O CIRCO, O PALHAÇO E O MENINO QUE FICOU EM MIM
Baú do Penacho — Uma crônica de outros tempos, revisitada em 2026
A cidade está movimentada. Gente andando de um lado para outro, crianças agitadas, um clima diferente no ar.
Parece até que vai chegar um circo!
E por que não? Quem viveu a infância numa cidade pequena sabe muito bem o que representava a chegada de um circo. Era quase um acontecimento oficial, daqueles que mexiam com a rotina da cidade e, principalmente, com a imaginação da garotada.
Eu guardo duas lembranças do circo: a alegria e a tristeza.
A alegria vem dos palhaços, eternos personagens de roupas largas, coloridas, remendadas, sapatos enormes e um sorriso pintado no rosto. A tristeza vem de outras recordações, algumas tão fortes que o tempo jamais conseguiu apagar.
E quando penso em palhaços, lembro-me de um menino que um dia resolveu fazer graça para uma pequena plateia de estudantes do Prudente de Moraes.
O menino era eu.
Num circo improvisado durante uma tourada, tentava entreter o público, mas confesso que meus olhos estavam mais interessados nas meninas do que na apresentação.
E havia um problema: dona Edir Tostes!
Eu tinha medo dela, mas precisava cumprir minha missão.
Foi quando faltou energia. E, no momento em que a luz voltou, não encontrei coisa melhor para dizer:
— Viva o seu Laerte, que deu à luz!
Não sei se a plateia achou graça. Mas o palhaço improvisado sobreviveu à apresentação!
Outra lembrança, bem mais séria, me acompanha até hoje.
Numa manhã de domingo, meu tio Clery Picanço me ofereceu duas opções:
— Guri, você quer ver o Flamengo no Maracanã ou ir ao Gran Circus Americano?
Não pensei duas vezes.
Queria ver Dida e companhia.
Escolhi o Maracanã.
Naquele domingo, o Gran Circus Americano, em Niterói, foi atingido por um incêndio que se transformaria numa das maiores tragédias da história do circo brasileiro.
E eu, que poderia estar naquela plateia, estava vendo meu Flamengo.
Há escolhas que fazemos sem imaginar o peso que terão em nossas lembranças.
Mas voltemos ao circo, à alegria e àquele menino de Miracema.
Eu tinha um privilégio: muitas vezes entrava de graça.
Não porque fosse filho do dono do espetáculo ou tivesse algum padrinho entre os artistas. Nada disso!
Eu corria atrás do palhaço pelas ruas, ajudando a anunciar a apresentação. Gritava a propaganda com entusiasmo e, como recompensa, ganhava o ingresso.
Era uma maravilha!
Alguns colegas preferiam entrar escondidos por baixo da lona. Eu não tinha coragem. Achava melhor gastar a garganta anunciando o espetáculo do que correr o risco de ser apanhado.
Quando não conseguia a entrada gratuita, meu pai pagava. Ou então eu arrumava uns trocados vendendo coisas da vovó Maria, nas manhãs de sábado.
E havia todo um ritual para assistir ao espetáculo.
Mamãe preparava a roupa limpa e bem engomada. Os sapatos brilhavam, os cabelos ficavam lisinhos de Glostora ou brilhantina e eu saía de casa carregando a melhor cadeira da nossa sala de visitas.
Isso mesmo: levávamos cadeira para o circo!
E eu queria estar apresentável. Afinal, poderia encontrar alguma namoradinha por lá.
Imagine aparecer sujo, descalço, com a roupa amarrotada, correndo o risco de ser chamado para ajudar o palhaço ou fazer algum serviço durante o intervalo!
Logo eu, diante das meninas?
Nem pensar!
O tempo passou, os circos mudaram, os grandes espetáculos ganharam novas formas e muitas daquelas pequenas companhias desapareceram.
Mas o encanto ficou.
Há algum tempo, fui a um circo em Travessão de Campos. Era daqueles pobrezinhos, de lona desgastada, chão de terra e arquibancadas tão antigas que o próprio vendedor de ingressos as chamava de poleiro.
A trapezista e o equilibrista se esforçavam tanto que a gente não sabia se aplaudia a coragem ou se ficava preocupado com a segurança dos artistas.
Lembrei-me até das histórias do circo do Passarinho, que meu amigo contava com tanta graça, recordando um espetáculo que acabou em Miracema.
Mas sabem de uma coisa?
Eu estava feliz.
Porque, apesar da lona velha, da poeira e dos bancos desconfortáveis, aquilo continuava sendo um circo.
E tinha palhaço!
Ah, o palhaço!
Pode estar descalço, com a roupa remendada, a maquiagem borrada e os bolsos vazios. Basta entrar no picadeiro para transformar a tristeza de muita gente em gargalhadas.
E talvez esteja aí a maior beleza dessa profissão.
O palhaço não precisa esconder que a vida é difícil. Ele apenas nos ensina que, mesmo diante das dificuldades, ainda é possível encontrar motivos para sorrir.
Hoje, tantos anos depois daquele menino que corria atrás dos palhaços pelas ruas de Miracema, continuo sentindo a mesma emoção quando vejo uma lona armada.
Já conheci cidades, países, teatros famosos e espetáculos grandiosos.
Mas nenhum deles conseguiu apagar a lembrança daquele circo de chão batido, das cadeiras levadas de casa, dos sapatos engraxados e do menino de cabelo brilhando que esperava, ansioso, a entrada do palhaço.
Porque existem coisas que o tempo não consegue envelhecer.
O circo pode ir embora, a lona pode desaparecer e o palhaço pode tirar a maquiagem. Mas o menino que um dia se encantou com tudo aquilo continua sentado na primeira fila da minha memória.
E, quando as luzes se acendem, ele ainda bate palmas.
Adilson Dutra — Penacho

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