Pular para o conteúdo principal

O CIRCO CHEGOU

A cidade está movimentada. Hoje até parece que vai chegar um circo por aqui. Isto mesmo, um circo. Quem não tem saudades de um circo? Eu guardo dentro de mim a alegria e a tristeza de ver um circo. A alegria fica por conta dos palhaços, eternos e velhos palhaços com suas roupas coloridas, frouxas e com babados rasgados caindo pelos lados. Eu me recordo de um menino/palhaço fazendo graças, mas de olho nas gurias do Prudente de Moraes. Eu me vejo, quando me lembro de um circo, correndo com medo da dona Edir Tostes, mas ciente de que tinha que fazer algo para entreter a pequena platéia de estudantes naquele circo improvisado em uma tourada. “Viva o seu Laerte, que deu a luz”, foi o que saiu quando a energia foi re-estabelecida e o espetáculo pode continuar.
Vejo o lado triste, porém para mim até certo ponto alegre, quando retornava do Maracanã, onde fui ver o meu Flamengo. Na manhã daquele domingo o meu tio, Clery Picanço, me oferecia duas opções: “Guri, Flamengo no Maracanã ou Gran Circus Americano?”. Preferi ver Dida e companhia. Felizmente. A história do incêndio todos sabem de cor.
Quem não conserva na mente a visão das moças bonitas, dos meninos e rapagões bem alimentados, do forte e grisalho dono do circo, domador vestido de preto lamê, de todos a sustentarem com força o equilíbrio do mundo? Quem não se lembra? Claro, que cada um terá um universo de lembranças de um novo ou de um velho circo, dependendo de onde nasceu e de onde viveu os primeiros anos de vida, em cidade pequena ou cidade grande. Em nossas lembranças haverá sempre um circo.
Circo pobrezinho de chão de poeira, de lona furada e sem cores, de leões já velhos sem dentes, de bicicletinhas velhas, ou então de uma visão de brilho, de rico luxo, de madrepérolas, com mágicos importantes a criar mil fantasias de coelhos e bandeiras, com moças vendendo saúde, meninos louros voando em trapézios, tudo mais parecendo um sonho acordado. Claro que cada um de nós guardará uma forma lírica de lindas lembranças, uma saudade gostosa do primeiro encontro com o circo, jamais desfeita de nossa memória e de nosso coração... Nada há mais delicioso do que o primeiro espetáculo de circo.
Fui, mesmo tendo nascido em Miracema, uma cidade pequena, um menino que entrava de graça nos circos. Primeiro porque tinha jeito de correr atrás do palhaço, gritando a propaganda para ganhar a entrada. Fazia isto porque não tinha coragem de entrar por baixo do pano, escondido, como faziam os colegas de escolas e da rua. Se não fizesse a propaganda o meu pai tinha sempre que pagar meus ingressos, isto quando eu não conseguia ganhar dinheiro vendendo coisas da vovó Maria, nas manhãs de Sábado. No circo, com ingresso pago, eu entrava sempre de roupa limpa bem engomada por mamãe, sapatos brilhando, cabelos lisinhos de glostora ou de brilhantina, levando a melhor cadeira de nossa sala-de-visita. Menino que entrasse sujo, descalço, quase sempre tinha que ajudar o palhaço, ou mesmo servir de amarra-cachorro nos momentos de intervalos.

E como fazer isso, à vista das namoradas? Há pouco tempo fui a Travessão de Campos, onde estava um circo pobrezinho, de lona quase caindo aos pedaços, um chão poeirento que fazia dó, as arquibancadas tão velhas que o próprio vendedor de ingresso chamava-as de poleiro. A trapezista e o equilibrista – coitados - a gente não sabia se admirava ou tinha pena... Parecia até história de circo do Passarinho, a história de um circo que acabou em Miracema, que ele conta com muita graça! Mas que coisa gostosa, quanta saudade matava na gente! O que estava em Travessão? Era um circo e tinha palhaço! Um palhaço, mesmo descalço como o daquele pobre circo, representava um mundo de fantasias, um maravilhoso elenco de gestos e trejeitos, uma poesia eterna de um doce sofrimento que, mesmo para o desprezado, fazem da vida um alegre motivo de viver!
Um palhaço, sabendo ganhar e sabendo perder, sempre com esportiva e bem conformado, é o que mais representa o circo, é um pouco de tudo que todos nós deveríamos ser, talvez como a única maneira que poderíamos agir para vivermos um pouco mais esta vida sofrida e cheia de saudades.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Momentos inesquecíveis/Bola de Ouro

  Essa Bola de Ouro de 1987 não é apenas uma lembrança. É um pedaço da história do rádio esportivo brasileiro, e mru nome está lá, entre tantos gigantes da comunicação! Agora essa recordação ganhou a moldura que merece. E nosso baú de memórias continua crescendo. Ainda temos muita história para contar e muita emoção para reviver! ❤️🏆

O CENTRO HISTÓRICO DE MIRACEMA

O que é um centro histórico de uma cidade? É tudo aquilo que um dia foi história e, certamente, onde tudo começou. Correto. Então o centro histórico de Miracema seria na Praça Dona Ermelinda e seu entorno? Certo? Não. Pelo menos no ponto de vista de algumas pessoas da cidade o Centro Histórico é tão somente a Rua Direita, que anos atrás era o pulmão do município e hoje, infelizmente, o que resta são os poucos casarões que embelezam a atual Rua Marechal Floriano. Em coluna especial, no meio deste ano, sugeri que este nome, Marechal Floriano, fosse retirado e que a Rua Direita se dividisse em quatro partes, cada uma levando o nome de um dos heróis da emancipação, ou seja, “Os Quatro Diabos”. Uns gostaram e outros me criticaram, mas é apenas uma opinião de um miracemense ausente e você pode ter a sua que não contestarei em hipótese alguma. O centro histórico não tem mais os bazares, como a casa Cacheado, os armazéns, como o do Seu Pinheiro, as sorveteiras, como a do Abdo, os bares, como ...

A saideira que não aconteceu

  Hoje seria nossa despedida de Belém.  Seria. Fomos obrigados a abortar o passeio de dois dias à Ilha de Marajó, reflexo ainda da queda em que conheci, literalmente, o chão de Alter do Chão. Não me sinto seguro para me aventurar pelas águas amazônicas ou pelas terras de Marajó. Ficará para outra oportunidade. Mas Belém ainda tinha muito a nos mostrar. Hoje fomos ao Mercado Ver-o-Peso para saber o quanto pesaria, em nosso roteiro, aquele lugar tão famoso instalado às margens da Baía do Guajará. E minha impressão é de que realmente merece nota máxima, embora ainda precise de alguns retoques em seu ambiente. Foi uma manhã inteira girando por lá. Comprinhas de lembranças, observação de uma mistura interessante entre o antigo e o moderno, contato com o artesanato regional e, principalmente, a oportunidade de sentir de perto o calor humano do povo paraense. Eu e Marina vimos também a nossa primeira chuva da tarde em Belém. E foi de dentro de um táxi. Durante uns quinze minutos...