Revivendo as Copas — 1970
Se a Copa da Inglaterra, em 1966, é passível de esquecimento — tanto que contamos apenas detalhes de bastidores e da pré-Copa — a do México, em 1970, merece ficar guardada para sempre na memória de todos nós, brasileiros e amantes do esporte.
Foi a primeira Copa mostrada ao Brasil pela televisão e talvez a única em que tivemos uma organização séria e tempo suficiente para preparar uma equipe forte, equilibrada e saudável. Tanto que Brito foi apontado como um dos jogadores fisicamente mais preparados daquela competição.
Nos bastidores trabalhavam militares de confiança do presidente Emílio Garrastazu Médici. No campo e ao redor dele, jovens como Carlos Alberto Parreira, Carlesso e Coutinho integravam a comissão técnica comandada por Antônio do Passo, cartola carioca acostumado aos bastidores do poder no futebol.
Curiosamente, o primeiro comandante daquela seleção foi João Saldanha, comunista assumido e dono de personalidade forte. Diziam que ele havia sido derrubado por não aceitar interferência na convocação. Muitos apostavam que sua saída teve relação com a não convocação de Dario, o famoso Peito de Aço, então grande nome do Atlético Mineiro.
Os historiadores contam outra versão: Saldanha deixou o comando por incompatibilidade com o regime militar e por não esconder suas ideias políticas, que não combinavam com aquele momento do país.
A televisão foi fundamental para fazer o Brasil parar em dias de jogo.
Acredito que tenha sido em 70 o início da invasão dos “copeiros” — aqueles que discutem futebol apenas de quatro em quatro anos — e também das meninas prodígio, que decoravam tudo sobre a Copa só para ganhar espaço nas conversas com os namorados.
A bola rolou para o Brasil no dia 3 de junho, no Estádio Jalisco, em Guadalajara, contra a Tchecoslováquia.
Logo aos 12 minutos, Petras aproveitou uma indecisão da zaga brasileira e abriu o placar. E foi ali que começou a corrente dos agradecimentos aos céus depois de uma jogada bem concluída — gesto repetido mais tarde por Romário, ainda em pé, sem se ajoelhar, e depois copiado por boleiros de todo o planeta.
O Brasil empatou ainda no primeiro tempo, e Rivelino reforçou o apelido que carregaria até o fim da carreira: Patada Atômica.
Nós, já rapazes, lá na Santa Terrinha, formávamos também uma seleção — mas de torcedores, preparados para qualquer tipo de comemoração.
Saíamos pela Rua Direita com cornetas, caixas e bumbos da Banda Marcial do Colégio Miracemense e fazíamos o que hoje talvez chamassem de micareta.
Se eu parar para falar dos dribles de Pelé, dos passes de Gérson ou dos gols de Jairzinho, talvez você vire a página — afinal, tudo isso já foi mostrado e repetido à exaustão pelas emissoras sempre que chega tempo de Copa.
Mas algumas lembranças ficam em outro lugar.
No jogo contra o Peru, já na fase mata-mata, estávamos em Miraí, terra de Ataulfo Alves, na Zona da Mata mineira.
Disputávamos um torneio de futebol de salão e assistimos ao jogo num ginásio lotado, espremidos no meio de uma multidão, diante de uma televisão enorme — não me lembro a marca — com imagem fraca e sinal pior ainda.
Mal se via a bola.
Mas dava para ouvir perfeitamente os gritos de Geraldo José de Almeida:
“Olha lá… olha lá…”
Ninguém parecia preocupado com a vitória. Todos acreditávamos que ela seria consequência natural do melhor futebol.
A preocupação era com o depois.
Porque ali estavam também as meninas mais bonitas da cidade — e o clima de festa prometia mais emoção depois do apito final do que durante os noventa minutos.
Na decisão contra a Itália, a festa já estava pronta desde a véspera.
O velho jipe do seu Osmar, completamente enfeitado, levava na traseira uma réplica da Jules Rimet Trophy. Pela lataria, bandeiras, flâmulas e confetes nas cores do Brasil.
Guardamos o jipe em ponto estratégico.
Armando — hoje médico respeitado —, David — comerciante de bebidas —, Dodote — atualmente petroleiro — e um punhado de amigos só esperavam o apito final para tomar as ruas e mostrar à cidade inteira a alegria pela conquista do terceiro título mundial.
A magia brasileira, desaparecida na Inglaterra quatro anos antes, ressurgiu no México.
Com um time repleto de craques e muito bem preparado fisicamente para suportar altitude e calor, o Brasil fez campanha perfeita: seis vitórias em seis jogos.
Para muitos analistas, ali nasceu a maior seleção de todos os tempos.
E talvez tenham razão.
Porque algumas Copas a gente acompanha.
Outras a gente escuta.
Mas a de 1970…
a de 70 a gente viveu.
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