O PIANISTA, AS FORMIGUINHAS E OS LADRÕES PESCADORES
Baú do Penacho — Causos, fatos, histórias e crônicas
Li no G1, depois de ver uma manchete no Twitter, a notícia de um roubo inusitado em Belo Horizonte. A criatividade dos amigos do alheio me fez recordar um diálogo curioso, ocorrido há muitos anos, lá na minha terrinha.
Se nas Minas Gerais os gatunos utilizaram varas de pescar improvisadas com bambus, galhos e ganchos, em Miracema, mais precisamente na Praça Ary Parreiras, um amigo tentava me ensinar uma técnica ainda mais sofisticada: domar formiguinhas para retirar dinheiro da caixa registradora do meu avô Vicente Dutra.
— Eu tenho umas dez, de vários tamanhos. Coloco uma na ponta de um barbante e a danada entra pelo buraco da registradora, pega uma notinha e pronto! Dá para sair pela rua e, às vezes, até ir ao cinema — garantia o filho do padeiro.
Aquilo despertou minha curiosidade.
— Mas como é que faço para domar as formiguinhas? — perguntei, já interessado em aprender o truque.
O professor explicou, com a segurança de quem dominava o assunto:
— É fácil. Só não pode prender muito, senão elas morrem. Deixe a formiga livre e coloque na direção da gaveta onde ficam as notas de maior valor. Se ela, principalmente a cabeçuda, pegar a nota e travar, é só puxar o barbante. A nota vem e você faz a festa!
Juro que tentei. Mas não consegui domar as formiguinhas. E, para dizer a verdade, também não tive coragem de catar uma grana do meu avô.
Afinal, eu tinha tudo com ele. Não seria por uma ou duas notinhas de cruzeiros que colocaria em risco meu prestígio junto ao velho Vicente.
Voltemos a Belo Horizonte.
Por lá, segundo a notícia, a turma deitou e rolou. Os rapazes do alheio conseguiram pescar um notebook que estava sobre a mesa de um professor. Não satisfeitos com a pescaria, desceram até a sala da direção, arrombaram a porta e fizeram a limpa nos computadores, posteriormente vendidos a um receptador da capital mineira.
Mas a história das registradoras ainda me reserva outra lembrança.
Conheci, certa vez, um garçom de um bar na Tijuca, no Rio de Janeiro, de quem fiquei amigo. A amizade terminou quando o rapaz foi surpreendido em flagrante pelo dono do estabelecimento, um português doce e boa gente, enquanto tentava fazer uma retirada não autorizada da caixa registradora.
O bar ficava nas proximidades da fábrica da Brahma.
Naquele dia, percebi um movimento diferente e, curioso como sempre, entrei perguntando a Joaquim, filho do português, o que havia acontecido.
Antes que ele respondesse, ouvi um grito vindo dos fundos:
— Foi tudo um engano! Foi tudo um engano!
Era o meu agora ex-amigo, tentando explicar o inexplicável.
Joaquim não deixou barato:
— Engano nada! Sabe o que aconteceu? Meu pai pegou o sujeito batendo nas teclas da registradora e tentando pegar dinheiro na mão grande!
O acusado, porém, tinha uma explicação pronta. E que explicação!
— É mentira! Eu estava aprendendo a tocar piano! Minha irmã disse que os botões da registradora do seu Arthur são iguais aos do piano que ela toca na escola!
Pronto. Estava inventado o pianista da caixa registradora.
E não é que a história acabou ganhando vida própria?
Lá na terrinha, quando o filho de algum dono de bar, restaurante ou padaria se aproximava da caixa registradora, sempre aparecia um engraçadinho para perguntar:
— E aí, vai tocar piano?
Moral da história?
Uns pescavam computadores. Outros tentavam ensinar formigas a carregar dinheiro. E havia quem confundisse caixa registradora com instrumento musical.
Eu, felizmente, não aprendi a domar formigas nem a tocar piano.
Mas aprendi que, para tirar dinheiro de uma caixa registradora, a imaginação de certos artistas não tem limites.

Comentários