Pular para o conteúdo principal

O JOAQUIM ME FEZ LEMBRAR DE MUITA COISA

Na semana passada, creio que foi na segunda-feira, dia 21/09, li um texto que me comoveu e me deixou emocionado durante algum tempo. Joaquim Ferreira dos Santos escreveu, no Segundo Caderno do O Globo, uma crônica em homenagem a um companheiro seu, falecido recentemente, e passeou pelos anos 60 com maestria e, tenho certeza, foi no fundo da alma de muitos contemporâneos nossos.

Ele diz, entre outras preciosidades, que lembrava de um ataque do Flamengo formado por Joel, Moacir, Henrique, Dida e Babá. Veja só vocês, um timaço jogando no 4-2-4, muito usado naquela época, mesmo período em que por aqui jogavam, pelo Rink, Frederico, Emanoel, Braizinho, Silvinho e Lair, um ataque leve, mas com um peso incrível contra as defesas adversárias.

Em outro pedaço do texto Joaquim Ferreira dos Santos nos traz de volta a lembrança dos programas da Rádio Nacional, como Anjo e Jerônimo, o herói do sertão, que parava a turma da Praça da Matriz diante do rádio, emprestado pelo meu avô – Vicente Dutra – e em volta dele ficávamos eu, Inácio Cirino, Nandinho e outros “moleques” que durante o dia tentavam ser Capitão Marvel ou outro herói dos anos 60.

Mas minhas lagrimas desceram quando o assunto televisão voltou à tona, ele cita Bat Masterson e canta até a sua musiquinha: “No Velho Oeste ele nasceu, e entre bravos se criou, seu nome lenda se tornou, Bat Masterson”. Incrível como vem à tona toda uma vida maravilhosamente aproveitada pelas ruas e calçadas da nossa Miracema, que por demorar a ter uma tevê mais clara ou até mesmo mais barata para que nossos pais pudessem ter este luxo, eram constantes as visitas às janelas dos vizinhos, que gentilmente nos deixavam ver o Repórter Esso, que era antecedido por uma canção entoada, no comercial, por duas gotinhas de gasolina, ainda na memória: "Só Esso dá ao seu carro o máximo”.

E por ai vai o passeio do jornalista carioca, que deve ter nascido e criado na Tijuca, o mais interiorano dos bairros cariocas. Por lá, quando visitava minha tia Durvalina, via televisão bem nítida sem a necessidade de colocar Bom-Bril nas antenas para captar melhor as imagens externas e nem ficar levantando de dois em dois minutos para acertar o quadro horizontal. Foi por lá, aliás, que assistia aos espetáculos da TV Tupi, onde o Falcão Negro enfiava a espada por baixo do sovaco do pirata, quase sempre vivido por Dari Reis, diz o autor do texto, e logo depois se jogava no chão como estivesse mortinho da silva.

Eu me lembro também dos bailes do Aero Clube, as domingueiras, os encontros dos namorados logo após saírem pela Rua Barroso de Carvalho com destino ao Banco de Crédito Real, onde sentados nos degraus trocavam juras de amor e confidencias entre eles. Eu me lembro dos sorvetes do Seu Chico, do picolé do Abdo, dos pasteis do Vicente e as fugas para uma dose, sempre escondida, de Coquinho, nos bares da periferia.

Eu me lembro da Rádio Emissora de Miracema e de seus locutores. Eu me lembro do Zé Hamilton e sua voz maviosa e possante, me lembro do Clóvis Helsink falando de futebol. Eu me lembro do Jorge Ripada e seus serviços de alto falantes na Praça Dona Ermelinda. Eu me lembro do Geraldo Brandão, o Mocinho, do Nicanor dos Santos, que me ensinaram as primeiras lições de falar em público.

Eu me lembro dos programas de esportes da Rádio Continental, do Rio, ao meio dia. Eu me lembro dos comerciais executados antes de entrar no ar a turma do Clóvis Filho, que era da Brahma e dizia: “Quem gosta de cerveja bate o pé reclama, quero Brahma”. Eu me lembro da farmácia do seu Scilio, na esquina de minha casa, onde minha mãe, Dona Lili, comprava Óleo de Fígado de Bacalhau para tentar fazer crescer este seu filho, que era pequenino e magrelo.

Eu me lembro do Tetinho. Eu me lembro do Seu Amaro Leitão e seus filhos maravilhosos, até hoje amigos e irmãos, bem criados pela Dona Tóia. Eu me lembro das noites passadas na sala de Seu Joel e Dona Ricarda, para assistir televizinho, isto no dia em que o Adrian ou a Betinha não me convidavam para ir à casa de seus pais, Seu Eduardo e dona Elmira.

Eu me lembro que tinha orgulho de dizer: “Eu sou de Miracema e por lá habitam as moças mais bonitas do estado e se joga o melhor futebol do interior fluminense”. Eu me lembro... Bem, até uma próxima, seu eu me lembrar de voltar ao assunto.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O CENTRO HISTÓRICO DE MIRACEMA

O que é um centro histórico de uma cidade? É tudo aquilo que um dia foi história e, certamente, onde tudo começou. Correto. Então o centro histórico de Miracema seria na Praça Dona Ermelinda e seu entorno? Certo? Não. Pelo menos no ponto de vista de algumas pessoas da cidade o Centro Histórico é tão somente a Rua Direita, que anos atrás era o pulmão do município e hoje, infelizmente, o que resta são os poucos casarões que embelezam a atual Rua Marechal Floriano. Em coluna especial, no meio deste ano, sugeri que este nome, Marechal Floriano, fosse retirado e que a Rua Direita se dividisse em quatro partes, cada uma levando o nome de um dos heróis da emancipação, ou seja, “Os Quatro Diabos”. Uns gostaram e outros me criticaram, mas é apenas uma opinião de um miracemense ausente e você pode ter a sua que não contestarei em hipótese alguma. O centro histórico não tem mais os bazares, como a casa Cacheado, os armazéns, como o do Seu Pinheiro, as sorveteiras, como a do Abdo, os bares, como ...

As badaladas da Ave Maria

São várias lembranças que me fazem buscar o computador e escrever, antes de que desapareça de meu pensamento, sobre o cair da noite, ou o cair da tarde na linguagem poética, principalmente de Augusto Calheiros em sua Ave Maria, datada de 1953, e que fez um punhado de senhorinhas, que sentavam à beira da calçada, suspirarem com a passagem do seu possível par romântico nos bailes da vida.  Pode ser também a angústia que me bate nestes períodos, lembrando dos dias solitários no Rio de Janeiro, quando pensava em Miracema e declamava os versos de Fernando Nascimento:  "Quando a lua desce aqui no Rio, eu sinto ânsia, sinto angústia, sinto frio. Quando a Lua nasce cor de prata eu relembro Miracema em serenata." E seria a lembrança de minha mãe, que nesta segunda-feira, 29 de julho, completaria o seu centenário, que não será comemorado em vida, mas a lembrança das velas acesas, para esperar as badaladas, que na verdade eram as seis badaladas da manhã repetidas à noite, e que também s...

AO SOM DE CARTOLA, ELIS E OUTROS

Revendo textos - Esta é de outubro de 2005    Quatro horas da tarde. Lá fora o sol forte, aqui dentro o ar refrigerado ligado no limite e na vitrola o disco de João Gilberto, em volume médio, toca para motivar este velho escriba a falar sobre música e artistas. Ligo para meu amigo Motta, que está na internet –sua nova companheira- e me recuso, no momento, a entrar na grande rede. O telefone toca. Penso em não atender. Marina chama: É prá você. É o Solon. Bingo. Era o que precisava para traduzir certas canções de Cartola. Pensava até em ligar para o Nascimento, lá em Miracema, mas Solon chegou na hora.  Fala aí, amigo velho. – Amigo velho, não. Velho amigo. Fica mais poético e mais saudável. – O que manda? – Acho que preciso de alguém para conversar, estou só e os dedos estão cansados demais para dedilhar nas teclas do computador. – Eu até gostei de sua ligação. Tava pensando em fazer umas colocações sobre a música de Cartola e só mesmo quem viveu estes momentos pode divid...