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NOITE E DIA DE UM NATAL FELIZ

Hoje a noite é bela, diz a canção que conheço desde criança pequena, quando enfrentava o balcão do Bar do Vicente, ali na Praça Ary Parreiras, onde nasci e cresci. Juntos eu e ela, no caso minha mana Eliane, vamos à capela, felizes a rezar as orações que Dona Áurea, nossa catequista querida, nos ensinava no dia a dia da Igreja de Santo Antonio.

Ao soar o sino, dizendo que chegava a hora da missa do galo, o movimento do bar melhorava um pouco, ou melhor, diminuía um pouco, pois melhorar, no sentido comercial da palavra, é quando o movimento aumenta e não se esvazia, como o sino pequenino batia insistentemente chamando os fieis para a celebração.

Minha avó, Maria, dizia “vai o Deus menino nos abençoar”. E o sino pequenino, que nós chamávamos sino de Belém, batia insistentemente dizendo que já nasceu o Deus menino para o nosso bem.

E o movimento então ficava praticamente parado, já passava da meia noite e, pregados e extenuados pelo trabalho de todo o dia, meu pai, Zebinho, chamava Dona Lili, minha mãe, para o quarto e pediam paz na terra, como aquele sino alegre a cantar e minhas irmãs ouviam um Deus menino abençoe este lar e também se refugiavam em seus quartos para o sono dos justos.

As manhãs do dia 25 de dezembro eram mais tranqüilas no Bar do Vicente e este bom menino aqui tinha a liberdade de ir e vir à rua neste dia e gritar um bom Natal para todos da vizinhança. Que seja um bom Natal para todos nós, dizia o Seu Scílio, o Seu Amaro saia cedo para a igreja, logo que ouvia o sino tocar novamente e uma alegria tomava o ar da Praça Ary Parreiras na manhã do dia de Natal.

Os meninos apareciam de todos os lados a procurar seus presentes e a mostrá-los pelas ruas em danças de roda e, de mãos dadas se confraternizavam nos paralelepípedos esquentados pelo sol forte que sempre castigava a cidade nesta época do ano.

E os cânticos eram entoados, tipo assim: “Botei meu sapatinho, na janela do quintal...
Porém, tem sempre um porém, nem sempre Papai Noel deixava aquilo que pretendíamos e as surpresas, alegres ou tristes, eram constantes neste dia.

Como é que Papai Noel não se esquece de ninguém, cantava o Paulinho, que depois ficou milionário, mas reclamava que sempre era esquecido por ele não ser rico e sim pobre, mas sempre o Bom Velhinho aparecia e deixava alguma coisinha na manhã do dia 25 na meia do menino.

Mais tarde, depois de correr por todos os cantos da cidade atrás das novidades do Natal, era hora de ouvir o coral de Dona Áurea a cantar Natal, Natal das Crianças, Natal da noite de luz, Natal da estrela-guia, Natal do Menino Jesus.

A letra já estava decorada e o blim, blão, blim, blão, o refrão, era entoado por toda a igreja e a voz do Padre André, um padre holandês de voz suave e bonita, era sempre a mais destacada. A do Padre Luiz era horrível e a do Padre Alberto incompreensível.

Bate o sino da matriz, papai, mamãe rezando para o mundo ser feliz. Parece que o blim, blão, blim, blão, está novamente na minha cabecinha de criança. Feliz Natal prá você, meu amigo e conterrâneo, que viveu estes bons momentos e sabe como era bom ser feliz e como era gostoso correr atrás dos presentes ali na Praça Ary Parreiras ou em qualquer cantinho desta nossa Miracema.

Comentários

Anônimo disse…
Mais uma vez, lindo. Fiz uma viagem no tempo. Que coisa boa.

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