O BAÚ DO PENACHO — UMA HISTÓRIA DE 2009
Amigos e amigas do nosso querido Colégio de Pádua!
Em quase todos os nossos encontros, o velho amigo Amaury, companheiro de escola de Marina, me pede para contar uma história dos tempos em que defendia o Goiás.
Pois bem, resolvi atender ao pedido e recuperar uma crônica que escrevi em 2009, contando uma das aventuras desse goleirão que, além de defender grandes clubes, sempre soube colecionar bons causos.
A história envolve um goleiro galã, uma torcida feminina, uma substituição pra lá de suspeita e uma vingança que quase custou um título!
Amaury, agora a história é pública. E você está intimado a confirmar tudo!
Boa leitura e boas gargalhadas!
AMAURY, O GOLEIRO, O GALÃ E UMA VINGANÇA NO SERRA DOURADA
Do Baú do Penacho — Crônica de 2009
O Paduano foi um dos destaques da semana no nosso Papo de Bola. Não por estar realizando uma excelente campanha na Terceira Divisão. Longe disso! O Paduano foi destaque pela sequência de derrotas e pela troca de treinador. Assumiu o ex-goleiro Amaury, que teve ótima passagem pelo Flamengo, onde começou, e pelo Goiás, onde fez sucesso e até hoje é lembrado pela longa invencibilidade na meta alviverde.
Amaury também vestiu a gloriosa camisa do Americano e encerrou a carreira usando outra número um alvinegra, a do Tupi, de Juiz de Fora.
Não ficou rico de dinheiro no bolso, mas é milionário em causos e histórias, segundo ele, rigorosamente verídicas, vividas no mundo da bola.
Hoje, por ser domingo, trago uma passagem deste grande amigo e adversário. Nossos duelos são famosos na região. E a história aconteceu justamente naquele período de longa invencibilidade no gol do Goiás Esporte Clube.
— Meu reserva — começa Amaury — era considerado um dos jogadores mais bonitos do Brasil. Vinha do São Paulo e até que era um bom goleiro.
Os jogos iam passando e eu, graças aos meus companheiros de defesa e à minha boa fase, não tomava gol. Também não levava sustos com bolas de longa distância. A zaga mandava todas para as arquibancadas.
Um dia teria que chegar a vez do reserva, mas estava difícil colocar o garoto em campo. Eram jogos decisivos. Naquele tempo, os campeonatos eram disputados em três turnos e não havia esse Brasileirão prolongado.
— No primeiro clássico contra o Atlético Goianiense — continua Amaury —, a torcida até se assanhou, pedindo a entrada do Barbiroto, o goleiro galã. Fiquei com a pulga atrás da orelha. Depois descobri que eram as meninas da faculdade que formavam um coro para me derrubar e abrir uma vaga para o ídolo delas.
Tudo bem! Sua hora vai chegar, pensei, ao passar pelo companheiro no intervalo da partida.
Veio um jogo fácil, contra o Goianésia, e a invencibilidade foi mantida. O time esmeraldino continuava na ponta, cheio de moral com os torcedores.
— E eu estava com tudo! Sentia-me um verdadeiro Marcial, ídolo do Flamengo na década de 60, dentro dos três paus do Verdão.
No domingo seguinte, o clássico mais famoso do estado, contra o Vila Nova, que vinha logo atrás da gente, com dois pontos perdidos. Naquele tempo, a vitória valia apenas dois pontos. Um triunfo do adversário embolaria a competição e levaria a decisão para um jogo extra.
Bola rolando e nosso time não se acertava. O ataque parecia nunca ter jogado junto, nem sequer participado de um coletivo. Nossa defesa era um queijo suíço, cheia de buracos. Sobrava para mim o bagaço da laranja.
Fiz milagres e o zero a zero continuava incomodando os adversários. Afinal, o empate nos dava o título antecipado, já que o último jogo seria contra um pequeno, cujo nome nem me lembro.
Veio o segundo tempo. Nosso treinador ajustou as peças e fizemos dois a zero antes dos quinze minutos.
Foi aí que começaram os gritos histéricos das meninas.
Como a coisa estava ficando fácil, resolvi cumprir minha promessa: dar uma chance ao garoto bonito.
— Caí no chão, pedi os médicos e deixei o campo de maca. Na hora da troca das luvas, ele me disse, assustado:
— Vai me botar numa fria!
Respondi na mesma hora:
— Eu segurei até agora e você vivia insistindo para jogar. Pois chegou sua vez! Vá lá e mostre serviço. Garanta-se junto à sua pequena torcida!
Eu sabia que tinha colocado o menino numa fria. Mas era minha vingança contra as gurias e também contra alguns dirigentes mais chegados — entenderam? — que viviam no vestiário abraçados com meu reserva, mas com segundas intenções.
O rapaz entrou.
Primeira bola: SACO!
O Vila Nova marcou o primeiro.
Segundo lance: SACO!
O Vila Nova empatou!
Metade do Serra Dourada ficou em silêncio. As meninas, que até então faziam a maior algazarra, também se calaram.
Os jogadores olhavam para mim como se eu fosse o culpado de tudo.
O jogo se arrastou até o apito final. O empate nos deu o título e os dirigentes, aqueles que não eram tão chegados ao rapaz, trataram de dispensá-lo.
O garoto nunca mais conseguiu se firmar no mundo da bola.
— Futebol não é lugar para mocinho bonito, e sim para homens. É num jogo desses que se separam os meninos dos homens!
Assim encerrou sua história o goleirão Amaury, que ainda desfruta de enorme prestígio nas terras do Centro-Oeste brasileiro.

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