Pular para o conteúdo principal

PAPO COM UM AMIGO DESCONHECIDO

Certo dia, um daqueles em que a gente não quer conversa e a primeira pergunta a gente evita para cortar o interlocutor logo no inicio, sabe como é né, a gente não está com vontade de falar com ninguém e te aparece logo um daqueles prosaicos companheiros, que pensam que irão levantar o seu astral com mensagens de otimismo. Mas eu falava que um certo dia, tem dias que a gente não se sente bem e quer ficar sozinho em um canto qualquer de um apartamento, de uma casa ou até mesmo de um jardim. E foi em um dias destes que me apareceu um desconhecido, para mim é claro, ele deve ser uma figura tradicional aí na Santa Terrinha. "O senhor é o Adilson Dutra?" Perguntou-me com uma voz trêmula, talvez sabendo que eu não estava prá conversa e abaixava a cabeça no jornal, tentando com a leitura esconder-me do resto do mudo. Custei a responder, mas como não tenho hábito de dar fora ou me sentir importante, respondi que sim.

- Posso me sentar ao seu lado? – Claro. Fique a vontade. Respondi. – Tenho muitas coisas para perguntar ao senhor. Diz o meu pai, ele foi seu companheiro de futebol, que o senhor andou o mundo e conhece um monte de craques do futebol e já falou até com o Zico. É verdade?

Aquilo me encheu de orgulho e perdi toda aquela vontade de ficar calado. O rapaz, tem no máximo uns vinte anos, me devolveu a confiança e me transportou para momentos maravilhosos, vividos puramente em razão da minha vontade de ser um radialista e ter a coragem de sair da minha cidade em busca de sonho.

- Como é que foi tudo isto, "Seu" Adilson? Voltei um pouco no tempo e abri o livro de registro da memória para tentar passar um pouco daquilo que o jovem queria ouvir. Disse a ele que ao sair daqui, na década de 80, Campos fervilhava e imprensa daqui se destacava em todo o Brasil, principalmente a esportiva, que acompanhava Goytacaz e Americano por todos os cantos deste Brasil. Fui narrando minhas peripécias e minhas aventuras no mundo da bola e o jovem não se contentava, queria saber mais, mais e muito mais.

- Eu quero saber como é que o senhor conversou com Pelé?
- Isto foi obra do José Maria de Aquino, este sim famoso jornalista miracemense, que me levou na Editora Abril para acompanha-lo em uma entrevista e o entrevistado era o Rei Pelé, que muito simpático me ofereceu momentos de rara felicidade.

- Ele é melhor do que o Zico para conversar?

- Falei com o Zico um punhado de vezes. Conversei com Roberto Dinamite, almocei com o Osmar, lembra dele no Botafogo? Falei com o Romário, até tomamos o café da manhã juntos, no Palace Hotel, em Campos, por conta do Célio Silva, que diga-se de passagem foi outro que me ofereceu oportunidades para conhecer todos estes craques que você cita e quer ouvir uma história.

Que prêmio é este que o senhor ganhou. Meu pai diz que até o Maradona estava na festa. É verdade?

- Poxa, seu pai sabe tudo sobre mim. Me diga algo sobre ele. – Agora não, quero ouvir estes causos e suas histórias, meu pai iria gostar de estar aqui, mas esqueça, me conte tudo. Disse o jovem nervoso por eu estar demorando a narrar minha vida para ele.
O tempo era curto, tinha um compromisso com o Almir Amim, o famoso Mizinho, e falei sobre a Bola de Ouro, ganha em 87 por ter apresentado o melhor trabalho de reportagem no rádio interiorano, fui o primeiro fora das capitais a conquistar este troféu, que é a cobiça de todos os jornalistas/radialistas brasileiros. Falei sobre minhas conversas com Rivelino, Marcelinho, Edmundo, Aldair, dos e-mails trocados com Mozer, hoje em Portugal, das caipirinhas bebidas com Sócrates, em um hotel em São Paulo, da discussão com Telê Santana e da antipatia que tenho pelo Júnior. Ele, estupefato, saiu correndo e não me disse o seu nome ou o nome de seu pai. "Gravei tudo, vou escrever para o meu pai e dizer a ele que conheci o meu ídolo".

Sei lá, as vezes a gente até pensa que é um sonho, mas gostaria de ver novamente este rapaz e contar mais detalhes para ele, falar que conheci Jorge Cury, Valdir Amaral, Doalcei Camargo, Fiori Gillioti e que Denis Menezes e Washington Rodrigues, que ele tanto gostaria de conhecer, já sentaram ao meu lado para um dedo de prosa sobre futebol. Tem gente que ainda quer ouvir historinhas e eu adoro conta-las. Um dia vou botar tudo isto em um livro e distribuir para os amigos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O CENTRO HISTÓRICO DE MIRACEMA

O que é um centro histórico de uma cidade? É tudo aquilo que um dia foi história e, certamente, onde tudo começou. Correto. Então o centro histórico de Miracema seria na Praça Dona Ermelinda e seu entorno? Certo? Não. Pelo menos no ponto de vista de algumas pessoas da cidade o Centro Histórico é tão somente a Rua Direita, que anos atrás era o pulmão do município e hoje, infelizmente, o que resta são os poucos casarões que embelezam a atual Rua Marechal Floriano. Em coluna especial, no meio deste ano, sugeri que este nome, Marechal Floriano, fosse retirado e que a Rua Direita se dividisse em quatro partes, cada uma levando o nome de um dos heróis da emancipação, ou seja, “Os Quatro Diabos”. Uns gostaram e outros me criticaram, mas é apenas uma opinião de um miracemense ausente e você pode ter a sua que não contestarei em hipótese alguma. O centro histórico não tem mais os bazares, como a casa Cacheado, os armazéns, como o do Seu Pinheiro, as sorveteiras, como a do Abdo, os bares, como ...

As badaladas da Ave Maria

São várias lembranças que me fazem buscar o computador e escrever, antes de que desapareça de meu pensamento, sobre o cair da noite, ou o cair da tarde na linguagem poética, principalmente de Augusto Calheiros em sua Ave Maria, datada de 1953, e que fez um punhado de senhorinhas, que sentavam à beira da calçada, suspirarem com a passagem do seu possível par romântico nos bailes da vida.  Pode ser também a angústia que me bate nestes períodos, lembrando dos dias solitários no Rio de Janeiro, quando pensava em Miracema e declamava os versos de Fernando Nascimento:  "Quando a lua desce aqui no Rio, eu sinto ânsia, sinto angústia, sinto frio. Quando a Lua nasce cor de prata eu relembro Miracema em serenata." E seria a lembrança de minha mãe, que nesta segunda-feira, 29 de julho, completaria o seu centenário, que não será comemorado em vida, mas a lembrança das velas acesas, para esperar as badaladas, que na verdade eram as seis badaladas da manhã repetidas à noite, e que também s...

AO SOM DE CARTOLA, ELIS E OUTROS

Revendo textos - Esta é de outubro de 2005    Quatro horas da tarde. Lá fora o sol forte, aqui dentro o ar refrigerado ligado no limite e na vitrola o disco de João Gilberto, em volume médio, toca para motivar este velho escriba a falar sobre música e artistas. Ligo para meu amigo Motta, que está na internet –sua nova companheira- e me recuso, no momento, a entrar na grande rede. O telefone toca. Penso em não atender. Marina chama: É prá você. É o Solon. Bingo. Era o que precisava para traduzir certas canções de Cartola. Pensava até em ligar para o Nascimento, lá em Miracema, mas Solon chegou na hora.  Fala aí, amigo velho. – Amigo velho, não. Velho amigo. Fica mais poético e mais saudável. – O que manda? – Acho que preciso de alguém para conversar, estou só e os dedos estão cansados demais para dedilhar nas teclas do computador. – Eu até gostei de sua ligação. Tava pensando em fazer umas colocações sobre a música de Cartola e só mesmo quem viveu estes momentos pode divid...