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RÁDIO E TEVÊ NO IMAGINÁRIO DO TORCEDOR

Todo brasileiro, apaixonado por futebol e arte, tem na mente uma frase ou um texto do dramaturgo e cronista esportivo Nelson Rodrigues. Tricolor alucinado, criador da célebre frase, “O Fla x Flu começa quarenta minutos antes do nada”, Nelson Rodrigues fez parte da minha infância, ele escrevia suas crônicas no O Globo e no Jornal dos Sports, criação de seu irmão Mário Filho, e talvez tenha tido influencia de seus textos no momento em que me decidi ser um cronista, não com a verve do gênio, mas com uma sutileza sempre encontrada em seus artigos.

Nelson Rodrigues pode não está em moda, mas sua opinião sobre o videoteipe, “o videoteipe é burro”, está na crista da onda. Os árbitros brasileiros estão loucos para retornar ao tempo antigo, quando os jogos eram transmitidos apenas pelo rádio e não tinha esta imensidão de câmaras flagrando os erros de “suas senhorias”. É tira-teima prá lá, ângulo invertido prá cá, e um punhado de armas contra a nossa imaginação e contra os senhores de preto.

Certa vez, conversando com eu avô, ouvi dele que a modernidade atrapalhava nosso imaginário. “Eu gosto de filme mudo, ele me faz prestar atenção na fita e imaginar o que os artistas estão falando”. Tem sentido. Hoje, com o sucesso dos filmes na televisão, tenho a certeza de que o velho Vicente Dutra estava certo, os dubladores de hoje nos tiram o prazer de ver uma boa fita de cinema e os tradutores deturpam boa parte do que é dito pelos personagens.

Assim é no futebol, assim é com o videoteipe. Como muita gente da minha geração, ouvi jogo pelo rádio na infância e na adolescência. Não havia a inflação de transmissões televisivas que existe hoje. O rádio nos trazia um futebol vibrante, dramático e misterioso, feito menos dos fatos reais ocorridos em campo do que do talento expressivo dos locutores.

Autênticos artistas da representação, os narradores criavam seus bordões pitorescos, infundiam ao jogo uma velocidade que ele não tinha, modulavam a voz à perfeição para criar atmosfera do jogo. Jorge Curi, o mais vibrante e inventivo narrador do país, Waldir Amaral, “tem peixe na rede ...” Doalcei Camargo, Clóvis Filho, “no canto é gol”, Osmar Santos, “pimba na gorduchinha”, Haroldo Fernandes, “Tá todo mundo correndo prá abraçar aquele moço”, e Oswaldo Maciel, “de peito aberto e o coração cheio de amor prá dar”, são alguns que trago na memória e que me fizeram apaixonar pelas transmissões esportivas e pelo futebol.

Lembro-me bem dos engasgos dos locutores, que faziam silencio profundo por dois ou três segundos apenas, e naquele pequeno espaço de tempo podíamos ouvir o grito da torcida e os xingamentos dos jogadores, isto quando os microfones dos repórteres de campo estavam abertos. Tudo isto nos remetia ao campo de jogo e nos imaginávamos dentro das quatro linhas a perceber, com a imaginação, tudo o que ocorria no estádio.

“A TV registra a verdade, e a verdade é o seu dom de iludir. O rádio, o rádio não. O rádio inventa a verdade junto com a gente.” Diz Rodrigo Bueno, da Folha de São Paulo, autor de um texto sobre o vídeo tape no futebol, que me fez pensar sobre o assunto. Viva o rádio e abaixo o videoteipe burro.

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