Sonho de artilheiro


GOL QUE ESPEROU POR MIM

Naquela madrugada,

quando o calor nem deixava o sono descansar direito,

eu viajei.

Não de ônibus,

não de trem,

nem de avião.

Viajei no tempo.

Voltei a ser menino.

Sem barba, sem pressa, sem cansaço.

Só sonho.

E lá estava eu,

em Miracema,

com a camisa do Rink colada ao corpo

e o coração batendo mais forte que qualquer torcida.

O campo não tinha arquibancada,

mas tinha história.

E tinha eles.

Lauro.

Cabeludo.

Braizinho.

Não eram homens.

Eram luz.

Jogavam fácil,

como quem conversa com a bola

e ela entende.

Eu corria.

Tentava acompanhar.

Chegava perto,

errava,

voltava.

Como sempre.

Mas o sonho…

ah, o sonho tem piedade da gente.

E então veio.

Pelo lado direito,

como se o tempo desacelerasse só pra ver melhor.

Braizinho toca.

Cabeludo sorri com a bola nos pés.

Lauro recebe como quem já sabia o final.

E eu…

eu estava lá.

Pela primeira vez,

no lugar certo.

No tempo certo.

A bola veio.

Mansa.

Redonda.

Perfeita.

Como um presente guardado a vida inteira.

Dominei.

O mundo parou.

Não havia moto.

Não havia barulho.

Não havia Belo Horizonte.

Só Miracema.

Só o campo.

Só eu…

e o gol.

Bati.

Sem força.

Sem medo.

Com tudo o que eu fui,

com tudo o que eu sonhei ser.

A bola entrou.

Devagar,

como quem respeita o momento.

Rede balançando.

Silêncio bonito.

Depois… alegria.

Eles vieram.

Lauro me abraçou.

Cabeludo riu daquele jeito solto.

E Braizinho…

Braizinho olhou pra mim

como quem diz:

— Demorou, mas você chegou.

Acordei.

Sem grito.

Sem susto.

Só com um sorriso molhado.

Porque tem sonhos

que não acabam quando a gente abre os olhos.

Eles ficam.

Esperando a gente voltar.

Ou…

esperando a gente ir 


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