94 em outra visão
Copa de 1994: Entre o grito e a barba
O grito de Galvão Bueno — “É tetra! É tetra! É tetra!” — ao lado de Pelé, ainda ecoa como um exagero folclórico. Até hoje me pergunto se aquilo foi o pior da Copa de 1994, jogada nos Estados Unidos, ou se foi a frase de Carlos Alberto Parreira, “gol é um mero detalhe”, dita para esculhambar antes de elogiar a conquista de Romário e companhia.
Foi a segunda Copa que vivi em Campos dos Goytacazes, minha morada desde 1986, e a primeira em que não participei das decorações de rua. Nem bandeirinhas, nem fogos. Fiz até uma aposta com minha filha: se o Brasil fosse campeão, eu rasparia a barba que cultivava desde 1970. Não acreditava naquele time. Era bom, sim, mas jogava feio. Parreira era o retrato do que havia de pior no nosso futebol: defensivista, adepto do jogo bruto, com Mauro Silva e Dunga segurando o meio sem criatividade alguma. Bons na marcação, péssimos na saída de bola.
Na Rua Pereira Nunes, a turma acreditava. Ricardo e seus amigos pediam contribuição para fogos e ornamentação. Eu, descrente, prometi pagar a cerveja e dividir a churrascada se o título viesse. Loucura. Antes mesmo das cobranças de pênalti, já tinham comprado um engradado de “gelada da Boa” no bar do Joélcio — na minha conta.
E a barba? Raspei no dia seguinte, na barbearia do Vicente, durante o almoço no Banerj. Cumpri a promessa para Gisele, minha filha, que não gostou nada e exigiu que eu deixasse crescer de novo.
Sobre a conquista, pouco há a acrescentar. Hoje a internet e os canais esportivos já contam tudo em detalhes. Mas lembro bem: a Argentina só não foi campeã porque caçaram Maradona no antidoping. Era meu time favorito. No Brasil, Raí foi a grande decepção; Mazinho, a surpresa positiva. E sim, comemorei. Bastaram dez passos até a Avenida Pelinca para cair no meio da festa que varou a madrugada.
Naquele 1994, havia também quem protestasse. Gente nas ruas pedindo que o governo olhasse para os gastos da CBF e não desviasse dinheiro da saúde e da educação. Parece com os dias de hoje, não é?
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