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Histórias de um repórter "bilingue"

É sempre bom, muito bom mesmo, recordar boas passagens do tempo de rádio ou de jornal, principalmente quando são histórias gostosas de contar, boas de ler, ótimas para dar boas risadas ou descontrair um pouco este clima pesado que vivemos hoje no futebol do Brasil. 

Não sei se os amigos lembram, mas em 2001 (será que foi este ano mesmo?) aconteceu aqui em Campos dos Goytacazes um Mundialito de Futebol Sub-18, promovido pela Fifa, em conjunto com a CBF, e por aqui aportaram seleções da Europa, das Américas, da África e Ásia, além da seleção do Brasil, que tinha como grande astro o meia santista, Diego, hoje no futebol alemão; 

Naquele tempo eu prestava assessoria de imprensa para a Fundação Municipal de Esportes, dirigida pelo saudoso amigo Lulu Beda, e por isto tive acesso a todas as delegações e fui um elo entre os selecionados de língua portuguesa ou espanhola, como Bolívia, Peru, Angola e Argentina, com nossos companheiros da imprensa brasileira. 

Uma das duas histórias, que contarai abaixo, tem a ver com este trabalho e o primeiro "causo" foi divertido demais: Eu sabia que teria trabalho para entrevistar o pessoal da seleção dos Estados Unidos, que jogaria no Godofredo Cruz contra a seleção da Bolívia, e, como meu inglês é apenas para não passar fome, pedi Marina, minha esposa, para aprontar duas ou três perguntas na língua do Tio Sam.

E no papel estava, em inglês claro, o básico: 
- Como vocês veem esta oportunidade de intercâmbio entre a seleção de seu país com o futebol mais evoluído da América do Sul? 
- Qual sistema de jogo implantado pela sua seleção?
- Como vê o futebol no momento? 

Claro que ele me respondeu na sua língua pátria e eu, como não manjo nada do inglês, traduzi na base do "achismo" ou seja, falando que era ótima a presença do time americano por aqui e que eles aprenderiam bastate, que o time iria jogar no 4-3-3 usado em todos os times do mundo no momento e que o futebol está evoluindo nos Estados Unidos e em breve farão uma grande surpresa em Copa do Mundo. Entenderam? Meus ouvintes e leitores também entenderam tudo. 

A segunda, no Arisão, em jogo da França contra Angola, conversavam animadamente os jornalistas dos dois países, que vieram ao Brasil para cobrir o envento, em um francês fluente e eu, ali por perto, apenas balançava a cabeça e escutava, sem entender bulufas, do que os caras falavam, mas não perdi a pose e de vez em quanto eu gesticulava como se participasse da prosa. 

Meu companheiro Evaldo Queirós, me vendo "conversar" com os jornalistas estrangeiros, me pede para ser o intérprete da entrevista que ele queria fazer com eles, na Continental, e eu, espertamente, só convidei o Antônio Pessoa, jornalista angolano, para participar do papo na rádio campista. 

Subimos as escadas das arquibancadas até a cabine da Continental, onde estavam os companheiros da emissora, e , por não ter vaga na cabine, sentamos eu e Antonio nas cadeiras numeradas do estádio e ali conversamos sobre o torneio, sobre o futebol angolano e sobre o futuro do futebol africano, foi uma baita entrevista, bem aproveitada por todos da turma.

No final do papo, agradeci ao jornalista angolano, e Evaldo Queirós, lá de baixo do gramado, manda: 
- Antônio, como você aprendeu a falar tão bem a nossa língua? Você é um tremendo poliglota. 

E o companheiro, sem perder a pose, só completou: - Na minha terra a língua pátria é como a vossa, o português, fomos colônia de Portugal, como o Brasil, durante muitos anos. Explicou para a admiração do companheiro. 

E, antes de saír, um outro companheiro, que vou resguardar o nome, mandou para o ar: - Colônia de Portugal, nós e vocês, como assim, dá para explicar melhor este negócio de colônia. acho que você está zoando nosso país. 

A gargalhada foi geral e Antônio Pessoa não entendeu nada, felizmente já tinha tirado o fone do ouvido e não escutou a sandice do eu patrício. 

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