Quem é a moça? Respondi: — Filha da tia Maria, neta do Seu Pedrinho Soares. Foi o bastante. Naipe abriu aquele sorriso antigo: — Eita! Quantas vezes entramos no quintal do Seu Pedrinho para pegar cajá-manga! E lá em cima, subindo pelo Ribeirão Santo Antônio, tinha o pomar do Seu Lino...

O dilema do aluno

  Músi.,q wcas de Ptarque de Diversões Na noite passada recebi a visita do amigo e vizinho Marco Aurélio Motta. Sentamos para ouvir as músicas dos tempos de “pé de valsa do Grêmio do Nossa Senhora das Graças. Ele, dos salões do Automóvel Clube Fluminense. O repertório era praticamente o mesmo: Beatles, Elvis, Bee Gees, Roberto Carlos, Os Incríveis e tantos outros que embalaram os anos 70. Mas 。,畕 há sempre um porém. Existe um sonho que pousava em Miracema nos anos 60. Tenho no Spotify uma playlist que volta e meia coloco para tocar: “Músicas de Parque de Diversões”. E não é por acaso. Uma das m4./~inhas formas de ganhar dinheiro para o cinema e para as noites na Rua Direita, depois das sessões do Cine XV, era trabalhar nas cabines de música dos parques que armavam seus brinquedos na pracinha em frente ao Colégio Nossa Senhora das Graças, na Avenida Nilo Peçanha. Eu ficava ali, entre discos e alto-falantes, ganhando minhas pratinhas — se não me falha a memória, um cruzeiro por músic...

Sou de,Miracema

 Sete Eu sempre digo que já fiz de tudo na minha Miracema. Hoje começo a contar um pouco do que fiz, do que fui e do que deixei de bom na terra que me viu nascer — e que aprendi a amar com toda a força. Fui músico, joguei futebol, cantei em conjuntos e festivais. Fui locutor de carro de som e da nossa Rádio Princesinha. Atuei como dirigente do Grêmio do Miracemense e, se não me dei bem na Maçonaria, não foi por minha culpa. No Rotary Clube deixei minha marca — até o dia em que deixei a cidade para tentar a sorte em outro destino. Mas começo minha história com Miracema por um amor especial. Poderia falar das peladas do Ginásio, do nosso Vasquinho ou dos teatros do Prudente de Moraes. Poderia começar pelo rádio ou pelo futebol. Escolhi começar pela música. Escolhi começar pela Sociedade Musical 7 de Setembro — nossa tradicional e centenária Banda Sete, famosa e inesquecível. Foram seis anos por lá, dos 14 aos 20. Convivi com grandes músicos e maestros. Aprendi com José Viana e com o ...

O Jardim

  Os Bancos do Jardim   Bancos do Jardim O Jardim de Miracema sempre foi meu refúgio. Prefiro os bancos mais afastados da passagem principal. Sento ali e deixo que as lembranças façam o que sabem fazer melhor: voltar sem pedir licença. A praça e seus arredores têm algo de mágico — talvez porque ali eu tenha vivido alguns dos momentos mais intensos da minha vida. Meu velho guru, Ermenegildo Solon, dizia que sentar naqueles bancos era santo remédio para quem carregava história. Ele tinha razão. Daquele ponto, enxergo o antigo Jardim de Infância Clarinda Damasceno e revejo as professoras — não “tias”, como hoje se diz, mas professoras, donas de respeito e autoridade serena. Não cito nomes para não cometer injustiça com alguma. Você que viveu aquele tempo certamente se lembrará da sua. Viro o olhar e encontro o Rink. E ali estou outra vez, correndo atrás da bola — fosse de salão, de vôlei ou de basquete. Aquela quadra era sagrada. Já contei histórias dos craques que brilharam ...

Onde canta o sabiá?

 Onde Canta o Sabiá? Alguns sucessos do meu tempo de criança e juventude ainda me visitam de surpresa. A bossa nova era uma das minhas preferidas. E basta ouvir um verso para que eu me veja outra vez de calça curta, sentado na calçada da Prefeitura, com um talo de mamão transformado em canudo, uma caneca de alumínio com água e sabão, soprando bolhas que viravam bolas, bolinhas e bolões. Hoje, as crianças da geração Luna e Felipe — meus netos — compram brinquedos prontos em lojas especializadas. Nós inventávamos os nossos. Lembrei dessa peraltice ouvindo uma música interpretada por Doris Monteiro. Em determinado momento ela canta: “Sentado na calçada com canudo e canequinha…” Foi o bastante. Um verso apenas — e lá estava eu, de volta à minha Miracema. Outro dia, ao postar uma crônica no Facebook, alguém contestou minha paródia de Gonçalves Dias: “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá…” Disseram-me que sabiá não canta em palmeiras. Tudo bem. Mas afinal, onde canta o sabiá? Ta...