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Histórias da Copa - 1958

   A COPA DA ORGANIZAÇÃO E DO REGIME MILITAR


Se a Copa da Inglaterra é passível de esquecimento, por este motivo contamos apenas detalhes de bastidores e pré-copa, a do México, em 70, é para ficar guardada na memória de todos nós, brasileiros e desportistas. Foi a primeira a ser mostrada para o Brasil, via tevê, e a única em que tivemos uma organização séria e com tempo hábil para se preparar uma equipe forte e saudável, tanto que Brito foi considerado o melhor preparo físico da competição. Nos bastidores trabalhavam militares de confiança do Presidente Médici, em campo os jovens capitães Parreira, Carlesso e Coutinho faziam parte da comissão técnica comandada por Antonio do Passo, um cartola carioca acostumado ao poder do futebol. 


Curiosamente o primeiro comandante deste time era um comunista de carteirinha, João Saldanha, que dizem ter sido deposto do cargo por não aceitar interferência em sua convocação, apostavam que ele foi demitido por não ter convocado Dario, o Peito de Aço, na época a grande sensação do Atlético Mineiro. Os historiadores contam que nada disto aconteceu e João Saldanha saiu por não comungar com o regime ditatorial dos militares e por ter idéias comunistas. 


A tevê foi fundamental para que Brasil parasse em dias de jogos da seleção, acredito que tenha sido em 70 o começo da infiltração dos “copeiros”, aqueles que discutem futebol de quatro em quatro anos, e das meninas prodígios, aquelas que decoram tudo sobre a Copa com a intenção de ganhar espaços nas conversas com os namorados. A bola rolou, para o Brasil, em 3 de junho, no estádio Jalisco, em Guadalajara, contra a Tchecoslováquia. Logo aos 12 minutos, o tcheco Petras aproveitou uma indecisão da zaga brasileira e abriu o placar, e foi ali que começou a febre de agradecimento a Deus por uma jogada bem complementada, usada até hoje por Romário, sem se ajoelhar, e por boleiros de todo o planeta bola. O Brasil empataria ainda no primeiro tempo e Rivelino ganharia o apelido que carregou até o final de sua gloriosa carreira, Patada Atômica. 


Nós, já rapazes, lá na Santa Terrinha, tínhamos um time de torcedores aptos para todos os tipos de comemorações. Saíamos pela Rua Direita com cornetas, caixas e bumbos da Banda Marcial do Colégio Miracemense e fazíamos o que hoje chamam de micareta ou coisa parecida. Se eu comentar sobre os lances de Pelé, Gerson ou Jairzinho você vira a página, afinal muito já se falou sobre o assunto e neste período pré-copa é comum às emissoras de tevê mostrarem todos estes belos lances.


No jogo contra o Peru, já na fase de mata-mata, estávamos na cidade de Mirai, terra de Ataufo Alves, na Zona da Mata Mineira. Era um torneio de futebol de salão e nosso time assistiu ao jogo em um ginásio junto a uma enorme torcida, em uma tevê enorme, não me lembro a marca, mas com um sinal fraquinho e que só dava para ouvir os gritos de Geraldo José de Almeida, aquele do olha lá... olha lá.... no placar... Ninguém estava preocupado com a vitória, que acreditávamos ser conseqüência de um melhor futebol, mas com o que viria depois, ali estavam as mais belas meninas da cidade e o carnaval seria um motivo para amassar um pouco os vestidos das gurias. 


Na decisão, contra a Itália, a festa estava toda programada e a ornamentação já estava pronta desde a véspera, quando o velho Jipe do seu Osmar, devidamente paramentado, levava na traseira a Taça Jules Rimet e em toda sua lataria haviam bandeiras, flâmulas e confetes nas cores da bandeira brasileira. Guardamos o Jipe em local estratégico, o Armando, hoje médico conceituado, o David, comerciante de bebidas, Dodote, hoje petroleiro, e um punhado de amigos só esperavam o apito final do árbitro para cair na folia e mostrar para toda a cidade nossa alegria pela conquista do terceiro título mundial.


A magia brasileira, que sumiu na Inglaterra, ressurgiu no México. Com um time repleto de craques e muito bem preparado fisicamente para suportar a altitude e os jogos sob forte calor, o Brasil fez uma campanha perfeita em 70, com seis vitórias em seis partidas. Para muitos analistas, o país conseguiu formar a melhor seleção de todos os tempos.


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