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Baú do Penacho - Futsal do Rink da



 O RINK, A BOLA PESADA E OS CRAQUES DA NOSSA JUVENTUDE

        Causos, fatos, histórias e crônicas

De vez em quando, alguém me pergunta sobre os campeonatos de futebol de salão disputados no Rink, lá no Jardim de Miracema, durante as décadas de 60 e 70.

E, quando isso acontece, a primeira imagem que me vem à cabeça não é propriamente a bola rolando. É a multidão!

Gente por todos os lados, espremida ao redor da quadra, sentada nas muretas, pendurada nos muros, procurando um cantinho para acompanhar aqueles jogos que transformavam as noites de Miracema em verdadeiras festas esportivas.

Eu era um garoto que circulava por ali, entre os amigos, as brincadeiras e os sonhos de um dia entrar naquela quadra e fazer sucesso.

Queria ser craque!

Quem sabe defender como Zé Bolão, o melhor goleiro da terrinha? Ou ter a pontaria de Miguel, dono de um chute certeiro que metia medo em qualquer adversário? Havia também Otavinho, cujo chute talvez fosse ainda mais forte, embora nem sempre encontrasse o endereço do gol.

E tinha Paulinho Leitão.

Ah, o Paulinho! Um daqueles jogadores que pareciam conversar com a bola. Dominava, conduzia e distribuía o jogo com uma categoria que fazia a gente esquecer até de piscar.

Nas noites de campeonato, principalmente durante as férias, eu me acomodava na mureta para acompanhar o Palmeiras, um dos grandes times daquele tempo.

Não me perguntem quem organizava os torneios. A memória, essa danada, às vezes resolve esconder justamente aquilo que a gente procura.

Mas a escalação do Palmeiras ainda consigo recitar.

Zé Bolão no gol, Scilio Filho como beque fixo, daqueles que guardavam posição como sentinela, Faustino Barbi e Paulinho pelas alas e Valzenir na frente, revezando-se com outros bons jogadores, como Tonzoca e Careca.

Era um time de respeito!

E eu, do lado de fora, sonhando com o dia em que também seria aplaudido naquela quadra.

O tempo passou, o menino cresceu e finalmente apareceu a oportunidade de jogar em uma equipe de primeira linha.

Só havia um pequeno problema: não tinha lugar para mim na linha!

Os companheiros eram bons demais e, como faltava goleiro, resolveram que eu serviria perfeitamente para a função.

Naquele tempo, aliás, não era qualquer um que aceitava ficar debaixo das traves.

A bola era pesada, os chutes eram verdadeiros petardos e alguns atacantes pareciam ter sido treinados para derrubar paredes.

Miguel, por exemplo, era um perigo público quando armava a perna.

Lucho do Jeová, bom goleiro, tinha verdadeiro pavor daqueles disparos e criou um bordão que ficou famoso:

— Marque o Miguel! Não deixa o Miguel chutar!

Não sei se a recomendação funcionava, mas certamente demonstrava que Lucho conhecia muito bem o tamanho do problema.

E assim fui parar no gol do Gemini V, um dos melhores times do final dos anos 60.

Na linha estavam David Resende, Júlio Barros, Thiara Botelho e Gilson Coimbra.

E no gol?

Este escriba!

O pior é que não tínhamos reserva. Resultado: eu passava o jogo inteiro defendendo, enquanto os companheiros se divertiam fazendo gols.

E eu querendo fazer pelo menos um golzinho!

Mas quem disse que me davam oportunidade?

Fui goleiro por necessidade dos outros e atacante apenas nos meus sonhos.

Mais tarde, com a Rádio Princesinha no ar e nossa equipe esportiva precisando de competições para transmitir, surgiu a oportunidade de participar também da organização de campeonatos.

O velho Rink já havia sido transformado em ginásio de esportes, uma estrutura que, na minha opinião, jamais deveria ter desaparecido.

Organizamos dois campeonatos entre empresas, ambos com excelente público e futebol de salão de bom nível.

A cidade voltou a viver noites de entusiasmo, com grandes jogadores desfilando talento, raça e aquela vontade de vencer que fazia qualquer partida parecer decisão de campeonato mundial.

Lembro também de outro torneio importante, realizado no Clube XV.

A Volkswagen, comandada pelo Cacá do Suíço, levantou a taça. Mas, para chegar lá, precisou reforçar o elenco com uma garotada boa de bola.

Na decisão, derrotou os veteranos da Maçonaria, que, apesar da experiência, não conseguiram segurar o ímpeto dos mais jovens.

E como esquecer o Banerj?

Tive a felicidade de vestir a camisa de uma das melhores equipes de futebol de salão de Miracema.

Genésio Nunes defendia o gol; Jorge e Alvinho formavam a defesa; Jorginho e Sidney comandavam o ataque.

Eu participava do revezamento com João Moreno, Marcinho, Venilton Moreira e Marco Aurélio.

Era um belo time, daqueles que a gente ainda consegue reunir na memória, mesmo quando a vida já espalhou seus jogadores por outros caminhos.

E pensar que tudo começou com aquele menino sentado na mureta do Rink!

Mas o futebol de salão não vivia apenas dos grandes campeonatos.

As escolas também tinham suas rivalidades.

O Miracemense e o Nossa Senhora das Graças se enfrentavam frequentemente, em torneios internos e competições que movimentavam estudantes, professores e torcidas.

Ganhei um desses torneios quando cursava o primeiro ano ginasial e disputei uma final já no terceiro ano.

Naquele tempo, o esporte fazia parte da vida estudantil.

Os grêmios Alberto de Oliveira e Rui Barbosa, nossos conhecidos GEAO e GLERB, ajudavam a movimentar uma juventude que tinha na escola muito mais que um lugar para assistir às aulas.

Era onde nasciam amizades, rivalidades saudáveis, sonhos e histórias que atravessariam décadas.

Hoje, confesso, não sei dizer com certeza como anda o futebol de salão, agora chamado futsal, em Miracema.

Não vejo mais aquelas peladas no Rink, não acompanho campeonatos com a mesma movimentação de antigamente e não sei se a garotada das escolas ainda vive aquelas disputas que faziam parte da nossa formação.

Talvez existam iniciativas que desconheço. Tomara que sim!

Porque uma cidade que cultiva o esporte também cultiva a convivência, a amizade e o sentimento de pertencer a algum lugar.

E é impossível falar daqueles tempos sem lembrar dos homens que ajudaram a construir essa história.

Maninho, Gerson Coimbra, Jair Polaca, Clarindo Chiapini e tantos outros desportistas abnegados, apaixonados pelo futebol e por Miracema.

Gente que não precisava de grandes patrocinadores, contratos milionários ou holofotes para fazer o esporte acontecer.

Bastavam uma bola, uma quadra, alguns amigos e muita disposição.

Há quem diga que não se deve viver do passado.

Concordo em parte.

Não podemos morar nele, mas seria uma tremenda injustiça fechar suas portas e jogar fora a chave.

Porque foi naquele passado que aprendemos a competir, a perder, a vencer, a respeitar adversários e, sobretudo, a fazer amigos.

E amigos, meus caros, são troféus que não enferrujam.

Por isso, deixo um desafio aos que acreditam que o presente é sempre melhor que o passado:

Vivam intensamente o futebol de hoje, organizem seus campeonatos, criem suas histórias e guardem os nomes de seus personagens.

Daqui a vinte ou trinta anos, procurem alguém para contar tudo isso.

Será que terão tantas aventuras para recordar?

Não sei.

Só sei que, no meu tempo, o Rink não tinha arquibancadas suficientes para tanta gente. Mas tinha espaço de sobra para os nossos sonhos.

Adilson Dutra — O Penacho

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