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Saudade de Dona Bilu

                           DONA BILU, SEEDORF E UM BOTAFOGO CAMPEÃO Baú do Penacho — Crônica de 2013, revisitada em 2026 Estava demorando a ligação de Dona Bilu, minha quase centenária amiga tijucana, botafoguense de quatro costados e, naquele domingo de 2013, campeã carioca com todas as honras e emoções a que tinha direito. O Botafogo havia conquistado o título estadual, mas a senhorinha não dava notícias. Estranhei. Afinal, Dona Bilu jamais perderia a oportunidade de provocar este velho flamenguista, principalmente depois de uma conquista do seu Glorioso de General Severiano. Já passava das onze da noite quando o celular vibrou no canto da cama. Eu estava quase apagado, ainda sofrendo os efeitos da festa em Miracema. Olhei a tela: Dona Bilu. Pronto. Lá se foi o sono! Do outro lado da linha, uma voz rouca, embargada pela emoção e carregada de felicidade anunciava que a festa ainda estava longe de terminar. — Dutra, e...

MINHA TERRA TEM PALMEIRAS... E TEM CADA MÚSICA!

  MINHA TERRA TEM PALMEIRAS... E TEM CADA MÚSICA! Do Baú do Penacho — uma reflexão de 2011 revisitada em 2026 Garimpando meus arquivos, encontrei uma crônica escrita em 2011, quando meu mais novo "amigo de infância", Renato Caveare, enviou-me uma mensagem pelo Twitter, que naquele tempo ainda não havia trocado de nome, com uma observação tão inteligente quanto divertida. Dizia o amigo: "Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. Sorte sua, poeta Gonçalves Dias, porque aqui, hoje em dia, é 'Ai, se eu te pego... Ai, ai...'" Diria o narrador Milton Leite: Que beleza! E que beleza mesmo! Não pela música, mas pela criatividade do meu amigo, que conseguiu reunir, numa única frase, dois mundos separados por quase dois séculos: a poesia de Gonçalves Dias e o fenômeno musical que atendia pelo nome de Michel Teló. Naqueles dias, não havia lugar onde não se ouvisse o famoso "Ai, se eu te pego". Tocava nas rádios, nas festas, nos bares, nas comemorações do...

Costa Amalfitana

  A Costa Amalfitana não é apenas um trajeto; é uma coreografia feita de pedra, precipícios e sal. Diziam, os amigos que por lá estiveram, que subi-la de carro seria o passeio dos sonhos. Mas, como todas as lendas de viagem, a realidade superou qualquer expectativa descrita em fotos de redes sociais. O mérito de nossa jornada coube ao primo Miguel Antinarelle, que nos presenteou com essa imersão mediterrânea, tornando-se o arquiteto de memórias que levaremos pela vida inteira. Ao iniciarmos a rota, logo compreendemos que o título de "estrada mais bonita do mundo" não é um exagero turístico, mas uma constatação geográfica. São 43 quilômetros de pura adrenalina e deslumbramento natural. Entre Salerno e Positano, o asfalto serpenteia a encosta como se tentasse, sem sucesso, seguir uma linha reta. A cada curva, a paisagem se abria em um leque novo de tons de azul e rochas calcárias que parecem mergulhar, orgulhosas, no Tirreno. A logística, na prática, era sabotada pela própria b...

Baú do Penacho - Forminguinhas ensinadas

  O PIANISTA, AS FORMIGUINHAS E OS LADRÕES PESCADORES Baú do Penacho — Causos, fatos, histórias e crônicas Li no G1, depois de ver uma manchete no Twitter, a notícia de um roubo inusitado em Belo Horizonte. A criatividade dos amigos do alheio me fez recordar um diálogo curioso, ocorrido há muitos anos, lá na minha terrinha. Se nas Minas Gerais os gatunos utilizaram varas de pescar improvisadas com bambus, galhos e ganchos, em Miracema, mais precisamente na Praça Ary Parreiras, um amigo tentava me ensinar uma técnica ainda mais sofisticada: domar formiguinhas para retirar dinheiro da caixa registradora do meu avô Vicente Dutra. — Eu tenho umas dez, de vários tamanhos. Coloco uma na ponta de um barbante e a danada entra pelo buraco da registradora, pega uma notinha e pronto! Dá para sair pela rua e, às vezes, até ir ao cinema — garantia o filho do padeiro. Aquilo despertou minha curiosidade. — Mas como é que faço para domar as formiguinhas? — perguntei, já interessado em aprender o t...

Otavinho o Canhão da Casa Nova

  O CANHONAÇO DE OTAVINHO Baú do Penacho — Causos, fatos, histórias e crônicas No último dia da Expo, o frio resolveu dar as caras em Miracema. Saí de casa pela manhã e, ao passar pelo centro, tive uma agradável surpresa: encontrei meu velho amigo Sólon, cuja última passagem pela terrinha havia rendido uma crônica bastante elogiada. Saudosista de carteirinha, profundo conhecedor da cidade e do futebol, Sólon me propôs um passeio pelo Jardim. Trazia uma máquina fotográfica digital novinha em folha e pretendia registrar alguns cantinhos daquele que considera o lugar mais bonito de Miracema. Começamos pelo parquinho, onde reencontramos Jorge Sabiá, pai de nove filhos e avô de quatorze netos. Uma proeza e tanto para quem ainda estava na casa dos cinquenta e poucos anos. Mas fazer o quê? A vida nos ensina a procriar. Só não precisava levar a lição tão a sério, meu caro Sabiá! Sólon parou diante do velho pé de jambo. O mesmo que, cinquenta anos antes, ele e seus companheiros de me...

As águas dos Paraíbas

Compartilho com você este texto reflexivo sobre a fascinante história do Rio Paraíba do Norte e o Rio Paraíba do Sul, abordando como um representa a celebração e o turismo, enquanto o outro simboliza o sustento e a história do nosso país: Dois gigantes, dois xarás, que não se encontram e estão distantes na posição geográfica. Seus segredos nunca foram revelados e ficam no Atlântico, onde deságuam e, como não se encontram no curso físico, quem sabe se encontram nas águas do oceano. O Paraíba do Norte, vivaz e reluzente sobre a terra árida do Planalto da Borborema, carregava consigo o sal da euforia. Ele tinha a vaidade dos poetas e a precisão de um regente de orquestra. Em seu estuário, lá onde o encontro com o mar em Cabedelo forma um delta que parece ter sido esculpido pelo pincel de um artista barroco, ele dançava conforme a música. "Sente este ritmo?", soprava o do Norte para o seu irmão, durante um sonho compartilhado das águas. "Cada gota que vazo é uma nota de um s...

Baú do Penacho - Futsal do Rink

 O RINK, A BOLA PESADA E OS CRAQUES DA NOSSA JUVENTUDE         Causos, fatos, histórias e crônicas De vez em quando, alguém me pergunta sobre os campeonatos de futebol de salão disputados no Rink, lá no Jardim de Miracema, durante as décadas de 60 e 70. E, quando isso acontece, a primeira imagem que me vem à cabeça não é propriamente a bola rolando. É a multidão! Gente por todos os lados, espremida ao redor da quadra, sentada nas muretas, pendurada nos muros, procurando um cantinho para acompanhar aqueles jogos que transformavam as noites de Miracema em verdadeiras festas esportivas. Eu era um garoto que circulava por ali, entre os amigos, as brincadeiras e os sonhos de um dia entrar naquela quadra e fazer sucesso. Queria ser craque! Quem sabe defender como Zé Bolão, o melhor goleiro da terrinha? Ou ter a pontaria de Miguel, dono de um chute certeiro que metia medo em qualquer adversário? Havia também Otavinho, cujo chute talvez fosse ainda mais forte, embora ne...