Pular para o conteúdo principal

O falso fantasma

Em Miracema, o Tiro de Guerra 217 era um prédio antigo e cansado. O ar pesava ali dentro. Havia sempre conversas sobre um velho soldado, um atirador que morrera em serviço e que agora, diziam, rondava os corredores durante as vigílias. Alguns juravam por Deus tê-lo visto. Outros riam e chamavam os outros de covardes. Eu ouvia tudo e ficava quieto. A gente nunca sabe a verdade até que ela se apresenta.

A primeira história começou quando o sargento Lecine assumiu. Foi num ano em que o inverno foi frio e a solidão parecia sentar-se junto às paredes. De madrugada, passos começaram a ecoar no salão de reuniões, bem acima de onde os soldados tentavam dormir. Então veio o som. Era música. Uma melodia suave que teimava em flutuar na penumbra. Os rapazes saltaram dos beliches. Saíram correndo e pararam em frente à prefeitura, o coração batendo descompassado. Quando a luz do dia veio, o medo havia se transformado em lenda.

A segunda história foi a minha. Foi numa noite de tempestade. O vento uivava como um bicho ferido lá fora. Era o tipo de noite em que você não confia nas sombras. À meia-noite, o som aconteceu. Foi um baque seco, seguido por um ruído de metal contra o chão que fez o prédio todo vibrar. Era como se a morte tivesse chutado a porta do alojamento.

Nós corremos. Eu, cabo de plantão, e quatro soldados. Não paramos até alcançar a proteção da gruta da Igreja de Santo Antônio. Estávamos molhados e trêmulos, sentindo a adrenalina descer pelos braços.

Dias depois, a luz do sol esclareceu tudo.

No caso do sargento Lecine, não era um fantasma. Era apenas o pai dele, um homem honesto, músico da Orquestra da Globo, que viera visitar o filho. Acordou na madrugada, encontrou o silêncio, e foi para o salão ensaiar. O medo dos soldados tinha pernas, olhos e um instrumento na mão.

No meu caso, a física foi mais direta. A madeira que segurava os fuzis era velha, podre de cupim e tempo. A tempestade trouxe uma rajada forte. A estrutura cedeu. O ferro caiu sobre o chão de cimento e o som pareceu o apocalipse para quem estava lá.

A lenda morreu. Mas ela não desapareceu, apenas mudou de forma. Agora ela existe como história. Quando os antigos atiradores se encontram em Miracema, bebem, fumam e riem até as lágrimas caírem. Lendas são assim. Elas precisam de um pouco de vento, um pouco de escuridão e, acima de tudo, homens dispostos a ter medo. É uma boa vida para quem sabe rir da própria covardia.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O CENTRO HISTÓRICO DE MIRACEMA

O que é um centro histórico de uma cidade? É tudo aquilo que um dia foi história e, certamente, onde tudo começou. Correto. Então o centro histórico de Miracema seria na Praça Dona Ermelinda e seu entorno? Certo? Não. Pelo menos no ponto de vista de algumas pessoas da cidade o Centro Histórico é tão somente a Rua Direita, que anos atrás era o pulmão do município e hoje, infelizmente, o que resta são os poucos casarões que embelezam a atual Rua Marechal Floriano. Em coluna especial, no meio deste ano, sugeri que este nome, Marechal Floriano, fosse retirado e que a Rua Direita se dividisse em quatro partes, cada uma levando o nome de um dos heróis da emancipação, ou seja, “Os Quatro Diabos”. Uns gostaram e outros me criticaram, mas é apenas uma opinião de um miracemense ausente e você pode ter a sua que não contestarei em hipótese alguma. O centro histórico não tem mais os bazares, como a casa Cacheado, os armazéns, como o do Seu Pinheiro, as sorveteiras, como a do Abdo, os bares, como ...

As badaladas da Ave Maria

São várias lembranças que me fazem buscar o computador e escrever, antes de que desapareça de meu pensamento, sobre o cair da noite, ou o cair da tarde na linguagem poética, principalmente de Augusto Calheiros em sua Ave Maria, datada de 1953, e que fez um punhado de senhorinhas, que sentavam à beira da calçada, suspirarem com a passagem do seu possível par romântico nos bailes da vida.  Pode ser também a angústia que me bate nestes períodos, lembrando dos dias solitários no Rio de Janeiro, quando pensava em Miracema e declamava os versos de Fernando Nascimento:  "Quando a lua desce aqui no Rio, eu sinto ânsia, sinto angústia, sinto frio. Quando a Lua nasce cor de prata eu relembro Miracema em serenata." E seria a lembrança de minha mãe, que nesta segunda-feira, 29 de julho, completaria o seu centenário, que não será comemorado em vida, mas a lembrança das velas acesas, para esperar as badaladas, que na verdade eram as seis badaladas da manhã repetidas à noite, e que também s...

AO SOM DE CARTOLA, ELIS E OUTROS

Revendo textos - Esta é de outubro de 2005    Quatro horas da tarde. Lá fora o sol forte, aqui dentro o ar refrigerado ligado no limite e na vitrola o disco de João Gilberto, em volume médio, toca para motivar este velho escriba a falar sobre música e artistas. Ligo para meu amigo Motta, que está na internet –sua nova companheira- e me recuso, no momento, a entrar na grande rede. O telefone toca. Penso em não atender. Marina chama: É prá você. É o Solon. Bingo. Era o que precisava para traduzir certas canções de Cartola. Pensava até em ligar para o Nascimento, lá em Miracema, mas Solon chegou na hora.  Fala aí, amigo velho. – Amigo velho, não. Velho amigo. Fica mais poético e mais saudável. – O que manda? – Acho que preciso de alguém para conversar, estou só e os dedos estão cansados demais para dedilhar nas teclas do computador. – Eu até gostei de sua ligação. Tava pensando em fazer umas colocações sobre a música de Cartola e só mesmo quem viveu estes momentos pode divid...