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Passado e presente

            Velho e saudoso? Me chamam de velho, às vezes de saudosista. E o que fazer, se já vivi sete décadas e meia, fiz muito do que sonhei, andei pelo mundo e por este meu Brasil brasileiro? Não implico com quem vive só o presente — cada um carrega o tempo que tem. Mas há quem lembre que usou Glostora no cabelo, perfume Lancaster para impressionar, viu Sissi, a Imperatriz, no cinema… e nunca pisou no Palácio de Schönbrunn, em Viena, onde ela realmente viveu sua história. Eu não usei calça Lee ou Levi’s, não tinha grana, mas fui aos bailinhos da Varanda e da Cabana XV, bebi gim-tônica sob luz negra só para ser notado. Li O Cruzeiro, devorei O Jornal e o Diário de Notícias — ali, sem saber, comecei meu aprendizado de jornalismo. Tem gente que jura que viu Ben-Hur no cinema, mas nunca pisou no Coliseu, em Roma, onde homens lutavam pela vida — quase nunca pela liberdade. Usaram perfumes caros, franceses, mas não atravessaram a porta do Moulin Rouge nem bri...
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Tempo de pandemia

 Outro dia me peguei com saudade dos tempos de guri. Veio aquela imagem clássica: correndo pela rua, leve, solto, sem compromisso com nada além da próxima pelada. Bonito, né? Bonito… mas também meio mentiroso. Porque ninguém lembra do dia em que foi escolhido por último. Nem do tombo feio que fez chorar escondido. Nem da bronca em casa por chegar sujo, rasgado e feliz. A memória tem esse talento: ela dá uma ajeitada nas coisas, passa um pano, dá um brilho. E a gente agradece. Saudade, no fundo, é isso: uma versão melhorada da vida. Outro dia pensei nisso enquanto tomava uma cerveja — coisa que o guri que eu fui certamente trocaria por uma Coca-Cola bem gelada. Olhei em volta e percebi que ainda tem muita coisa boa acontecendo… só que de outro jeito. Não tem mais corrida na rua, mas tem história pra contar. Não tem mais joelho ralado, mas tem umas cicatrizes que rendem conversa. Não tem mais a turma toda junta, mas tem aqueles poucos que continuam — e isso já vale muito. A gente mud...

Um dia de loucura

  ABERTURA Cara… quando eu te conheci, mal sabia falar direito. Chegava aqui pelas mãos do Nijel ou do Alvinho. Hoje estou aqui, já grandão, falando de você… falando com você. E, mais do que isso, conversando contigo. Você, que durante tantos anos, me deu um punhado de alegrias. 1. O SILÊNCIO QUE SABIA Tristeza? Não. Nunca fiquei triste ao lado desse velho moço, que agora veste roupa nova e parece ter voltado à infância. Quantas vezes cheguei aqui sozinho, falando baixinho, sonhando que um dia seria famoso, jogador de um grande time brasileiro… Você nunca respondeu. Mas o seu silêncio… já sabia de tudo. 2. OS QUE FIZERAM HISTÓRIA Você viu passar por aqui o grande Lauro Carvalho — que cracaço! —, o Milton Cabeludo, meu primeiro ídolo. Viu nascer a geração do Rink, liderada pelo incrível — e folclórico — Chiquinho Maracanã. Viu o Tupan, com meu velho pai, Zebinho, ao lado de Olavo Cueca, Noqueta e tantos outros. E viu também esse menino teimoso sonhar alto demais. 3. O FIM DO SONHO (...

Dia de Fla Fla-Flu é de festa no Maraca

   DIA DE FLA X FLU É DIA DE FESTA NO MARACA Hoje é dia de Fla x Flu no Maracanã e não tem nada melhor do que recordar os bons tempos do nosso futebol, época em que o futebol do Rio era respeitado e tinha crédito diante do torcedor brasileiro. Na década de 70, quando estes dois tradicionais rivais se encontravam, o Maracanã se transformava em um palco privilegiado para vinte e dois artistas e suas arquibancadas vestiam de vermelho e preto, de um lado, e de verde, grená e branco em outro lado. Quantos clássicos destes eu vi e fiquei extasiado. Muitos foram os jogadores que brilharam neste confronto, Rivelino e Zico não valem, assim como a turma da saudade pode evitar a citação de Dida ou Valdo, craques indiscutíveis e que marcaram suas carreiras envergando as camisas de Flamengo e Fluminense. Alguns brilharam dos dois lados, Paulo César Lima, Doval, Samarone, Rodrigues Neto e outros menos votados, porém com a mesma importância dos citados aqui. HISTÓRIAS DO FLA X FLU (1) - Jogo...

O trem azul em Vila da,Serra

Sentado na calçada do condomínio, aqui em Vila da Serra, sem canudo ou canequinha, mas com o sol batendo direto na cabeça, deixo o pensamento correr solto — desses que só aparecem quando a gente não chama. Fico imaginando  como conseguem fazer canções. Letras, no caso. Como alguém junta meia dúzia de palavras e, de repente, desmonta a gente por dentro. Tem música que não toca — atravessa. E aí me vejo embarcando num trem azul, desses que não param em estação nenhuma. Não tem chegada, nem despedida. Só leva a gente pra um passado recente, ainda quente, ainda vivo. No fone, Paulo Diniz pergunta: “como vou deixar você?”. E eu fico aqui, sem resposta. Porque, meu caro, a vida às vezes só anda mesmo em linhas tortas. Como é que deixa, se ainda ama? Logo depois, como se fosse combinado, aparece Belchior. E aí já era. Ele vem com aquele jeito de quem entende tudo sem explicar muito. Eu não sou um Rapaz Latino-Americano, é verdade — mas estou cansado. Cansado de pensar no tempo, de tentar ...

Eu sou Flamengo

  Da série sou Flamengo e tenho uma nega chamada Tereza, do tijucano Jorge Ben, parceiro das peladas na Tijuca, como o meu amigo Yussef Salim, o Sefinho, que me envia aqui abaixo um dos piores ataques do Flamengo, de todos os tempos. Assim me recordo daquele que era, antes este de hoje, de Mano/Pelaipe,eu considerava o pior de todos, mas hoje vejo que este de 2013 suplantou em muito, aquele dirigido pelo folclórico e lendário Don Yustrich. Corria o ano de 1971, minha fase carioca, morador da Rua José Higino, bem em frente a Cervejaria Brahma, vizinho de quarteirão do Yussef, cuja família é miracemense de quatro costados, e Maracanã era o portão da minha casa, saia do Hotel Regente, em Copacabana, com destino certo às quartas, quintas, sábados e domingos jogasse quem fosse no Maior do Mundo que por lá estava nas gerais ou, dependendo da grana na carteira, nas cadeiras do Mário Filho. Eram dias duros, as nossas peladas, no Quartel de Bombeiros na esquina da Rua Antônio Basílio com Jo...

O bolinho nao saiu

 Meu avô tem histórias interessantes do balcão e das mesas do seu Bar do Vicente, na Praça Ary Parreira, bem em frente a nossa Prefeitura, que hoje ganhou roupa nova, sem mudar a estrutura maravilhosa.   Aqui não é lenda nem conversa de Botequim, e verdade pura, daquela nua e crua e meus velhos camaradas, aqueles que ainda estão entre nós, saberão e darão crédito. Sai um bolinho - Beto, meu parceiro de calçada quando engraxates, cresceu, foi para o Rio, em três meses voltou a terrinha e fez uma visita ao velho Vicente Dutra.  - Sai um bolinho de milho aí, seu Vicente.  Vovô abriu a porta da vitrine e disse: sai, bolinho. E foi para longe. Beto ficou esperando e falou: -Cadê o bolinho, meu tio? Vovô riu... esnobou Beto, e mandou de la: - sorte sua que não sou seu tio, e azar o seu que o bolinho não quis sair.