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Se oriente, rapaz e aquele abraço

Agora olhe pro céu. Agora olhe pro chão. Agora repare a luz, que vem lá do caminhão. Esta estrofe, de um verso de Gilberto Gil, me leva de volta aos meus tempos de criança, quando lá na “terrinha” eu visualizava o caminhão do “tio” Ubaldo, que encostava na calçada do bar do Vicente Dutra para descarregar o leite e deixar o povo que vinha prá missa de domingo.

Depois virei um vira mundo virado, nas rondas da maravilha mas cortando a faca e a facão os destinos da vida. E seguindo as lembranças, vinda das canções de Gil, vejo que ele também se lembra de um “domingo no parque”. Só que o parque dele é diferente do meu, do seu e qualquer um que viveu lá na nossa Miracema.

O parque de Gil tinha João e José, dois brigões, no nosso, lá da “terrinha” tinha o seu Ademar, figura doce que transmitia paz para todas as crianças. Mas cá prá nós, que ninguém nos ouça, outros parques, aqueles montados em espaços cedidos pela prefeitura, com roda gigante, sombrinha e balanço veneziano, também nos dava medo dos Joões e Josés brigões e encrenqueiros.

Quantas Julianas, com rosas nas mãos, a gente encontrou por lá? Quantas vezes faltou coragem para aquela declaração a uma destas Julianas? E lá se foram vários sorvetes, do Abdo ou do Seu Chico, que comprometeram toda mesada da semana e a Juliana não ouviu declaração alguma.

Padre Antonio; Padre Luiz; Padre Alberto ou Padre André, holandeses de nascimento e brasileiros de coração e alma, comandavam a procissão, que não se arrastava como cobra pelo chão, mas que a gente só via o início, pois o fim ficava bem longe e nossa visão de gente pequenina não conseguia encontrar.

Os padres holandeses não prometeram coisas melhores para nós, nem mesmo Dona Áurea Bruno, nossa catequista, mas a gente sabia que Jesus nos prometera coisas boas, mas nesta terra de meu Deus a gente tem que correr e suar pra arranjar coisa melhor.

Meu avô, em um momento de reflexão, me disse, assim que saí de casa rumo a nova vida: “Se oriente rapaz, a possibilidade de ir ao Japão em um cargueiro do Lloyd“. Não peguei o cargueiro do Lloyd, como diz Gilberto Gil, nem foi preciso me orientar pela constelação do Cruzeiro do Sul, precisei apenas de força, coragem e muita fé para chegar onde cheguei.

Violência, injustiça e traição. Tudo isto deixei pelo caminho e cantei, seguidas vezes, um outro verso de Gil: “A paz invadiu meu coração e de repente me encheu de paz como se o vento do tufão arrancasse meus pés do chão”.

Tô indo embora e, meu povo preste atenção, na roda que eu te fiz, quero mostrar a quem vem aquilo que o povo diz. Agora vou divertir, agora vou prosseguir, quero ver quem vai ficar quero ver quem vai sair.

E prá você que ficou: Aquele abraço.

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