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Personagens do nosso futebol

Esta Copa do Mundo, que se encerrou recentemente, deixou marcas e certezas. A marca maior foi provocada pela derrota humilhante para Alemanha, o país chorou, os garotos choraram e a CBF deu de braços talvez querendo dizer que não tem nada com a história, foi a fatalidade, diriam seus dirigentes.

O pós jogo é recheado de declarações e de previsões negras para o futuro, jornalistas, comentaristas, ex-jogadores entram em cena e começam a descobrir as causas e as razões para o fracasso tão retumbante quando o brado do Hino Nacional. Seria a falta de uma divisão de base mais ajustada? Seria o excesso de brucutus formados nas bases do futebol brasileiro? Seria o ultrapassado esquema defensivo o principal culpado?

Todas estas perguntas se calam apo dois ou três meses passados do vexame e o que ficará marcado? Ficará a falta de qualidade e profissionalismo nas divisões de base e o excesso de zelo com os garotos fortes, preferidos por 10 entre 10 treinadores da categoria, e o desprezo para com os meninos habilidosos que surgem aos borbotões e somem da mesma maneira que aparecem.

Por aqui, nos anos 50 e 60, encontraríamos duzentos meninos que reuniam condições de jogar em qualquer equipe pelo Brasil afora, porém, tem sempre um porém, lá nos grandes e médios clubes, participantes da elite do Rio, havia o mesmo número de garotos formados nas bases ou descobertos por olheiros espalhados por todo o interior.

Dou um pequeno exemplo, no qual estão envolvidos os garotos da nossa geração. Um olheiro do Botafogo, conhecido do saudoso Maninho, esteve em Miracema e gostou de ver um treino do nosso Vasquinho, comandado pelo Bizuca e pelo Jacy Lopes Moreira e, sem perder tempo, Maninho passou a conversa no amigo para levar alguns dos garotos que vira.

- Amigo, o Botafogo está recheado de garotos bons de bola e outro punhado de futuros craques esperando uma chance, não temos como levar ninguém daqui, no momento, mas prometo que farei todo o possível para encaixar alguns destes nos clubes cariocas, disse o olheiro para Maninho.

E sabe qual era o ataque da base do Botafogo? Sim, tinha Jairzinho, Arlindo, Paulo César Lima, Rogério, e outros menos votados. E hoje? Quem seria o ataque do Botafogo e qual a chance de um destes jogar em uma seleção do Brasil? 

Aquele Rink EC, cantado em prosa e verso por todos nós, que vimos o time comandado por Chiquinho Maracanã e Zé do Carmo jogar com uma qualidade incrível, encantou os olheiros cariocas e fez com que diversos destes viessem a Miracema para tentar carregar com eles um destes geniais meninos para a capital, mas esbarrou no preconceito e nas boas opções de trabalho que havia naquele tempo. 

Alvinho, que chegou a ir para o Flamengo, não ficou porque conseguiu um bom emprego por Miracema e ficou. Ademir também foi para a Gávea e chegou a jogar campeonatos juvenis, mas voltou para trabalhar em uma empresa sólida e ter a certeza do futuro. Eu e Cacá esbarramos naquele problema, citado pelo olheiro amigo de Maninho, o excesso de bons jogadores e a equivalência entre os que estavam por lá e os que chegavam. 

E hoje, quem é que vai sair da cidade para enfrentar as peneiras dos clubes, que não são mais realizadas por olheiros e sim por empresários? Quem é o garoto talento que tem a coragem de sair, como saiu Célio Silva, o último vencedor, e enfrentar todos os desafios decorrentes da tentativa de ganhar espaço no futebol? 

Eu digo, encerrando o assunto, sempre para os amigos treinadores que me pedem para olhar algum garoto: O que é que você quer, craque ou butinudo? Se a resposta for um volante, um zagueiro ou um garoto forte para jogar como protetor da zaga, eu me recuso e digo que já me aposentei. 

Esta é a realidade atual, craques não tem vez e o buraco está aberto, cada dia mais fundo e no final dele tem apenas uma tênue luz se apagando. 

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