Pular para o conteúdo principal

A Praça, eu e minhas lembranças

QUE SAUDADE DA MINHA PRACINHA!

Tem coisas na vida que nos proporcionam tanto prazer que gostamos de repeti-las sem cessar, sem jamais sentir que estamos sendo repetitivos. Uma delas, pelo menos para mim, é voltar a Miracema. E, principalmente, ao meu cantinho favorito, onde fui, sou e continuarei sendo feliz enquanto vida tiver: a nossa Praça Dona Ermelinda.

Mas o último final de semana de outubro de 2026 foi fora da curva. Daqueles que merecem ficar guardados não apenas na memória, mas também em fotografias espetaculares. Algumas estão no meu álbum de fotos, outras aparecem aqui no blog, onde sigo contando histórias, causos e lembranças da nossa querida Terrinha.

E vamos ao que interessa.

O Festival da Cultura, que chega à sua quinta edição, trouxe como tema Miracema Antiga, numa viagem pelos anos de 1920 até 1936, quando aconteceu a emancipação política e administrativa do município.

E que viagem!

Voltamos aos tempos de glória do café, quando nossa cidade conheceu fama, prestígio e prosperidade. Reencontramos, nas imagens e lembranças, o trem da Leopoldina, com fotografias da antiga Estação que fizeram enorme sucesso. Revivemos também os tempos de uma Miracema pujante, quando a Fábrica de Tecidos oferecia centenas de empregos, o comércio tinha força e a cidade respirava cultura, arte e esporte.

Foram três dias de música, especialmente para a geração dos anos 1980, de reencontros para todas as gerações e de muita luz para quem, como eu, chegou disposto a reviver um pouco de tudo que a cidade nos ofereceu.

E este Velho Escriba estava à vontade. Feliz da vida, pisando no pedaço que considero meu desde menino, onde vivi intensamente a infância, a adolescência e boa parte da juventude.

Ah! E o Coreto?

Sim, o nosso Coreto!

Todo revitalizado, bonito de se ver, recebeu os meninos da Academia do Choro. Que maravilha!

Bastaram os primeiros acordes para que eu viajasse quase setenta anos no tempo. De repente, não era mais o velho cronista de cabelos brancos que estava ali. Era um menino de oito anos, cantando Sua Majestade, o Neném, e conquistando o primeiro prêmio da categoria infantil no programa de calouros do genial Mocinho.

E como a memória gosta de brincar com a gente!

Aquele mesmo Coreto me levou aos tempos de pistonista da Sociedade Musical Sete de Setembro, das retretas que encantavam a cidade e enchiam de música aquele lugar tão especial.

Mas nem todas as recordações do Coreto são musicais.

Uma delas, por exemplo, já me fez correr muito!

Naqueles tempos, bastavam alguns passos para chegar em casa, ali pertinho, em frente à Prefeitura, onde morei desde o nascimento até meu casamento com Marina, em 1975.

E quem provocava tamanha correria?

Neca Solão!

Um homem do bem, é bom que se diga, mas que parecia se divertir assustando a meninada. Com seus cabelos e barba compridos, roupas maltratadas pelo tempo e aparência que, aos olhos de uma criança, metia medo, Neca fazia do Coreto sua morada.

Hoje, quase oito décadas de vida nas costas, lembro dele com carinho. O medo ficou lá nos anos 1950. A lembrança veio comigo e virou mais um daqueles causos que gosto de contar.

E não posso falar da Praça sem recordar meus companheiros de aventuras, Júlio e Gutinho. Éramos tão inseparáveis que minha irmã dizia que parecíamos trigêmeos de pais e mães diferentes.

Jogávamos bola, inventávamos brincadeiras e fazíamos daquele pedaço de Miracema o nosso mundo particular. Um mundo onde não havia televisão para roubar a infância, muito menos celular para interromper uma boa pelada.

E havia também nossas aventuras radicais!

Vocês conhecem o famoso esquibunda das dunas de Natal, no Rio Grande do Norte?

Pois saibam que, muito antes de conhecer aquela brincadeira, nós já tínhamos inventado a nossa versão miracemense.

O morro onde fica a nossa igreja se transformava numa verdadeira pista de descida. Bastava arrumar uma casca de palmeira, sentar em cima e se entregar à aventura.

E lá íamos nós, dezenas de moleques, descendo morro abaixo, arriscando o traseiro, os fundilhos das calças e, provavelmente, a paciência das nossas mães.

Este que vos escreve, naturalmente, estava entre os mais animados.

Não havia ingresso, equipamento de segurança nem instrutor. Só coragem, alegria e aquela maravilhosa irresponsabilidade que, felizmente, a infância nos permitia.

E assim passei o final de semana.

Entre fotografias, músicas, abraços, reencontros e lembranças, fui novamente o menino que corria pelo Jardim, o pequeno cantor do Coreto, o pistonista da Sete de Setembro e o moleque que descia o morro sentado numa casca de palmeira.

O Festival da Cultura mostrou a Miracema de antigamente. Eu, por minha conta, reencontrei a Miracema que continua morando dentro de mim.

E, com a devida licença do mestre Ataulfo Alves, que cantou as saudades da professorinha e da sua pequena Miraí, faço uma adaptação bem ao meu gosto.

Que saudade da professorinha?

Não, mestre Ataulfo!

QUE SAUDADE DA MINHA PRACINHA!

E que felicidade poder voltar a ela, não apenas nas lembranças, mas com os próprios pés, o coração agradecido e a certeza de que algumas coisas o tempo jamais conseguirá levar.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Momentos inesquecíveis/Bola de Ouro

  Essa Bola de Ouro de 1987 não é apenas uma lembrança. É um pedaço da história do rádio esportivo brasileiro, e mru nome está lá, entre tantos gigantes da comunicação! Agora essa recordação ganhou a moldura que merece. E nosso baú de memórias continua crescendo. Ainda temos muita história para contar e muita emoção para reviver! ❤️🏆

O CENTRO HISTÓRICO DE MIRACEMA

O que é um centro histórico de uma cidade? É tudo aquilo que um dia foi história e, certamente, onde tudo começou. Correto. Então o centro histórico de Miracema seria na Praça Dona Ermelinda e seu entorno? Certo? Não. Pelo menos no ponto de vista de algumas pessoas da cidade o Centro Histórico é tão somente a Rua Direita, que anos atrás era o pulmão do município e hoje, infelizmente, o que resta são os poucos casarões que embelezam a atual Rua Marechal Floriano. Em coluna especial, no meio deste ano, sugeri que este nome, Marechal Floriano, fosse retirado e que a Rua Direita se dividisse em quatro partes, cada uma levando o nome de um dos heróis da emancipação, ou seja, “Os Quatro Diabos”. Uns gostaram e outros me criticaram, mas é apenas uma opinião de um miracemense ausente e você pode ter a sua que não contestarei em hipótese alguma. O centro histórico não tem mais os bazares, como a casa Cacheado, os armazéns, como o do Seu Pinheiro, as sorveteiras, como a do Abdo, os bares, como ...

A saideira que não aconteceu

  Hoje seria nossa despedida de Belém.  Seria. Fomos obrigados a abortar o passeio de dois dias à Ilha de Marajó, reflexo ainda da queda em que conheci, literalmente, o chão de Alter do Chão. Não me sinto seguro para me aventurar pelas águas amazônicas ou pelas terras de Marajó. Ficará para outra oportunidade. Mas Belém ainda tinha muito a nos mostrar. Hoje fomos ao Mercado Ver-o-Peso para saber o quanto pesaria, em nosso roteiro, aquele lugar tão famoso instalado às margens da Baía do Guajará. E minha impressão é de que realmente merece nota máxima, embora ainda precise de alguns retoques em seu ambiente. Foi uma manhã inteira girando por lá. Comprinhas de lembranças, observação de uma mistura interessante entre o antigo e o moderno, contato com o artesanato regional e, principalmente, a oportunidade de sentir de perto o calor humano do povo paraense. Eu e Marina vimos também a nossa primeira chuva da tarde em Belém. E foi de dentro de um táxi. Durante uns quinze minutos...