A Copa da Espanha foi mágica e provocativa.
A magia ficou por conta do futebol da Seleção Brasileira. A provocação veio dos italianos que, num momento decisivo, tiraram do Brasil a chance de ver um de seus maiores times erguer a Copa do Mundo e dar a volta olímpica como fizera a geração de 70.
Sei que o futebol é ingrato, mas vivemos algo especial naqueles vinte e poucos dias de competição. Fomos da alegria de cantar Voa Canarinho — música gravada pelo craque Júnior e que servia de pano de fundo para as vitórias brasileiras — à decepção profunda representada pelo choro de pai e filho: o escriba aqui e o Ralph, sentados no meio-fio da calçada da Rua João Pessoa, lá na Santa Terrinha.
A seleção de Zico, Sócrates, Falcão, Júnior e companhia merece capítulo à parte. Depois de grandes vitórias e apresentações convincentes, o time virou unanimidade entre a crítica internacional. Era o franco favorito ao título.
Mas perdeu para a Itália por 3 a 2 — com três gols de Paolo Rossi — e foi eliminado.
Todo brasileiro conhece essa história. E talvez justamente por isso ninguém consiga explicá-la completamente.
Mesmo assim, vale relembrar o episódio que ficou conhecido como a Tragédia do Sarriá.
O Brasil apresentava um futebol encantador. A Itália, ao contrário, vinha desacreditada, com um jogo burocrático e três empates na primeira fase. Parecia apenas mais um obstáculo no caminho do time de Telê Santana.
Ninguém imaginava, porém, que Paolo Rossi — que havia voltado recentemente ao futebol após suspensão em seu país — viveria uma tarde inspirada.
Abriu o placar aos cinco minutos. Sócrates empatou. Rossi marcou de novo após falha de Toninho Cerezo. Depois, o próprio Cerezo se redimiu com bela jogada para o golaço de Paulo Roberto Falcão. Mas Rossi ainda faria o terceiro.
No fim, o goleiro Dino Zoff realizou, segundo ele mesmo, a defesa mais importante de sua vida ao evitar, praticamente sobre a linha, o gol de Oscar que poderia mudar a história daquela Copa.
Para os brasileiros, 1982 ficará marcada para sempre como uma das maiores frustrações do nosso futebol. O esquadrão de Telê Santana era recheado de craques e frequentemente comparado à seleção tricampeã de 1970.
Mas o futebol, imprevisível como sempre, decidiu diferente. Dentro de campo, naquele Mundial, a força venceu a arte.
Brasil e França encantaram o mundo com técnica, dribles, criatividade e beleza. Itália e Alemanha Ocidental avançaram com força física, disciplina tática, marcação dura e eficiência.
Era também a reta final de uma geração brilhante.
A Itália seguiu embalada, venceu a Polônia por 2 a 0 na semifinal e garantiu vaga na decisão.
Do outro lado, Alemanha Ocidental e França fizeram um dos maiores jogos da história das Copas. Revi essa partida dias atrás e tive ainda mais certeza: aquela Copa não foi apenas dos grandes craques brasileiros.
A França de Michel Platini também merecia chegar mais longe.
Foi 1 a 1 no tempo normal, 3 a 3 após a prorrogação e, nos pênaltis, vitória alemã por 5 a 4. Um duelo inesquecível.
Na final — uma das menos brilhantes tecnicamente entre decisões de Copa — a Itália venceu a Alemanha Ocidental por 3 a 1 e conquistou seu terceiro título mundial.
A Copa de 1982 também marcou uma mudança importante promovida pela FIFA, então presidida por João Havelange.
Pela primeira vez, a fase final passou de 16 para 24 seleções — um aumento de 50% no número de participantes.
As novas vagas abriram espaço principalmente para países de futebol emergente: duas a mais para a África, duas para a Concacaf e duas para representantes da Ásia e Oceania.
Os 24 países foram divididos em seis grupos. Os dois melhores de cada grupo avançavam para uma segunda fase com quatro grupos de três seleções. Apenas o líder de cada chave seguia às semifinais.
Foi uma Copa de expansão, de mudança e de espetáculo.
Para o Brasil, ficou sem a taça.
Mas ficou eterna.
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