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Papo de Saudade - Bicudo resgata fatos do passado

O celular toca, do outro lado o velho parceiro Bicudo, sempre querendo uma "boca livre" aqui no meu apartamento, sim, Bicudo é o fiel companheiro do futebol, dos bons papos sobre a vida e, principalmente, quando o tema é Miracema e minha carreira é ele que incentiva a escrever e a falar de tudo um pouco. 

Não me sento com o amigo desde fevereiro, quando estivemos juntos nos dias de jogos, sem transmissão, do Flamengo, no Campeonato Carioca, e o cara nem sequer me telefonou neste período de quarentena, e, sabem porque ligou hoje pela manhã? Leu meu comentário sobre a possível volta do Carioca, com televisão aberta nas transmissões dos estádios com portões fechados. 

E então, já imaginou o que ele quer? Isto mesmo, quer vir para minha sala, beber da minha cerveja e beliscar os petiscos preparados por Marina. - Dutra, não tem este negócio de não poder receber visitas, somos dois, três no caso de Dona Marina, na faixa de risco, ficará tudo bem e eu posso me sentar na sua poltrona favorita para ver o Flamengo jogar. 

Nada disto, meu caro amigo. Você é do grupo de risco dobrado, além dos 75 anos, não sei se bem vividos, tem uma série de restrições e sequer a vacina da gripe você pode receber, então é melhor ficar em casa e conversar comigo só pelo celular, vou te ensinar a fazer chamadas de vídeos e aí a gente pode se ver enquanto falamos. Lembra que um dia, lá na Terrinha, a gente falou sobre isto no jardim? Isto mesmo, nos filmes e nos gibis de Flash Gordon, lembrou bem. 

E aproveitando a ligação, tive que retornar a discagem porque o cara não tem crédito e os que ele colocou acabaram. Então... a prosa começou a ficar naquele "varandão da saudade". Bicudo lembrou das postagens que tenho feito para os amigos, sobre as músicas e filmes que marcaram nossa década maravilhosa dos anos 1970, e chegou no Tema de Lara e Il Silenzio, que foram as que mais me marcaram no tempo de trompetista. 

- Pois é, Dutra, o tempo passou mas só foi cruel comigo, que não consegui chegar onde queria, você é um cara de sorte e fez uma bela limonada com os limões que a vida te ofereceu. Disse o amigo e conterrâneo, mas ele, meu velho companheiro de grandes jornadas, mais velho e mais experiente, curtiu a vida intensamente e não pensou no futuro, viveu o presente, muito bem vivido, e hoje está colhendo do que plantou. 

- Parece que foi ontem, Dutra, que seu pai Zebinho te deu a maior bronca quando você deixou a CEDAE e foi tentar a sorte no Vasco, meu amigo João Leitão, que te levou para a empresa estatal, também não gostou, mas era o Vasco, time do coração dele, e por isto não deu bronca também, torcia ´por você e para que desse certo. 

Certo, Bicudo, mas não deu certo e eu não lamento nada, tentei a sorte e consegui dar a volta por cima. E ele, entrando "de sola" no passado que já é separado por mais de cinquenta anos. - Penacho, posso chama-lo assim? Claro, respondi, afinal Penacho é praticamente um nome ou um sobre nome. 

- Penacho, Te vi triste apenas uma vez, e por sinal triste e p... da vida, posso contar? E sem esperar minha resposta engatou. - Bota no viva voz aí e chama Dona Marina para ouvir, continuou após Marina chegar para perto e ouvir atentamente. Lembram quando uma amiga da sua família disse para ela, quando vocês anunciaram o noivado? Pois é, você me contou depois, no meu trabalho, na Casa Marcelino. 

- Seguinte, continuou ele, a moça disse "Marina, cuidado com seu futuro, ainda é tempo de desistir, você não terá futuro se casando com o Adilson". E, o que não era para ser lembrado foi e eu digo que isto aqui também não era para ser escrito, porém, tem sempre um porém, nesta fase de quarentena as emoções estão afloradas e eu, sem medo de ser feliz, conto para vocês, pessimistas ou descrentes com o que está acontecendo, que o HOMEM lá de cima dá a mão e você tem que ajuda-lo a te carregar, eu segurei na mão DELE e consegui chegar até aonde nem mesmo eu e a moça que desdenhou do meu futuro, acreditávamos. 

E, para fechar o papo de hoje e a conversa afiada com meu amigo e parceiro de grandes jornadas, digo que não tenho rancor, não tenho bronca de ninguém que um dia não acreditou em mim, até eu duvido de toda esta aventura de vida que me foi reservada e que ainda tem muito para ser desvendada. Sigo a vida do jeito que minha mãe, Lili, um dia disse para mim. Vá para a vida e faça tudo aquilo que eu e seu pai não pudemos fazer, você tem uma menina maravilhosa a seu lado e seja feliz, sempre. 

E me parece que a minha história pode não ser um conto de fadas, mas que é maravilhosamente bela e ótima de ser vivida. 

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