quinta-feira, 26 de março de 2026

O Trem da Valle

 

Um trem para Minas

Na locomotiva que seguia de Vitória a Governador Valadares, “Seu” Albino, mineiro de 94 anos, falava com a energia de um rapaz. Lúcido, opinativo e cheio de histórias, lembrava sua vida no Exército e a passagem pela Segunda Guerra. Entre goles de café e comentários sobre política, confessava: “Já não encontro alegria em torcer pelo Flamengo ou pelo América. Assim como na vida, às vezes é preciso mudar de rumo”.

No mesmo vagão, Carlos Augusto ironizava nossa paixão pelo futebol: “Conheço Garrincha, Pelé, Maradona… mas não entendo como vocês gastam tanto tempo com essas discussões”. França, ao contrário, trazia o futebol como memória viva. Aos 75 anos, emocionou-se ao recordar Miracema: os craques locais, os bailes do Aeroclube, o Colégio Miracemense. Cada lembrança reacendia nele a chama da juventude.

A viagem pelo Rio Doce tornou-se mais que deslocamento: foi encontro de gerações, de opiniões e de saudades. Entre causos, risadas e confidências, o trem transformou-se em palco de histórias que não se apagam. Para Albino, Carlos Augusto e França, e também para nós, foi uma travessia que misturou passado e presente — e que ficará guardada como uma das mais belas jornadas por Minas Gerais.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Diário de viagem

 DIARIO DE UMA VIAGEM


O projeto de ir a Europa, em viagem cultural e de lazer, começou a ser traçado em 2005, logo após ver frustrada uma possibilidade de seguir com a mesma passagem, ganha em concurso da Sky, que nos levou a Madrid para ver um jogo de futebol entre os times da capital espanhola, Real x Atlético, que culminou com um belo passeio até Toledo, cidade medieval e primeira capital dos espanhóis.

Ficamos, eu e Marina, cerca de um ano escolhendo roteiro em revistas especializadas, na internet e no Caderno de Turismo do Globo. Grécia? Sim. Dizia Marina. Áustria? Pensava eu quieto para não influenciar a decisão da esposa. Quem sabe Fátima, Lourdes, Campostela, Vaticano ou até mesmo Israel? É muito, a grana não dá para tantos quilômetros a percorrer. O tempo passa e os projetos estão engavetados, falta o principal, dinheiro disponível e que não comprometerá o futuro da família Dutra.

Março chega e com ele uma boa surpresa. A justiça do trabalho determina o pagamento de um processo, contra o FGTS, e pimba, voltamos a idéia de rodar pelo Velho Continente como turistas culturais. Lá vem de novo a escolha e, claro, a Itália está no roteiro e Portugal ganha força porque a visita a Fátima é fundamental para todos nós, católicos e fervorosos devotos de Nossa Senhora. 

Roteiro nas mãos e lá vamos nós para a Esperança Turismo fazer as contas e projetar definitivamente nossa viagem. Com o apoio do Júnior fizemos as escolhas e chegamos a conclusão que Brasileiros na Europa era o que havia de melhor e que iria preencher todos os nossos requisitos. Portugal, com Estoril, Cascais, Sinta e Fátima, além de uma breve passagem por Monsanto, seguindo para a Espanha, onde poderíamos rever Madri e Toledo, e conhecer Zaragoza, com sua imponente catedral dedicada a Nossa Senhora do Pilar, e Barcelona, berço catalão e uma das cidades mais visitadas do mundo.

Até aí tudo bem, estávamos no rumo certo e o roteiro foi se completando com Nice e Mônaco, entrando na França para alcançarmos a Itália, onde visitaríamos Pisa, passando por Gênova, e seguindo para Roma, onde encontraríamos com o primo Miguel e eu estaria realizando o antigo sonho de ver o Coliseu, o Vaticano, as ruínas e a Roma Romântica, tão badalada em filmes e documentários. O sonho estava vivo e os passeios adicionais estavam sendo imaginados, claro que para isto era preciso alguns euros a mais.

E mais alguns dias de conversa, eu e Marina ficamos pelo menos duas semanas definindo como seria o nosso trajeto e mentalizamos uma possível visita a Suíça, que não estava no roteiro original e sim no roteiro da CVC, empresa ligada a Europamundo, que nos levou pela Europa em ônibus especial. De Roma, para chegar a Lugano, Lucerna, Zurique e Berna, na Suíça, teríamos que passar por Florença e Veneza, ambas cidades histórias no norte da Itália, incluídas em nosso roteiro original, e que preenche qualquer agenda de um viajante iniciante. 

Fecharíamos finalmente nosso roteiro em Paris, onde por três dias passearíamos pelas ruas da mais famosa cidade do mundo e transformaria o sonho de Marina, de ver de perto o Museu do Louvre, em realidade. Torre Eiffel, Rio Sena, Bateaux Mouche, Arco do Triunfo, Can-Can, luz, saber e alegria. Tudo isto é Paris e lá vamos nós para nossa primeira aventura na Europa.

DIÁRIO DE UMA VIAGEM 2

Saímos do Rio por volta das 17 horas do dia onze de setembro, o Carlos Fernando Motta nos levou ao Aeroporto Tom Jobim onde pegamos o vôo 0479 da TAP rumo a Lisboa, capital portuguesa e primeira parada de nosso roteiro. Nossa viagem foi tranqüila, apesar do pequeno mal estar que quase me fez pensar em desistir, antes mesmo do avião começar a taxiar no pátio do Galeão. Um comprimido de Alcadil resolveu o problema e a viagem transcorreu em absoluta calmaria, muito embora eu tenha certeza de que Marina estava preocupada comigo.

Chegamos por volta das sete da manhã no Aeroporto de Lisboa, onde fomos recebidos pelo agente da Europamundo, que nos levou ao Arts Lisboa Hotel e aos poucos fomos nos entrosando com o grupo de mineiros liderados pelo guia Fábio, que chegara ao mesmo tempo em que nós nos registrávamos na portaria do hotel. Aos poucos formos conhecendo casais e firmando novas parcerias. A primeira destas foi com um casal, que já ultrapassou a faixa dos setenta anos, Júlio e Marieta, com quem almoçamos em um shoping próximo ao Arts Hotel. 



terça-feira, 24 de março de 2026

Sábado, em Miracema, com chuva e futebol


Sábado, muita chuva e um frio fora de época, pego o tênis, o boné e deixo o celular em casa, para que ninguém incomode as minhas andanças pelo centro da cidade em busca de um tema novo para prosear aqui, neste espaço, com os amigos deste “Papo de Bola”. 

Ando por ali, volto por aqui, chego às esquinas e nada, ninguém comenta, ninguém opina sobre o velho e querido esporte bretão. 

O papo era de política e como saí de casa, arriscando um resfriado, que com certeza virá, dou uma parada no Bar Central, onde encontro meu amigo Ricardo, ainda se restabelecendo de um problema coronário, este tenta me dizer alguma coisa sobre o seu Botafogo, velho Fogão que já deu lenha e que já nos deixou, torcedores rubro negros, encostados à beira de um balcão, sem flor, chorando mágoas e tomando todas por esta ou aquela vitória alvinegra.

Tenho saudades do Ricardo, também do Glorioso Botafogo, que um dia me deu raiva, mas quando aquelas feras se juntavam na seleção brasileira, ah!, dava prá sentir a felicidade no rosto de qualquer brasileiro, mesmo estes que neste sábado chuvoso e frio, querem ficar falando de política. 

Eu, até que dou razão a esta turma, tenho um pensamento sobre este fenômeno extemporâneo. O que faz este grupo se esconder do papo de bola é a fase ruim do futebol do Rio de Janeiro, pode acreditar. Sei que quando tudo isto passar não há Lula, Ciro, Serra ou Garotinho que suplantem o amor destes brasileiros pela bola, principalmente em se tratando de Campeonato Brasileiro, hoje com um espaço bem maior do que os estaduais velhos de guerra.

Mas eu dizia que tinha saudades do Ricardo, meu bom parceiro, que quando jovem me deu muita botinada nas canelas tentando me parar na defesa do seu Operário. Hoje o Ricardo reclama, com razão, que o seu Bar Central já não produz mais discussões frenéticas como no tempo do seu pai, o velho e bom Zé Careca, que debaixo do seu estilo silencioso sabia, como ninguém, colocar um pouco de pimenta nas “brigas” esportivas. 

“O nível e o número das apostas caiu bastante”, reclama o bom Ricardo. “Isto aqui fervia quando havia clássico carioca. Se apostava até em quem cederia o primeiro lateral”. 

Isto eu presenciei, e acredito que em todo o país os apostadores do futebol faziam o mesmo, mas hoje, além do dinheiro curto, as emoções do futebol já não mexem conosco, muito pelo contrário, até se foge do assunto em prol de um papo de política.

Adentrando um pouco mais encontro o Di Breu, flamenguista, apostador, ex-jogador e hoje um torcedor frustrado. É dele a principal reclamação do dia. “Pô, cara. A gente fica plantado em frente a tevê e espera, espera, espera e nada”. 

Acho que o leitor, que é inteligente, entendeu a bronca do Di Breu. Ele simplesmente, debaixo de sua humildade e pouca instrução, disse tudo aquilo que está acontecendo no futebol do nosso Estado do Rio. Nada, simplesmente nada. Uma pena, mas é a dura realidade.

Como o sábado estava acabado e a boa conversa estava reservada apenas para os salões dos bares, resolvi voltar prá casa do Arthur, meu cunhado, olha o Botafogo aí outra vez, para sentar-me à mesa e prosear um pouco mais sobre as coisas do futebol. Ali, pelo menos, o clássico Fogão x  Mengão, terminava sempre empatado, duas prá lá e duas prá cá. Depois disso uma soneca e mais uma vez uma “pelada” na tevê, afinal, ninguém é de ferro e o futebol faz parte de nossa vida.

domingo, 22 de março de 2026

Sonho de artilheiro


GOL QUE ESPEROU POR MIM

Naquela madrugada,

quando o calor nem deixava o sono descansar direito,

eu viajei.

Não de ônibus,

não de trem,

nem de avião.

Viajei no tempo.

Voltei a ser menino.

Sem barba, sem pressa, sem cansaço.

Só sonho.

E lá estava eu,

em Miracema,

com a camisa do Rink colada ao corpo

e o coração batendo mais forte que qualquer torcida.

O campo não tinha arquibancada,

mas tinha história.

E tinha eles.

Lauro.

Cabeludo.

Braizinho.

Não eram homens.

Eram luz.

Jogavam fácil,

como quem conversa com a bola

e ela entende.

Eu corria.

Tentava acompanhar.

Chegava perto,

errava,

voltava.

Como sempre.

Mas o sonho…

ah, o sonho tem piedade da gente.

E então veio.

Pelo lado direito,

como se o tempo desacelerasse só pra ver melhor.

Braizinho toca.

Cabeludo sorri com a bola nos pés.

Lauro recebe como quem já sabia o final.

E eu…

eu estava lá.

Pela primeira vez,

no lugar certo.

No tempo certo.

A bola veio.

Mansa.

Redonda.

Perfeita.

Como um presente guardado a vida inteira.

Dominei.

O mundo parou.

Não havia moto.

Não havia barulho.

Não havia Belo Horizonte.

Só Miracema.

Só o campo.

Só eu…

e o gol.

Bati.

Sem força.

Sem medo.

Com tudo o que eu fui,

com tudo o que eu sonhei ser.

A bola entrou.

Devagar,

como quem respeita o momento.

Rede balançando.

Silêncio bonito.

Depois… alegria.

Eles vieram.

Lauro me abraçou.

Cabeludo riu daquele jeito solto.

E Braizinho…

Braizinho olhou pra mim

como quem diz:

— Demorou, mas você chegou.

Acordei.

Sem grito.

Sem susto.

Só com um sorriso molhado.

Porque tem sonhos

que não acabam quando a gente abre os olhos.

Eles ficam.

Esperando a gente voltar.

Ou…

esperando a gente ir 


sábado, 21 de março de 2026

Sábado dos bons no Brasileirão

 Até parece que atenderam às súplicas do torcedor brasileiro. Hoje teremos três jogos do Brasileirão e, acreditem, poderemos assistir a todos na íntegra.  

RB Bragantino x Botafogo, às 17h – abre o sábado. Quem leva a melhor? O Massa Bruta está no meio da tabela, enquanto o Glorioso, afundado na zona de rebaixamento, luta para sair da fase ruim e voltar a vencer.  

Fluminense x Atlético, às 18h30, no Maracanã – de um lado, o Tricolor precisando de reabilitação; do outro, o Atlético querendo embalar de vez no campeonato depois de vencer e tirar a liderança do São Paulo. Promessa de bom jogo.  

São Paulo x Palmeiras, às 21h30, no Morumbi – simplesmente o Derby Paulista que vale a liderança do Brasileirão. Pode ser a melhor partida da rodada. Tem favorito? Diga você, porque eu, simples comentarista, não acredito que haja.  


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sexta-feira, 20 de março de 2026

Duas derrotas em 98

 🇫🇷 A Copa do Mundo de 1998 — entre o brilho e o mistério

Você captou bem o espírito: o Brasil chegou à final, mas nunca passou confiança plena. Era um time forte no papel — com Ronaldo Nazário e Rivaldo decidindo — mas irregular, meio aos trancos e barrancos.

E aquela estreia contra a Scotland national football team já deu o tom: vitória, sim… mas com sofrimento. Depois, o alívio contra Morocco national football team, e a pancada inesperada diante da Norway national football team — ali, como você disse, começou a aparecer algo errado no ambiente.

⚽ Caminho até a final — mais suor do que brilho

A goleada sobre o Chile national football team deu aquela falsa sensação de “agora vai”. Mas logo voltou o aperto:

Dinamarca: jogo duro, decidido no detalhe

Holanda: drama puro… e Cláudio Taffarel virando herói nos pênaltis

Ali, muita gente acreditou: “esse time tem estrela”. Só que…

😶 O enigma Ronaldo

Você tocou

quinta-feira, 19 de março de 2026

94 em outra visão

 

Copa de 1994: Entre o grito e a barba

O grito de Galvão Bueno — “É tetra! É tetra! É tetra!” — ao lado de Pelé, ainda ecoa como um exagero folclórico. Até hoje me pergunto se aquilo foi o pior da Copa de 1994, jogada nos Estados Unidos, ou se foi a frase de Carlos Alberto Parreira, “gol é um mero detalhe”, dita para esculhambar antes de elogiar a conquista de Romário e companhia.

Foi a segunda Copa que vivi em Campos dos Goytacazes, minha morada desde 1986, e a primeira em que não participei das decorações de rua. Nem bandeirinhas, nem fogos. Fiz até uma aposta com minha filha: se o Brasil fosse campeão, eu rasparia a barba que cultivava desde 1970. Não acreditava naquele time. Era bom, sim, mas jogava feio. Parreira era o retrato do que havia de pior no nosso futebol: defensivista, adepto do jogo bruto, com Mauro Silva e Dunga segurando o meio sem criatividade alguma. Bons na marcação, péssimos na saída de bola.

Na Rua Pereira Nunes, a turma acreditava. Ricardo e seus amigos pediam contribuição para fogos e ornamentação. Eu, descrente, prometi pagar a cerveja e dividir a churrascada se o título viesse. Loucura. Antes mesmo das cobranças de pênalti, já tinham comprado um engradado de “gelada da Boa” no bar do Joélcio — na minha conta.

E a barba? Raspei no dia seguinte, na barbearia do Vicente, durante o almoço no Banerj. Cumpri a promessa para Gisele, minha filha, que não gostou nada e exigiu que eu deixasse crescer de novo.

Sobre a conquista, pouco há a acrescentar. Hoje a internet e os canais esportivos já contam tudo em detalhes. Mas lembro bem: a Argentina só não foi campeã porque caçaram Maradona no antidoping. Era meu time favorito. No Brasil, Raí foi a grande decepção; Mazinho, a surpresa positiva. E sim, comemorei. Bastaram dez passos até a Avenida Pelinca para cair no meio da festa que varou a madrugada.

Naquele 1994, havia também quem protestasse. Gente nas ruas pedindo que o governo olhasse para os gastos da CBF e não desviasse dinheiro da saúde e da educação. Parece com os dias de hoje, não é?

O Trem da Valle

  Um trem para Minas Na locomotiva que seguia de Vitória a Governador Valadares, “Seu” Albino, mineiro de 94 anos, falava com a energia de u...