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DOMINGO DOS PAIS E DE SAUDADE

Na sexta-feira, ao fazer minha caminhada matinal, o vascaíno Antonio Francisco se juntou a mim e abriu a caixa de conversa para reclamar do filho, Francisco Antonio, que trocara o Vasco, seu time desde a infância, pelo Fluminense, no final do Brasileiro do ano passado.

- Dutra, eu não agüento mais a cantilena lá em casa, o Chiquinho pensa em voltar a torcer pelo Vasco, já ensaia o retorno vestindo a surrada camisa cruzmaltina nos jogos da Série B, e, de vez em quando o pego xingando Renato Gaúcho e cia ltda.

- Bom sinal, Antonio, parece que o rapaz pensou melhor e pretende conquistar novamente o coração do velho pai.

- Que nada, ele não agüenta mais é a gozação da turma da faculdade, não tem coragem para vestir a camisa tricolor e fica me pedindo opinião se deve ou não torcer pelo Internacional, time de sua namorada lá da faculdade de direito.

- Eu tive este problema em casa, meu caro amigo, mas desde menino o Leandro torcia pelo São Paulo FC e nada tirou de sua cabeça a paixão pelo tricolor. Sabe por quê? O São Paulo conquistava títulos, contratava certo e tinha uma base muito bem montada em um CT no interior paulista de onde saíram Hernanes e Jean, só para dar um exemplo. O Chiquinho, seu filho, deixou o Vasco na ilusão de ganhar a Libertadores e com o rebaixamento do Vasco. Certo?

- Certo, meu caro Dutra. O menino estava de namorico com o Fluminense desde a Libertadores e quando o Vascão desceu ele não teve dúvidas, vestiu a tricolor e traiu toda a família, que tem lastro português e tradição vascaína. Deixa ele, um dia o troco virá.

E por aí o papo desenvolveu e, claro, sempre com o futebol presente e o amor pelos times cariocas. Antonio Francisco quis saber como eu aprendi a gostar do esporte. Fui levado pelo meu pai, Eusébio Dutra, a jogos no Maracanã e hoje, dia dos pais, e de Flamengo e Corinthians, no antigo maior do mundo, me recordo dos bons momentos vividos naquele templo esportivo ao lado do velho Zebinho.

Tenho saudades, meu caro Antonio, e juro prá você que também já tentei trocar de camisa muitas vezes, ontem mesmo me peguei vestindo uma camisa do Palmeiras e, se não fosse a velha paixão, até que ousaria uma troca, pelo menos seria líder do Brasileiro.

Este final de semana, coincidindo com o dia dos pais, está sendo jogado, em Lisboa/Portugal, uma copa que leva o nome do craque Eusébio, um craque de bola, e isto me faz recordar os bons momentos vividos com o meu pai, também Eusébio, como disse antes, no Maracanã.

- Lembra-se daquele jogo em que o Fio Maravilha fez aquele gol que rendeu música do Jorge Bem? Era Flamengo e Benfica, no Maracanã, e eu estava lá, ao lado do meu velho pai, vendo Fio e cia ltda. fazer um belo espetáculo contra o campeão português, mas não me lembro se o Eusébio estava em campo, prometo que vou verificar na internet e depois eu te conto.

- Eu era garoto e não me recordo disto, respondeu o parceiro de caminhada, mas me lembro muito bem da música: “Tabelou, driblou dois zagueiros, deu um toque driblou o goleiro”... Isto foi verdade?

-Claro que foi. Eu vi ao lado do meu pai, Eusébio, mas ainda não tenho certeza se o Eusébio, o craque de Moçambique, estava em campo.

Hoje, Dia dos Pais, que, aliás, deveria ser todos os dias, estou só e ao lado da mulher estaremos curtindo o dia em um restaurante da cidade e depois ficaremos colados na televisão, eu assistindo o futebol e ela, Marina, curtindo seus filmes e séries nos canais por assinatura. Enquanto isto o Leandro, o filho mais novo, estará no Maracanã, a serviço, assistindo Flamengo e Corinthians e o mais velho, Ralph, está em Volta Redonda com a namorada, e a Gisele, a filha, está em alto mar em uma plataforma da Petrobrás. É, seu Zebinho, tenho saudades do tempo em que o senhor me dizia que o Flamengo era o maior do mundo. Um beijo para todos os pais do esporte.

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