DUAS MÚSICAS, UMA NOITE E MUITAS LEMBRANÇAS
Do desencanto da política aos encantos do amor
Ontem resolvi dormir mais cedo. Não vi futebol, preferi ficar ouvindo minhas músicas no Spotify, que, aliás, está cada dia melhor. Estou conseguindo organizar minhas playlists com muito carinho e, quem quiser, é só pedir.
Já entrando pela madrugada, duas músicas me chamaram a atenção. O fone no ouvido, as letras desfilando pela telinha do celular e o sono que não chegava. Confesso que também não estava muito a fim de me entregar aos braços de Morfeu.
A primeira, de Augusto Mesquita e Jayme Florence, o Meira, me levou diretamente à política, especialmente àquelas eleições que tanto me fizeram perder a paciência.
E olha que já vivi muitas neste país de políticos que prometem mundos e fundos, mentem, mudam de lado e, no dia seguinte, aparecem sorridentes ao lado daqueles que, até ontem, eram seus maiores inimigos.
A música me fez lembrar dos debates que preferi não assistir e das propagandas eleitorais das televisões abertas, que, vez por outra, fui obrigado a engolir.
Qual é a música?
Perguntaria Silvio Santos, no seu famoso programa de televisão.
Pois bem, a música é Molambo, cuja interpretação mais marcante, para este que vos escreve, não pertence a nenhum dos grandes seresteiros, mas ao grupo Os Incríveis, que fez dela um sucesso inesquecível.
A letra fala de alguém que, depois de tantas decepções, acaba aceitando de volta quem lhe causou sofrimento.
E não é que me lembrei de Ciro Gomes?
Depois de tantas críticas, tantas divergências e tantos ataques, lá estava ele, novamente, aproximando-se de Lula.
Coisas da política. E do amor também.
Na minha interpretação daquela história, Ciro poderia ter resistido, lembrando o espírito da canção e evitando transformar-se em um molambo qualquer.
Mas não resistiu.
E eu, deitado, ouvindo Os Incríveis, pensava com meus botões: a política brasileira consegue transformar até uma velha canção romântica em comentário eleitoral.
Mas a madrugada ainda me reservava uma surpresa bem mais agradável.
A segunda música não tinha absolutamente nada a ver com política. Muito pelo contrário. Veio carregada de saudade, ternura e lembranças do meu velho pai.
Era Devaneio, de Djalma Ferreira e Luiz Antônio, na voz inconfundível de Miltinho.
Meu pai era apaixonado por Miltinho. E eu herdei dele essa admiração por um dos maiores intérpretes da nossa música popular.
Que cantor extraordinário!
Miltinho tinha aquele jeito especial de cantar, de colocar sentimento nas palavras sem precisar exagerar. Fazia da interpretação uma conversa íntima com quem o ouvia.
E Devaneio é dessas músicas que não envelhecem.
É lembrança, é saudade, é carinho. É a vida passando diante dos nossos olhos enquanto a melodia vai nos levando para lugares onde o coração gosta de ficar.
Naquele momento, eu até precisava dormir. Mas a música não deixava.
Fiquei ali, quietinho, ouvindo e lembrando do meu pai, de tantas coisas vividas, de tantos momentos que ficaram guardados na memória.
Até que virei o rosto para o lado direito da cama.
Lá estava Marina.
Minha companheira de tantas décadas, de tantas viagens, aventuras, alegrias e também dos momentos difíceis que a vida nos apresentou.
E percebi que aquela música, que começara trazendo a lembrança do meu pai, terminava falando de nós dois.
Cantei baixinho alguns versos de Devaneio, imaginando que não seria ouvido.
Mas fui.
Acabei acordando Marina.
E, naquele instante, tive a certeza de que não precisava dormir para sonhar.
O meu mais bonito devaneio estava ali, ao meu lado, ocupando o lado direito do colchão.
Adilson Dutra — Penacho

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