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O JOAQUIM ME FEZ LEMBRAR DE MUITA COISA

Na semana passada, creio que foi na segunda-feira, dia 21/09, li um texto que me comoveu e me deixou emocionado durante algum tempo. Joaquim Ferreira dos Santos escreveu, no Segundo Caderno do O Globo, uma crônica em homenagem a um companheiro seu, falecido recentemente, e passeou pelos anos 60 com maestria e, tenho certeza, foi no fundo da alma de muitos contemporâneos nossos. Ele diz, entre outras preciosidades, que lembrava de um ataque do Flamengo formado por Joel, Moacir, Henrique, Dida e Babá. Veja só vocês, um timaço jogando no 4-2-4, muito usado naquela época, mesmo período em que por aqui jogavam, pelo Rink, Frederico, Emanoel, Braizinho, Silvinho e Lair, um ataque leve, mas com um peso incrível contra as defesas adversárias. Em outro pedaço do texto Joaquim Ferreira dos Santos nos traz de volta a lembrança dos programas da Rádio Nacional, como Anjo e Jerônimo, o herói do sertão, que parava a turma da Praça da Matriz diante do rádio, emprestado pelo meu avô – Vicente Dutra – e...

PAPO COM UM AMIGO DESCONHECIDO

Certo dia, um daqueles em que a gente não quer conversa e a primeira pergunta a gente evita para cortar o interlocutor logo no inicio, sabe como é né, a gente não está com vontade de falar com ninguém e te aparece logo um daqueles prosaicos companheiros, que pensam que irão levantar o seu astral com mensagens de otimismo. Mas eu falava que um certo dia, tem dias que a gente não se sente bem e quer ficar sozinho em um canto qualquer de um apartamento, de uma casa ou até mesmo de um jardim. E foi em um dias destes que me apareceu um desconhecido, para mim é claro, ele deve ser uma figura tradicional aí na Santa Terrinha. "O senhor é o Adilson Dutra?" Perguntou-me com uma voz trêmula, talvez sabendo que eu não estava prá conversa e abaixava a cabeça no jornal, tentando com a leitura esconder-me do resto do mudo. Custei a responder, mas como não tenho hábito de dar fora ou me sentir importante, respondi que sim. - Posso me sentar ao seu lado? – Claro. Fique a vontade. Respondi. –...

DOMINGO DOS PAIS E DE SAUDADE

Na sexta-feira, ao fazer minha caminhada matinal, o vascaíno Antonio Francisco se juntou a mim e abriu a caixa de conversa para reclamar do filho, Francisco Antonio, que trocara o Vasco, seu time desde a infância, pelo Fluminense, no final do Brasileiro do ano passado. - Dutra, eu não agüento mais a cantilena lá em casa, o Chiquinho pensa em voltar a torcer pelo Vasco, já ensaia o retorno vestindo a surrada camisa cruzmaltina nos jogos da Série B, e, de vez em quando o pego xingando Renato Gaúcho e cia ltda. - Bom sinal, Antonio, parece que o rapaz pensou melhor e pretende conquistar novamente o coração do velho pai. - Que nada, ele não agüenta mais é a gozação da turma da faculdade, não tem coragem para vestir a camisa tricolor e fica me pedindo opinião se deve ou não torcer pelo Internacional, time de sua namorada lá da faculdade de direito. - Eu tive este problema em casa, meu caro amigo, mas desde menino o Leandro torcia pelo São Paulo FC e nada tirou de sua cabeça a paixão pelo tr...

Saudades de que? O que é saudade?

Eu tenho saudades dos meus tempos de guri, quando corria leve e solto pelas ruas da cidade sem preocupação alguma. Eram tempos felizes, não que hoje não traga comigo a felicidade, mas era diferente. Tenho saudades de um tornozelo torcido, de um queixo doído devido a uma pancada no chão, de um olho roxo – provocado por soco ou cotovelada no campo ginásio ou no Rink - de um pontapé do Brecó ou do Valdir. Lembro-me quando xingava prá cacete quando mordia a língua ou batia com a cabeça numa quina de mesa. Saudade doída esta, não? Hoje tenho saudades das minhas irmãs, que moram longe de mim, tenho saudades da cachoeira do Conde, desta todos têm saudades, tenho saudades de um filho, que trabalha longe, e da filha, que casou e mudou. Saudade do gosto de uma fruta tirada do pé, roubada nos quintais do Seu Lino ou do Seu Pedrinho Soares, era mais gostosa. Do meu pai, que já se foi, de minha mãe, de meu avô e minha avó, que também acompanharam o velho Zebinho. Tenho até saudades de um amigo que ...

UM DEDO DE PROSA COM O ARIZÃO

Na quarta-feira, logo após o final do jogo contra o Duque de Caxias, derrota com sabor de chocolate amargo, como disse o Leandro Dutra, fiquei um bom tempo observando a reação do torcedor do Goytacaz, que saia do Arizão triste, com o coração sangrando, como se acabasse de perder um ente querido. De repente uma voz, rouca e nervosa, me chama. - Dutra, você que um dia conversou com o estádio lá da sua terra, li isto em um jornal caído aqui nas minhas arquibancadas, não dá para tirar um tempo para levar um dedo de prosa comigo? – Fiquei louco ou minha sina agora é papear com cimento armado? Pensei. Bem, já que os gigantes de cimento estão se comunicando eu me rendi. – Diz aí, Arizão, o que pretende com este velho escriba? - Você, Dutra, é feliz. Viu jogadores maravilhosos em seu estádio, eu também os vi por aqui, em número bem maior, porém, como você gosta de dizer, tem sempre um porém, tenho um compromisso mais sério do que o seu Municipal, também chamado Plínio Bastos de Barros. Aqui a ...

O FUTEBOL COMO HERANÇA

Na última semana recebi uma série de e-mails, de amigos e conterrâneos, que falaram-me com carinho sobre a coluna da última quinzena. Foram palavras carinhosas e, por coincidência meu guru, Ermenegildo Solon, me contou um “causo” interessante, passado em épocas passadas, mas que poderiam ser retratadas nos tempos modernos. Diz a lenda, conta o velho Solon, que um senhor rico, dono de engenhos e fazendas, tinha por hábito comprar terras vizinhas, principalmente as mais prósperas. Dom Camargo era apaixonado por futebol e criou, em sua fazenda, um belo time e trouxe jogadores de todos os cantos da região. Rico, Dom Camargo não fazia questão de gastar o que fosse preciso para realizar seu sonho de infância, que era ter um time só para ele. “O patrãozinho não joga bola, tem deficiência no andar e por isto trouxe quem sabe para jogar em seu time de futebol”, comentava um criado, craque dentro e fora do campo. O tempo passou e todos os escravos foram libertados e aqueles mais chegados a Dom C...

RÁDIO E TEVÊ NO IMAGINÁRIO DO TORCEDOR

Todo brasileiro, apaixonado por futebol e arte, tem na mente uma frase ou um texto do dramaturgo e cronista esportivo Nelson Rodrigues. Tricolor alucinado, criador da célebre frase, “O Fla x Flu começa quarenta minutos antes do nada”, Nelson Rodrigues fez parte da minha infância, ele escrevia suas crônicas no O Globo e no Jornal dos Sports, criação de seu irmão Mário Filho, e talvez tenha tido influencia de seus textos no momento em que me decidi ser um cronista, não com a verve do gênio, mas com uma sutileza sempre encontrada em seus artigos. Nelson Rodrigues pode não está em moda, mas sua opinião sobre o videoteipe, “o videoteipe é burro”, está na crista da onda. Os árbitros brasileiros estão loucos para retornar ao tempo antigo, quando os jogos eram transmitidos apenas pelo rádio e não tinha esta imensidão de câmaras flagrando os erros de “suas senhorias”. É tira-teima prá lá, ângulo invertido prá cá, e um punhado de armas contra a nossa imaginação e contra os senhores de preto. Cer...