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Lençóis Maranhenses

 

O Deserto de Águas

​Há lugares no mundo que parecem existir apenas no intervalo entre o sonho e a matéria. Os Lençóis Maranhenses pertencem a esse território suspenso. Dizer que é um deserto é cometer uma injustiça geográfica; dizer que é um mar de dunas é simplificar a poesia do vento. Os Lençóis são, acima de tudo, uma escultura viva feita de tempo, areia e chuva.

​Chega-se lá com o corpo ainda pesado das pressas da cidade. Mas a caminhada inicial sobre a areia alva impõe outro ritmo. A cada passo, os pés afundam numa maciez morna, como se a terra nos pedisse para desacelerar, para despir os sapatos e as certezas. Olhando em redor, a imensidão branca parece infinita, desenhada em curvas suaves que o vento Nordeste refaz pacientemente todas as tardes. Nada ali é definitivo. A duna de hoje não será a mesma amanhã; o caminho percorrido ao amanhecer já se apagou ao pôr do sol.

​E então, surge o milagre.

​Ao subir a crista de um morro de areia, o horizonte não entrega o vazio estéril que se esperaria de um deserto, mas sim uma miragem verdadeira: uma lagoa de águas cristalinas, num tom entre o verde-esmeralda e o azul-turquesa, aninhada no vale das dunas. É a chuva acumulada durante os meses de inverno que recusa evaporar-se sem antes criar um oásis.

​Mergulhar numa dessas lagoas — seja a Lagoa Azul, a Bonita ou uma sem nome que o vento acabou de inventar — é uma experiência quase baptismal. A água é morna, serena, parada. O contraste entre o calor da areia sob o sol e o abraço fresco da água cria um hiato de silêncio na mente. Boiando ali, com o céu imenso por cima e os contornos brancos em redor, tem-se a ilusão perfeita de estar no centro do mundo.

​Há um mistério na existência destas águas. Elas vêm, acolhem a vida — pequenos peixes que renascem com a abundância da chuva — e depois, devagar, vão-se embora com a seca. Não há apego nos Lençóis. A paisagem ensina-nos sobre a beleza do efémero. Tudo passa, mas a passagem é tão monumental que não deixa espaço para a melancolia.

​Quando o sol começa a descer, a areia ganha tons dourados e acobreados. O vento sopra mais forte, levando grãos finos que sussurram rente ao chão. Olhar o pôr do sol do alto de uma duna nos Lençóis Maranhenses é testemunhar um espetáculo em que o tempo parece parar, mesmo sabendo que tudo se move.

​Regressa-se com a areia nos bolsos e a água na memória. E com uma certeza serena: a de que a natureza, quando quer sonhar, transforma o deserto em oceano.

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