Pular para o conteúdo principal

Histórias das Copas - 1970

   A COPA DA ORGANIZAÇÃO E DO REGIME MILITAR


MÉXICO 70 – A COPA QUE MORA NA MEMÓRIA

Se a Copa da Inglaterra, em 66, é daquelas que a gente prefere esquecer, a do México, em 70, é para ser guardada com carinho na memória de todos nós — brasileiros e amantes do futebol.

Foi a primeira Copa transmitida ao vivo para o Brasil, pela tevê. Foi também, talvez, a única em que houve organização séria e tempo suficiente para preparar uma equipe forte, técnica e fisicamente impecável. Não por acaso, Brito foi considerado o jogador com melhor preparo físico da competição.

Nos bastidores, a presença firme dos militares do governo Médici. Em campo, jovens talentos também na comissão: Carlos Alberto Parreira, Admildo Chirol e Cláudio Coutinho. Tudo sob o comando de Mário Jorge Lobo Zagallo, que assumiu após a saída de João Saldanha.

Saldanha, comunista declarado, não aceitava interferência na convocação. Uns diziam que caiu por não chamar Dadá Maravilha. Outros, que foi por suas posições políticas. Verdade mesmo é que não cabia naquele momento turbulento do país.

E foi ali que o Brasil parou. Literalmente. Em dias de jogo, ninguém trabalhava, ninguém piscava. Talvez ali tenham nascido os “copeiros” — aqueles que aparecem de quatro em quatro anos — e também as meninas que sabiam tudo de escalação só pra entrar na resenha.

A estreia foi em 3 de junho, no Estádio Jalisco, em Guadalajara, contra a Tchecoslováquia. Levamos um susto com o gol de Petras. Mas foi ali também que começou aquela tradição de agradecer aos céus após o gol. E foi ali que Roberto Rivelino eternizou a sua Patada Atômica.

Nós, já rapazes, na velha Miracema, fazíamos festa como dava. Corneta, caixa, bumbo da Banda Marcial… e a Rua Direita virava carnaval antes do carnaval existir fora de época.

Contra o Peru, já no mata-mata, assistimos em Miraí, terra de Ataulfo Alves. Televisão enorme, imagem ruim, mas o grito de Geraldo José de Almeida cortava o chiado: “Olha lá… olha lá… no placar!”

E, entre um lance e outro, confesso: ninguém pensava só em futebol. As mais belas meninas da cidade estavam ali… e o pós-jogo prometia mais que a partida.

Na final contra a Itália, já estava tudo pronto. O velho jipe do seu Osmar, enfeitado, levava na traseira a Taça Jules Rimet. Bandeiras, confetes, esperança. Ficamos de prontidão: eu, Armando, David, Dodote… só esperando o apito final.

E veio.

O Brasil não apenas venceu. Encantou.

Seis jogos, seis vitórias.

Pelé, Gérson, Jairzinho… nem precisa detalhar. O mundo já viu, reviu e reverencia.

Para muitos — e eu assino embaixo — ali estava a maior seleção de todos os tempos.

A magia, que havia sumido na Inglaterra, ressurgiu no México.

E, para nós, nunca mais foi embora.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O CENTRO HISTÓRICO DE MIRACEMA

O que é um centro histórico de uma cidade? É tudo aquilo que um dia foi história e, certamente, onde tudo começou. Correto. Então o centro histórico de Miracema seria na Praça Dona Ermelinda e seu entorno? Certo? Não. Pelo menos no ponto de vista de algumas pessoas da cidade o Centro Histórico é tão somente a Rua Direita, que anos atrás era o pulmão do município e hoje, infelizmente, o que resta são os poucos casarões que embelezam a atual Rua Marechal Floriano. Em coluna especial, no meio deste ano, sugeri que este nome, Marechal Floriano, fosse retirado e que a Rua Direita se dividisse em quatro partes, cada uma levando o nome de um dos heróis da emancipação, ou seja, “Os Quatro Diabos”. Uns gostaram e outros me criticaram, mas é apenas uma opinião de um miracemense ausente e você pode ter a sua que não contestarei em hipótese alguma. O centro histórico não tem mais os bazares, como a casa Cacheado, os armazéns, como o do Seu Pinheiro, as sorveteiras, como a do Abdo, os bares, como ...

As badaladas da Ave Maria

São várias lembranças que me fazem buscar o computador e escrever, antes de que desapareça de meu pensamento, sobre o cair da noite, ou o cair da tarde na linguagem poética, principalmente de Augusto Calheiros em sua Ave Maria, datada de 1953, e que fez um punhado de senhorinhas, que sentavam à beira da calçada, suspirarem com a passagem do seu possível par romântico nos bailes da vida.  Pode ser também a angústia que me bate nestes períodos, lembrando dos dias solitários no Rio de Janeiro, quando pensava em Miracema e declamava os versos de Fernando Nascimento:  "Quando a lua desce aqui no Rio, eu sinto ânsia, sinto angústia, sinto frio. Quando a Lua nasce cor de prata eu relembro Miracema em serenata." E seria a lembrança de minha mãe, que nesta segunda-feira, 29 de julho, completaria o seu centenário, que não será comemorado em vida, mas a lembrança das velas acesas, para esperar as badaladas, que na verdade eram as seis badaladas da manhã repetidas à noite, e que também s...

AO SOM DE CARTOLA, ELIS E OUTROS

Revendo textos - Esta é de outubro de 2005    Quatro horas da tarde. Lá fora o sol forte, aqui dentro o ar refrigerado ligado no limite e na vitrola o disco de João Gilberto, em volume médio, toca para motivar este velho escriba a falar sobre música e artistas. Ligo para meu amigo Motta, que está na internet –sua nova companheira- e me recuso, no momento, a entrar na grande rede. O telefone toca. Penso em não atender. Marina chama: É prá você. É o Solon. Bingo. Era o que precisava para traduzir certas canções de Cartola. Pensava até em ligar para o Nascimento, lá em Miracema, mas Solon chegou na hora.  Fala aí, amigo velho. – Amigo velho, não. Velho amigo. Fica mais poético e mais saudável. – O que manda? – Acho que preciso de alguém para conversar, estou só e os dedos estão cansados demais para dedilhar nas teclas do computador. – Eu até gostei de sua ligação. Tava pensando em fazer umas colocações sobre a música de Cartola e só mesmo quem viveu estes momentos pode divid...