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Pagode em Veneza? Não terá

 O ar de Veneza tinha uma densidade diferente, como se a cidade estivesse suspensa entre a água e o sonho, presa num sortilégio que mantinha o tempo em uma estranha letargia. Quando Marina e eu subimos na gôndola, a superfície do canal não era apenas água; parecia uma chapa de mercúrio escuro, refletindo os palácios como se estes tentassem alcançar sua própria alma nas profundezas.

O gondoleiro, um homem cuja pele era um mapa de séculos de história veneziana, movia o remo com uma precisão que beirava a bruxaria. Não havia ruído. Apenas o deslizar silencioso, cortando o véu entre a realidade e o maravilhoso. Atrás de nós, os músicos – um sanfoneiro e um violinista – pareciam saídos de um quadro do século XVIII, cujas figuras haviam escapado da moldura para dar vida aos nossos desejos.

Enquanto Volare ecoava pelos muros de pedra, os acordes não viajavam apenas pelo ar. Eles se enroscavam nas nossas peles como uma carícia invisível. Naquela harmonia, senti as memórias de nosso casamento se fundirem ao presente, os vultos dos anos passados dançando sobre as gôndolas invisíveis que passavam por nós, perdidas em corredores temporais da cidade.

Foi então que o real e o insólito colidiram.

Do outro lado do Grande Canal, uma gôndola atracou na nossa dimensão temporal carregando um grupo de brasileiros que trazia o calor, o caos e a energia solar do nosso país em plena Veneza mágica. Eles não queriam a tradição; queriam a alma.

— Toca um pagode aí! — o grito rasgou o feitiço como um relâmpago.

O músico italiano parou a sanfona no ar. Seus olhos encontraram os do gondoleiro. Naquele instante, algo sobrenatural aconteceu. Não houve incompreensão real. Veneza, sendo uma cidade feita de espelhos e névoas, simplesmente traduziu.

A sanfona, que segundos antes chorava as notas melancólicas de Al di là, começou a vibrar em um ritmo sincopado. O violino assumiu o papel de um cavaquinho frenético, inventando harmonias impossíveis entre o Barroco e a batucada de mesa. O gondoleiro, sem perder o compasso, começou a imprimir ao remo um movimento percussivo na água, batendo contra a madeira num surdo perfeito que ecoava pela praça de San Marco.

Os brasileiros não se surpreenderam. Eles apenas levantaram as mãos e começaram a cantar. A harmonia italiana transformou-se. Aquele Volare que nos levava às nuvens, de repente, desceu à terra, ganhando o balanço malandro e quente das rodas de samba nas tardes cariocas.

Marina segurou minha mão. A gôndola não seguia mais o canal, parecia dançar uma coreografia desenhada pelas notas que surgiam da fusão dos dois mundos. Os pombos, lá no alto, desenharam um círculo perfeito sobre nós, em sincronia com o ritmo imposto.

Não havia mais turistas, nem o cansaço do dia. Havia apenas uma celebração alquímica onde a seriedade europeia foi despida de sua rigidez pelo atrevimento musical brasileiro, e o nosso entusiasmo encontrou a elegância de uma Itália que, embora secular, sempre teve um espírito pagão esperando para sambar.

Naquela noite, a água de Veneza não apenas refletia as estrelas; ela começou a emitir sons. Veneza não tinha sido apenas visitada, nem apenas sentida. Ela tinha sido "pagodeada". E enquanto nossa gôndola sumia na penumbra de uma ruela, entre risadas, o toque vibrante da sanfona e o suspiro do violino, eu tive a certeza: Veneza é apenas um estado de espírito onde, com o tom certo, qualquer coisa pode acontecer. Inclusive ver, por um brevíssimo segundo, o fantasma de Vivaldi acompanhando um grupo de brasileiros no pandeiro, antes de desaparecer nas sombras da Ponte dos Suspiros.

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