Em 1986, por causa de problemas políticos internos e do clima de violência provocado pelo narcotráfico, a Colombia abriu mão de sediar a Copa do Mundo. Três anos antes da competição, a FIFA voltou seus olhos para o Mexico, que recebeu novamente o torneio.
Mas os mexicanos também precisaram vencer obstáculos enormes.
Oito meses antes do início da Copa, a Cidade do México e outros estados do país foram atingidos por um terremoto devastador que matou milhares de pessoas. Em meio à tragédia, surgiu ainda mais forte a determinação do povo mexicano, que decidiu seguir em frente e mostrar ao mundo sua capacidade de organizar uma grande Copa do Mundo.
E conseguiu.
Motivados pela boa campanha de 1982 e pelo sonho do tetra, os brasileiros atravessaram a fronteira em peso. Filas enormes se formaram nas agências de viagem e logo Guadalajara e a Cidade do México ganharam um toque especial de samba, bandeiras e festa verde e amarela. Os bares, tabernas e ruas mexicanas foram tomados — no melhor sentido — pela alegria do torcedor brasileiro.
Foi talvez a maior presença de brasileiros fora do país em uma Copa até então.
Para se ter ideia, até a minha Santa Terrinha mandou representante. Uma pequena delegação chefiada pelo saudoso compadre João Moreno, padrinho do meu Leandro Dutra, figura inesquecível e que partiu cedo demais.
“Corneta, palavrão e cerveja a rodo. O hábito do típico brasileiro em época de Copa representava tudo aquilo que um torcedor deveria fazer em dia de folga e, principalmente, em dia de jogo.”
A frase era de Geneci Pestana, amigo de infância e hoje veterano de Copas — já a caminho da sexta. E talvez ninguém tenha resumido melhor aquele espírito. Era a maneira brasileira de empurrar a Seleção rumo ao tetracampeonato.
Dentro de campo, a Copa também foi especial.
Foi o Mundial dos fenômenos. De Diego Maradona, que transformou o torneio em palco pessoal, e também da surpreendente Dinamarca, seleção que passou como um furacão pela primeira fase e caiu nas graças do povo mexicano.
Com a bola rolando, a já conhecida alegria da torcida local foi recompensada com grandes jogos, estádios lotados e gols memoráveis.
Entre os favoritos, os destaques da primeira fase foram a Argentina, com Maradona em grande forma; a França, comandada por Michel Platini; e o Brasil, que fez campanha impecável.
A Seleção Brasileira ficou no Grupo D e venceu os três jogos: Espanha por 1 a 0, Irlanda do Norte por 1 a 0 e Argélia por 3 a 0.
Três jogos, três vitórias e nenhum gol sofrido.
Nas oitavas de final, o Brasil enfrentou a Polônia e não tomou conhecimento do adversário: 4 a 0, atuação convincente e confiança lá no alto.
Veio então o grande duelo das quartas de final contra a França.
Um clássico.
O Brasil saiu na frente com gol de Careca, mas Platini empatou. O jogo foi intenso, equilibrado e dramático. Já na prorrogação, Zico entrou em campo ainda frio e pouco depois o árbitro marcou pênalti para o Brasil.
Era a chance da classificação.
O Galinho bateu… e o goleiro Joël Bats defendeu.
Talvez ali tenha escapado a vaga brasileira.
Nos pênaltis, a França venceu por 4 a 3. Mesmo com Platini desperdiçando sua cobrança, Bats voltou a ser decisivo. Antes, já havia defendido a cobrança de Sócrates.
E o Brasil voltou para casa cedo demais.
Uma despedida dolorosa, principalmente porque a campanha até ali era excelente: quatro vitórias, dez gols marcados e apenas um sofrido.
Mas aquela Copa tinha um dono.
Diego Maradona escreveu seu nome definitivamente na história dos Mundiais.
Fez gol contra a Itália na primeira fase, marcou os dois gols históricos contra a Inglaterra nas quartas — um deles com a famosa “Mão de Deus” e o outro considerado por muitos o mais bonito da história das Copas — e ainda marcou duas vezes contra a Bélgica na semifinal.
Na decisão, a Argentina venceu a Alemanha Ocidental por 3 a 2 e levantou a taça no Estádio Azteca.
Foi a Copa de Maradona.
Foi a Copa da resistência do povo mexicano.
E, para nós brasileiros, ficou marcada como mais um sonho interrompido… mas também como um daqueles Mundiais que a memória nunca deixa apagar.
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