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Copa 1974

 

             Revivendo as Copas — 1974

A turma da Santa Terrinha estava disposta a repetir a festa de 1970. Mas, assim como o time de Mário Zagallo, que seguia no comando da Seleção Brasileira, nosso grupo já não era o mesmo.

Muitos dos amigos que fizeram o carnaval fora de época quatro anos antes já não estavam mais na cidade. Outros haviam se formado, seguido novos caminhos e se afastado daquela rotina de festa e “zoeira” que marcava as vitórias do Brasil em Copas do Mundo.

Eu, já noivo e pensando em casamento, não abandonei a turma. Fiquei responsável por preparar os instrumentos de percussão e sopro para os jogos da primeira fase, porque todos nós acreditávamos que seriam tranquilos para o nosso time.

Havia enorme expectativa em torno da Seleção na Copa da Alemanha.

O Brasil vinha embalado pela conquista gloriosa no México e, mesmo sem Pelé, levava um elenco respeitável com Leão, Paulo César Carpegiani, Ademir da Guia, Rivelino e Jairzinho.

Era o esquadrão verde-amarelo chegando mais uma vez como favorito.

Mas quando a bola começou a rolar, a máscara caiu.

O ano de 1974 também tinha seus próprios conflitos fora das quatro linhas.

No Brasil, Ernesto Geisel assumia a presidência enfrentando o fim do chamado milagre econômico. A dívida externa crescia, a inflação avançava, os salários perdiam força e a oposição começava a ganhar espaço nas eleições parlamentares. Ao mesmo tempo, Brasil e Alemanha assinavam acordos importantes, incluindo o tratado nuclear que ganharia enorme repercussão nos anos seguintes.

Enquanto isso, dentro de campo, a festa que se anunciava bonita e barulhenta foi perdendo força a cada jogo.

Nos dois primeiros compromissos, dois empates sem gols: contra a Scotland e contra a Yugoslavia.

Nenhum foguete lançado ao céu.

Nenhuma carreata.

Nenhum barulho além do comentário desconfiado depois do apito final.

No último jogo da fase, um alívio apertado: 3 a 0 sobre o modesto Zaire.

Foi a conta do chá.

Classificação arrancada na marra — e também favorecida pela fragilidade do grupo.

A Escócia havia vencido os africanos apenas por 2 a 0, e isso deixou o time de Zagallo com a obrigação de fazer um gol a mais para seguir adiante.

A Iugoslávia, por sua vez, havia aplicado um sonoro 9 a 0.

Passamos.

Mas ninguém estava plenamente convencido.

Na segunda fase veio a East Germany.

Dizia-se na época que os donos da casa, os alemães ocidentais, haviam até aceitado perder para os vizinhos orientais para escapar de cruzar com o Brasil naquele momento.

Veio uma vitória magra, 1 a 0, com gol de Rivelino.

E seguimos sonhando com o tetra.

Mas já sem o entusiasmo de antes.

Naquela altura, muita gente da turma já preferia uma pelada no Ginásio ou no Rink a ver os jogos da Seleção na televisão.

O feriado forçado permitia isso.

Trocávamos a telinha pela terrinha batida da quadra e íamos suar atrás da bola.

Talvez porque jogar futebol estivesse dando mais prazer do que ver aquela Seleção jogar.

A grande alegria daquela Copa veio contra a Argentina.

Vitória por 2 a 1.

E podem acreditar: foi o único momento em que vi a cidade inteira realmente comemorar.

Subiram foguetes.

Ouviram-se buzinas.

Apareceu gente nas ruas.

Por alguns minutos, parecia que a velha festa estava de volta.

Mas durou pouco.

No jogo seguinte, contra a Netherlands de Johan Cruyff — grande sensação da Copa —, Zagallo não encontrou o caminho.

Por desconhecimento ou excesso de respeito, armou a equipe num esquema já ultrapassado.

O Brasil jogou fechado, defensivo, bem distante do futebol encantador apresentado em 1970.

Terminou a Copa em quarto lugar, após derrota por 1 a 0 para a Poland.

Enquanto isso, a West Germany aproveitou o fator casa e, vinte anos depois, conquistou seu segundo título mundial.

Na decisão, derrotou a Holanda por 2 a 1 e levantou a nova taça do futebol mundial.

Como o Brasil havia conquistado definitivamente a Jules Rimet Trophy no tricampeonato do México, a FIFA precisou encomendar um novo troféu.

Nascia ali a FIFA World Cup Trophy.

O campeão ficaria com ela durante quatro anos e depois a devolveria, recebendo uma réplica menor.

Era um novo tempo.

E talvez 1974 tenha sido isso mesmo para nós:

o fim definitivo da festa de 70.

Ou, quem sabe, apenas a ressaca depois da maior alegria que o futebol já tinha nos dado.

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