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Lá vem o chato. Xi... outra vez?

Miracema tem algumas particularidades incríveis. Uma destas é o carinho com que seus moradores recebem os visitantes, principalmente aqueles mais abastados ou mesmo os que por aqui chegam e tentam fazer a vida. Certa vez, meu amigo Solon é que me conta, conheceu um cara que jogava um belo futebol e foi contratado pelo Miracema. 

Chegou, viu e venceu. Conseguiu até um emprego - daqueles que não precisava trabalhar - na Loja do Chicralla Amim. O cara era do tipo bonitão, simpático e tinha prestígio tanto com as mulheres ou com os homens. Foram dias, diz Sollon, creio que uns vinte pelo menos, de paparicação até que, não sei por que, enjoaram do cidadão e quando entrava em um bar ou no cinema a frase era uma só: "Aquele chato do Beto está por ali, vamos voltar".

Isto, guardada as devidas proporções, também acontece comigo ou com outros miracemenses que estão fora da cidade. A gente fica dois ou três meses ausente e quando retornamos, para uma visita rápida, somos recebidos com tapete vermelho, cerveja da boa e até mesmo um churrasquinho em homenagem ao reencontro. Se a gente volta uma, duas ou três semanas seguidas já lhe servem cerveja quente, carne de gato e até mesmo uma frase daquela desferida ao craque Beto.

Não estou reclamando da hospitalidade dos amigos, mas é justamente assim que me sinto quando repito as visitas à cidade por uma ou duas oportunidades, é assim que o pessoal Tio Nilo's, e outros bares, que frequento me vê: "lá vem o chato que só bebe da boa e quer que a gente o acompanhe", e podem ter certeza, não acompanham mesmo, nem para fazer uma "graça" com o visitante. Agora estou fazendo chantagem emocional com esta turma, prometo que vou colocar aqui na coluna um "causo" e finalmente ganho um parceiro para uns goles da boa. Jorginho e Sidney até que tentam - confirma Amaury?-  mas só o Micão (Luiz Antonio Dias) e os bicões me fazem companhia.

Vim a Miracema por quatro semanas consecutivas, vários foram os ótimos motivos para tal - quatro aniversários consecutivos de pessoas que quero bem e que fazem parte da minha história-. Primeiro foi o Márcio Baby, lá na Laje do Muriaé, que completou cinqüenta anos e reuniu a família Freitas e os boleiros em uma festa maravilhosa. 

Depois foi a mana Celeste, que comemorou vinte e cinco anos ao lado do meu melhor cunhado, Arthur (acho que não posso usar mais esta saudação) em outra festa inesquecível. Na semana que passou foi a vez do bom Chico David, meu comentarista favorito, se tornar sexagenário, agora a Eliane, mana mais antiga, também chega aos sessenta. Viram só, motivos não faltaram, mas o povo já está me tratando como trataram o Roberto, com aquela velha frase: "Vamos voltar, o chato do Adilson está por ali".

Em um destes rituais, do qual a visita ao bar do João Righ faz parte, encontrei-me com o Chiquinho Lovise, um dos monstros sagrados da eletrônica, e recordamos nossas peripécias na Rádio Princesinha. Para quem não sabe ou não se lembra, o Chiquinho é o responsável por mais de cinqüenta por cento do sucesso de nossa equipe de esportes, foi ele quem inventou a "maleta mágica" que nos proporcionou as transmissões do Maracanã, do Godofredo Cruz e de tantos outros estádios ou campo de futebol da região. 

Pessoas como o Chiquinho deveriam ser sempre homenageados e não citados com aquela frase dirigida ao Roberto: "Lá vem aquele chato novamente", isto não pega bem para o gênio da eletrônica miracemense.

Assim é a vida, as vezes somos obrigados a sumir para ganharmos notoriedade, se mantivermos nossa constante visitação o povo se esquece do que somos e nos trata como um chato. 

Por isto, se sentirem saudades de um amigo, peça-lhe que venha uma vez ao ano para uma prosa rápida e um longo abraço, assim a saudade diminui e a necessidade de vê-lo novamente irá florescer dentro de pouco tempo. Claro que tem aqueles, os verdadeiros amigos, que querem mais é que você se retorne em definitivo para te-lo por mais tempo ao lado, mas a minoria joga mesmo no time dos enjoados, aqueles que com três ou quatro dedos de prosas já estão saturados e loucos por ter ver pelas costas.

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