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Querua ser um poeta

 Hoje eu queria ser poeta.

Não o contador de histórias, não o cronista das esquinas da vida. Queria vestir a pele de Bilac, passear pelos versos como quem passeia por um jardim. Queria ter a sensibilidade de Chico — não o Anysio do humor inteligente, mas o Buarque das canções que falam baixinho ao coração.

Sou dado ao riso, à ironia e às observações do cotidiano, mas hoje queria ser romântico como Roberto Carlos, simples e profundo como Caymmi, deixando que as palavras navegassem mansas, ao sabor da emoção.

Hoje não quero falar de futebol. Não vou lembrar escalações, resultados ou histórias de Copa do Mundo. Não quero ser Saldanha, nem o João Saldanha de opiniões firmes e certeiras. Não quero ter a palavra fácil de tantos mestres da crônica esportiva. Se pudesse escolher, sentaria ao lado de Cury e Waldir, ídolos de uma juventude sonhadora que ainda mora em mim.

Hoje eu não queria ser locutor. Queria ser o compositor. Queria ser Milton, Gonzaga, Gonzaguinha. Queria transformar sentimentos em melodia e fazer dos sonhos uma canção. E se fosse Ary, que fosse Barroso: aquele que conseguiu ser voz e música, narrador e poesia.

Estou triste?

Não.

Hoje estou apenas sonhando.

Sonhando em ser poeta por algumas horas, mesmo sabendo que a vida me fez cronista. E que, por mais longe que meus versos tentem caminhar, voltarei sempre ao meu lugar de origem: o de observador da vida, contador de histórias e comentador de futebol.

Porque há destinos que não se escolhem. Apenas se vivem.

E o meu, felizmente, sempre foi contar a vida como ela passa diante dos meus olhos.

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