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Se oriente, rapaz e aquele abraço

Agora olhe pro céu. Agora olhe pro chão. Agora repare a luz, que vem lá do caminhão. Esta estrofe, de um verso de Gilberto Gil, me leva de volta aos meus tempos de criança, quando lá na “terrinha” eu visualizava o caminhão do “tio” Ubaldo, que encostava na calçada do bar do Vicente Dutra para descarregar o leite e deixar o povo que vinha prá missa de domingo. Depois virei um vira mundo virado, nas rondas da maravilha mas cortando a faca e a facão os destinos da vida. E seguindo as lembranças, vinda das canções de Gil, vejo que ele também se lembra de um “domingo no parque”. Só que o parque dele é diferente do meu, do seu e qualquer um que viveu lá na nossa Miracema. O parque de Gil tinha João e José, dois brigões, no nosso, lá da “terrinha” tinha o seu Ademar, figura doce que transmitia paz para todas as crianças. Mas cá prá nós, que ninguém nos ouça, outros parques, aqueles montados em espaços cedidos pela prefeitura, com roda gigante, sombrinha e balanço veneziano, também nos dava me...

ENCONTRO CASUAL COM UM BOLEIRO

Não sou empresário de futebol, mas os anos vividos como repórter e a imagem que deixei entre os companheiros e seguidores, me fizeram ser uma referencia para pais, tios, amigos ou até mesmo mães de jovens atletas que sonham ganhar espaço nas bases dos clubes de Campos e região. No domingo, logo após a caminhada pelo Jardim São Benedito, um rapaz corria enquanto eu caminhava calmamente ouvindo minhas músicas favoritas, mas o olhar dele, quando cruzava comigo, era de expectativa e de quem precisa conversar ou desabafar. Lá pela terceira volta o rapaz me parou e perguntou: - O senhor é o Adilson Dutra? - Sim, sou eu, o que se passa? Respondi. - Cara, o senhor é importante demais prá mim e para minha família, tá ligado? Eu não estava ligado, não sabia o motivo de tanta importância prá família do jovem corredor e nem mesmo entendia o porque de tanta alegria no abraço que me deu após confirmar que eu era eu mesmo, olha o Nelson da Capitinga fazendo escola! - O senhor me levou ao Americano, ...

MINHA QUERIDA LUNA

Quando Gisele ligou, dizendo que estava saindo para o hospital e que estava tudo correndo dentro do planejado, senti aquele frio na barriga e pensei com meus botões: Finalmente o sonho vira realidade e no momento é torcer para que Luna chegue com a paz e a proteção dos anjos, afinal a menina é um daqueles anjos protegidos pelo Senhor. Confesso que não tive coragem de ir até a maternidade, o episódio com David, o sobrinho neto que chegou para Thais ainda estava vivo na lembrança e juro que medrei por alguns momentos. Fiquei no bar ao lado de amigos esperando a ligação de Marina com a ótima notícia. Enfim, por volta das 21h, chegou Luna e, felizmente, dentro da normalidade esperada e Gisele foi feliz na cirurgia realizada para a chegada de sua primeira filha e minha primeira neta. Adalberto, o genro, filmou, fotografou e vibrou intensamente e não escondeu a emoção de pegar a pequena Luna nos braços e exibi-la como um troféu. Só doze horas depois do parto, fui ver de perto o motivo de tan...

A HISTÓRIA DO MEU AMIGO ZEZÉ

Zezé é daqueles amigos de infância que jamais esquecerei. Temos a mesma idade e naqueles longínquos anos 50 fizemos de tudo para ganhar uns trocados para as sessões de sábado dos Cine Sete e Cine XV. Engraxávamos os sapatos de nossos clientes, na calçada do bar do Vicente Dutra, vendíamos salgadinhos da Vó Maria nas cercanias, coisa que irritava meu avô e meu pai, que diziam tirar a freguesia deles, até o dia que descobrimos que, vender amendoim na fila da cinema, era mais negócio. Fiquei sem saber por andava o Zezé desde o Tiro de Guerra, isto lá em 1968, quando ele preferiu servir ao Exército, no Rio de Janeiro, enquanto eu ficava em Miracema no TG 217 ao lado de toda nossa turma de amigos. Por onde anda o Zezé? Vivia me perguntando. Em 2001, em um dos últimos jogos que fiz pela Rádio Cultura de Campos, no Caio Martins, se não me falha a memória foi Botafogo x Paraná Clube, vi um moço parecido com o Zezé e perguntei: - Você tem parentes em Miracema? E o rapaz, tímido e já com a voz ...

ELES TENTARAM FAZER MINHA CABEÇA

Há algum tempo, quando eu era criança pequena lá em Miracema, ouvia falar em craques fantásticos e em esquadrões de ouro. Meu tio, tricolor sem muito fanatismo, eu nem sei por que o Tio Ary é torcedor do Fluminense, contava causos do famoso “timinho”, treinado pelo nosso conterrâneo Zezé Moreira, talvez esta seja a razão do Tio Ary torcer pelo tricolor. Ouvi meu avô Vicente falar do “Esquadrão de Ouro’ do Miracema FC, que passou dois ou mais anos sem perder um jogo e no dia que perdeu fechou as portas. Ficava atento quando o seu Garibaldi Parreira contava as histórias do Flamengo, tri-campeão em 53-54-55, e quando ele falava de Evaristo e Rubens. O tempo passou, mas as histórias e os causos sobre os timaços cariocas não passavam em branco. Outros contadores de causos e o ouvinte, este que vos fala, já estava crescido e já comprava a Revista do Esporte na banca do Chico Munheca e já acompanhava as resenhas nas Emissora Continental, das organizações Rubens Berardo. Como eu disse os conta...

UMA PAIXÃO QUE SE EVAPORA

Não tenho muito que falar sobre esta situação vivida pelo Flamengo e por seus torcedores, que debatem diariamente, há vinte e quatro anos, sobre a validade ou não do título brasileiro de 1987. O que já discuti com vascaínos, tricolores e botafoguenses durante este tempo dá para encher as páginas de um catálogo telefônico da cidade de São Paulo. No Armazém do Lenilson encontro o velho amigo Sollon, de papo com o Eucimar e disposto a curtir a oficialização do título. - Sente aqui, meu caro Dutra, tomemos uma cerveja gelada para comemorar o hexa oficializado. Nem respondi ao bom amigo e eterno guru. Passei batido em direção ao centro da cidade e, para meu espanto, Sollon veio em seguida deixando seu parceiro sorver sozinho a gelada que pedira. - Aonde vais? O que se passa? Tá zangado comigo? Três perguntas rápidas, todas sem respostas, e o ritmo do passo aumentava a cada minuto já que o assunto, levantado pelo velho guru, não estava na pauta para aquela manhã bonita e ensolarada. - Você n...

SELEÇÃO IDEAL: A DÚVIDA CONTINUA

Sabe aquela conversa de botequim, onde o assunto preferencial é o futebol? Pois é. Eu gosto de papear nos bares da vida e falar do esporte que adoro sempre que estou com amigos. E sempre vem aquela velha pergunta: -Qual foi o melhor jogador que você já viu jogar, ao vivo? Sem medo de ser feliz e de desagradar ao interlocutor eu respondo que foi Pelé. - Pelé não vale, eu não vi jogar. Mande outro. E novamente sem medo de ser feliz eu mando: Maradona. - Este também não vale, não é brasileiro e você viu ele jogar aonde? Não vai me dizer que foi lá na Itália? Não. Vi Maradona jogar no Maracanã, mesmo palco que vi Garrincha, Nilton Santos, Rivelino, claro, vou citar Zico, Leandro e as feras daquele time do Flamengo do início dos anos 80, ou também não vale? E tem aquela velha história de falar sobre a sua seleção, a seleção de todos os tempos, que sempre provoca desentendimento. Certa vez escalei o melhor time que vi jogar e esqueci de mencionar Gérson, o Canhotinha de Ouro, e o Victor, m...