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Falso fantasma

Durante décadas, uma lenda assustou incrédulos e curiosos em Miracema. Muitos juravam ter visto, outros zombavam das histórias contadas pelos atiradores do Tiro de Guerra 217 , que garantiam existir um velho soldado — um atirador morto em serviço, embora ninguém jamais tenha confirmado isso — que voltava para atormentar os rapazes de plantão. Se existem duas histórias sobre o tal fantasma, de uma eu fui testemunha ocular. A outra deu origem a toda essa lenda. A primeira aconteceu no primeiro ano do sargento Lecine no comando da tropa de Miracema. Durante uma noite de guarda, alguns soldados começaram a ouvir passos no salão de reuniões, localizado acima do dormitório e da sala de armas. E não eram apenas passos. Junto com eles vinha o som de um instrumento musical, tocando suavemente, sem parar, como se alguém estivesse ali ensaiando na madrugada. O susto foi geral. Os rapazes saíram às pressas do prédio e se reuniram em frente à prefeitura. No dia seguinte o boato correu pela tropa ...

Tarciso

  Certa vez comentei aqui sobre minhas aventuras de “vendedor” pelas ruas da minha Miracema, pelos parques e circos que chegavam à cidade e, principalmente, nas filas do Cine Sete e do Cine XV, tentando angariar algum dinheiro para os matinês de sábado. Também falei do meu tempo de engraxate, dos amigos que dividiam as calçadas comigo. O tempo passou e, felizmente, tudo deu certo em meu caminho e cá estou hoje, já grandinho e quase um setentão miracemense, falando e escrevendo sobre os personagens e os fatos da nossa terrinha. E hoje faço um abre-alas para um personagem que já caminha para meio século de presença no nosso jardim. Sempre alegre, educado e com um carinho especial pelas crianças que frequentam o parque. Elas puxam os pais pela mão e pedem: — Quero pipoca do seu Tarcísio! E ele, sempre com um belo e largo sorriso, atende a todos contando um causo ou lembrando do pai, do avô ou de algum parente da criança que está à sua frente. Tarcísio conhece a história de muita ...
  Assim que cheguei por aqui, em outubro de 1985, um amigo do banco me disse: — Em Campos, naquele tempo ainda não havia sido agregado o sobrenome “dos Goytacazes”, temos o segundo melhor carnaval do Rio de Janeiro e o melhor do interior fluminense. Claro que discordei. Poderia até ser o maior desfile de agremiações carnavalescas do interior, com blocos, bois — que não são pintadinhos como os nossos — e toda aquela estrutura. Porém… sempre existe um porém. Faltava animação, organização e, principalmente, não havia carnaval de rua como na minha Miracema. O tempo passou e nós dois deixamos de participar das coberturas carnavalescas. Nunca havia horário certo para começar ou terminar os desfiles e nós, radialistas e jornalistas, ficávamos à mercê dos donos dos blocos e da boa vontade das agremiações para entrar na Avenida XV de Novembro. Foram tantos atrasos que me aborreci até chegar o dia do basta. Serginho também decidiu parar. No ano seguinte, ele me procurou e disse: — ...

A Merche do Lúcio

  O Bar Pracinha e o “Merche” Mexido O Bar Pracinha, que conheci na esquina da Rua Francisco Procópio com a Rua Direita, guarda histórias incríveis e personagens inesquecíveis. Ali passaram ricos e pobres, brancos, negros, mulatos e índios. Gente de todo tipo viveu momentos especiais naquele que, no meu ponto de vista, foi o bar mais elegante da cidade. Principalmente no prédio antigo, o da famosa esquina, já comentado em outras crônicas. Havia ali uma atmosfera que lembrava os bares europeus dos anos 1950 — balcão imponente, garçons atentos, conversa alta e aquele ar de importância que só certos lugares conseguem manter. Conheci o Pracinha já na administração dos Irmãos Salim — Jofre, Nacif e José — vindos de Palma, Minas Gerais, para viver seus grandes momentos em Miracema. Com amor, dedicação e espírito inovador, comandaram o estabelecimento numa época em que o município vivia talvez seu melhor momento comercial e industrial. Cada um que frequentou o Pracinha até seu fechamento ...

Cajá e tiro de sal

  Tiro de Sal, Cajá-Manga e Rua Direita Relendo esta crônica, escrita há alguns anos, percebo que já havia ali uma vontade de segurar o tempo pelas mãos. Hoje, com mais estrada percorrida, entendo melhor: não eram apenas lembranças. Era gratidão. Gratidão por ter vivido uma Miracema de portas abertas, quintais generosos e amizades que atravessaram décadas. Andando pelas calçadas de Miracema, olhando os belos casarões da Rua Direita e admirando a beleza do nosso Jardim, encontro dois amigos da velha guarda: Naipe — Luiz Alberto Aguiar — e Jorge Neiva, nosso querido Dodote. Bastou o cumprimento para que um punhado de recordações viesse à tona. Vieram gargalhadas. Vieram lágrimas. Lágrimas de alegria por estarmos vivos… e de tristeza ao perceber como o tempo passou rápido demais, levando tantos amigos queridos do nosso convívio. Minha prima Janete passou, parou, me deu um abraço e um beijo apressado: — Depois a gente se fala com calma, vou ali na Leader ver algo para minha mãe. ...
 Tiro de Sal, Cajá-Manga e Rua Direita Andando pelas calçadas de Miracema, olhando os belos casarões da Rua Direita e admirando a beleza do nosso Jardim, encontro dois amigos da velha guarda: Naipe — Luiz Alberto Aguiar — e Jorge Neiva, nosso querido Dodote. Bastou o cumprimento para que um punhado de recordações viesse à tona. Vieram gargalhadas. Vieram lágrimas. Lágrimas de alegria por estarmos vivos… e de tristeza ao perceber como o tempo passou rápido demais, levando tantos amigos queridos do nosso convívio. Minha prima Janete passou, parou, me deu um abraço e um beijo apressado: — Depois a gente se fala com calma, vou ali na Leader ver algo para minha mãe. Saiu andando e deixou no ar a pergunta: — Quem é a moça? Respondi: — Filha da tia Maria, neta do Seu Pedrinho Soares. Foi o bastante. Naipe abriu aquele sorriso antigo: — Eita! Quantas vezes entramos no quintal do Seu Pedrinho para pegar cajá-manga! E lá em cima, subindo pelo Ribeirão Santo Antônio, tinha o pomar do Seu Lino...

O dilema do aluno

  Músi.,q wcas de Ptarque de Diversões Na noite passada recebi a visita do amigo e vizinho Marco Aurélio Motta. Sentamos para ouvir as músicas dos tempos de “pé de valsa do Grêmio do Nossa Senhora das Graças. Ele, dos salões do Automóvel Clube Fluminense. O repertório era praticamente o mesmo: Beatles, Elvis, Bee Gees, Roberto Carlos, Os Incríveis e tantos outros que embalaram os anos 70. Mas 。,畕 há sempre um porém. Existe um sonho que pousava em Miracema nos anos 60. Tenho no Spotify uma playlist que volta e meia coloco para tocar: “Músicas de Parque de Diversões”. E não é por acaso. Uma das m4./~inhas formas de ganhar dinheiro para o cinema e para as noites na Rua Direita, depois das sessões do Cine XV, era trabalhar nas cabines de música dos parques que armavam seus brinquedos na pracinha em frente ao Colégio Nossa Senhora das Graças, na Avenida Nilo Peçanha. Eu ficava ali, entre discos e alto-falantes, ganhando minhas pratinhas — se não me falha a memória, um cruzeiro por músic...