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40 anos se passaram

 Guarânia, 40 anos e outras armadilhas do tempo

Cuiabá, virada dos anos 70 para 80.


Calor, gente suando elegância e promessas de ano novo que já nasciam vencidas.

Num restaurante qualquer — desses que a gente entra sem saber que vai sair diferente — encontrei um grupo cantando guarânia.

Não pediam atenção. Tomavam a nossa.

Sentei, ouvi, gostei.

Cantei junto, meio sem jeito, como quem pede licença pra entrar numa história que não é sua.


Aplaudi muito. Não por educação — isso eu nunca tive em excesso — mas porque ali tinha verdade, e verdade não se economiza.

A vida, que gosta de pregar peças quando a gente acha que está só de passagem, resolveu armar a dela.

3 de janeiro.

Meu aniversário. 40 anos — idade em que o sujeito já começa a desconfiar das próprias certezas, mas ainda finge que manda em alguma coisa.

Meu primo Frederico, com aquele sorriso de quem apronta sem culpa, preparou a surpresa.

Festa, tudo bem. Já era esperado.

Mas ele foi além.

Trouxe o grupo.

Sim, aquele mesmo.

Não para um palco, não para uma plateia qualquer.

Para dentro de casa.

Para dentro da minha história.

E aí, meu amigo… não teve jeito.

A guarânia, que dias antes era só música bonita de fim de ano, virou outra coisa.

Virou espelho.

Virou lembrança antes mesmo de acabar.

Virou dessas coisas que a gente não sabe explicar, mas também não esquece.

Cantaram perto.

Olharam nos olhos.

E, sem saber, me deram um daqueles presentes que o tempo até tenta levar… mas não consegue.

Hoje olho a foto.

A versão antiga me encara sem piedade:

— passou.

A colorida, atrevida, tenta me enganar:

— nem tanto.

Fico com as duas.

Porque no fundo, o tempo é meio pantaneiro:

parece manso, mas quando a gente menos espera… dá o bote.

E deixa a gente ali, parado,

com um sorriso no rosto

e uma música que não vai embora.

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