A Costa Amalfitana não é apenas um trajeto; é uma coreografia feita de pedra, precipícios e sal. Diziam, os amigos que por lá estiveram, que subi-la de carro seria o passeio dos sonhos. Mas, como todas as lendas de viagem, a realidade superou qualquer expectativa descrita em fotos de redes sociais. O mérito de nossa jornada coube ao primo Miguel Antinarelle, que nos presenteou com essa imersão mediterrânea, tornando-se o arquiteto de memórias que levaremos pela vida inteira.
Ao iniciarmos a rota, logo compreendemos que o título de "estrada mais bonita do mundo" não é um exagero turístico, mas uma constatação geográfica. São 43 quilômetros de pura adrenalina e deslumbramento natural. Entre Salerno e Positano, o asfalto serpenteia a encosta como se tentasse, sem sucesso, seguir uma linha reta. A cada curva, a paisagem se abria em um leque novo de tons de azul e rochas calcárias que parecem mergulhar, orgulhosas, no Tirreno.
A logística, na prática, era sabotada pela própria beleza. É impossível ser eficiente nesta estrada. Parávamos a cada meia hora. O freio do carro, guiado por Miguel com uma paciência de quem entende o tempo do lugar, tornava-se o nosso botão de "pausa" para a realidade. Lá do alto, observávamos o formigueiro colorido dos turistas — que ali chegam aos borbotões — tornando-se pequenas peças de um cenário onde a grandiosidade da natureza humilha qualquer esforço arquitetônico humano.
A primeira parada definitiva foi Amalfi. A cidade, que um dia partilhou o domínio dos mares como um dos quatro pilares das poderosas repúblicas marítimas ao lado de Pisa, Gênova e Veneza, conserva a dignidade dos que foram soberanos. Hoje, o poder é outro: a autoridade absoluta do seu charme. Sentamos em um daqueles cafés centrais, onde o tempo parece condensar-se no aroma de um espresso, e observamos o vaivém do calçadão, com as montanhas íngremes protegendo a cidade como uma fortaleza natural.
Mas é Positano quem, sem pedir licença, rouba o fôlego final. Ao estacionar, fomos recepcionados pelo Mediterrâneo, um espetáculo de águas tão cristalinas e azuis que parecem projetadas por algum filtro sobrenatural. Positano não se visita; se experimenta, sentindo o sol bater nas faces e a brisa salgada lavar as preocupações deixadas no continente.
Contudo, há que se ter estômago para tanta beleza. A rodovia é o cenário de um balé arriscado. A via é estreita, um abraço apertado entre a montanha e o abismo. Os nativos, verdadeiros "pilotos acrobatas" em seus carros compactos, cortam as curvas com uma naturalidade que, para um forasteiro, parece loucura. E os motociclistas? Ah, esses tratam a Costa Amalfitana como o seu autódromo pessoal, zunindo pelas descidas europeias com a destreza e a audácia de quem conhece cada centímetro de asfalto por instinto.
Não curtimos cada metro com a exaustão dos locais, mas o que Miguel nos proporcionou foi a essência pura. Foi suficiente para selar a verdade absoluta dos cronistas e dos sites especializados: se você se autointitula um amante de viagens, este roteiro não é uma opção; é um item obrigatório em qualquer checklist da existência.
A Costa Amalfitana é uma cicatriz dourada na face da Itália, um caminho que não te leva apenas de Salerno a Positano, mas para um lugar onde a própria geografia decide te lembrar que a vida, quando vista de um precipício sobre o mar azul, é, antes de tudo, um privilégio.
Ainda falta a jornada até Pompéia, capítulo que guardarei para uma próxima narrativa, fechando este ciclo memorável do nosso giro de março de 2018.



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