Cajá e tiro de sal
Tiro de Sal, Cajá-Manga e Rua Direita
Relendo esta crônica, escrita há alguns anos, percebo que já havia ali uma vontade de segurar o tempo pelas mãos. Hoje, com mais estrada percorrida, entendo melhor: não eram apenas lembranças. Era gratidão. Gratidão por ter vivido uma Miracema de portas abertas, quintais generosos e amizades que atravessaram décadas.
Andando pelas calçadas de Miracema, olhando os belos casarões da Rua Direita e admirando a beleza do nosso Jardim, encontro dois amigos da velha guarda: Naipe — Luiz Alberto Aguiar — e Jorge Neiva, nosso querido Dodote.
Bastou o cumprimento para que um punhado de recordações viesse à tona. Vieram gargalhadas. Vieram lágrimas. Lágrimas de alegria por estarmos vivos… e de tristeza ao perceber como o tempo passou rápido demais, levando tantos amigos queridos do nosso convívio.
Minha prima Janete passou, parou, me deu um abraço e um beijo apressado: — Depois a gente se fala com calma, vou ali na Leader ver algo para minha mãe.
Saiu andando e deixou no ar a pergunta: — Quem é a moça?
Respondi: — Filha da tia Maria, neta do Seu Pedrinho Soares.
Foi o bastante.
Naipe abriu aquele sorriso antigo: — Eita! Quantas vezes entramos no quintal do Seu Pedrinho para pegar cajá-manga! E lá em cima, subindo pelo Ribeirão Santo Antônio, tinha o pomar do Seu Lino… bravo que só, dava corrida na turma!
E como não lembrar dessas aventuras à beira-rio?
Dodote então lança a pergunta que mistura dor e riso: — Algum de vocês já tomou tiro de sal na bunda?
Rimos todos. Mostrei a perna — a marca ainda está ali. Muito sangue, muita adrenalina, mas nenhum perigo. Um tiro de sal que incomodou bastante, deixou susto… e hoje rende boas histórias.
Dodote olhou em volta, apontou para uma casa próxima ao Jardim: — Ali morava o Didi Baiano. Um dos caras mais legais e malucos da geração do meu irmão Teteca.
E vieram as descidas a nado, ou nas boias feitas de câmara de ar de caminhão, nos dias de chuva forte, pelo Ribeirão Santo Antônio. Didi era mestre nos mergulhos da ponte do Aero Clube. Quem viveu sabe. E quando conta, sempre aumenta um pouquinho — porque memória também gosta de exagero.
A conversa seguiu firme. Naipe pegou embalo: — Só não aumentam nem inventam quando o assunto é pelada no Miracemense. Ali tinha testemunha demais! Não dá para dizer que jogava bem se não jogava.
Olhou para mim e completou: — Você foi um dos que jogava.
Sorri. Não discuti.
E seguimos trocando figurinhas com o passado. A memória pode até vacilar em detalhes, mas não esquece os rachas nas ruas, as peladas no Rink, os piques-bandeira, as andanças pela Rua Direita depois da sessão das seis no Cine XV.
Lembro bem de uma aposta: desfilar de calção e sem camisa pela rua logo após o fim do filme no XV. Fiz. Vaiado por muitos, aplaudido por poucos. No fim, rir era o melhor negócio.
Hoje, até esses encontros ficaram mais difíceis. A pandemia complicou até o simples ato de prosear na praça. Ainda bem que existe o Zap para manter viva a conversa dos tempos da carochinha — ou melhor, dos nossos tempos de infância e juventude.
E como disse, com orgulho, o desembargador Custódio Tostes:
“Nós, da nossa geração e de outras gerações de Miracema, somos uma família. Nossos pais eram amigos e nós crescemos unidos pelo laço da amizade fraterna. Por isso, até hoje nos respeitamos e nos amamos como verdadeiros irmãos.”
Pois é…
Saudade não tem idade.
Mas temos a certeza de uma coisa:
Fomos felizes.
E sabíamos disso.
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