Pular para o conteúdo principal

HISTÓRIAS DAS MESAS DA KISKINA

O tempo passa e a gente não sente que envelheceu, mas olhando ao redor da Kiskina Chope, do amigo Roney, percebemos o quanto o tempo passou. Quem jamais jogou bola pode até ensaiar um elogio a um amigo mais próximo, garanto que o retorno virá na mesma moeda, concorda comigo? Se não, dê um pulo até lá e puxe conversa com quem quer que seja e diga: - Acho que me lembro você jogando no Miracema – pode ser Esportivo, Operário, Tupã ou Associação ou Bandeirantes. Era um atacante chato, no bom sentido, e goleador. Se esta frase for dirigida ao Eduardo Carneiro, que deu suas caneladas vestindo a camisa do time do Polaca, vai receber em troca centenas de elogios ao seu desempenho dentro de um campo de futebol, sem jamais ter mostrado pelo menos o mesmo dom exibido por ele nos gramados do Plínio Bastos de Barros, Ferradurão ou Irmãos Moreira.
Isto é comum nas mesas de um boteco, principalmente quando ali se reúnem antigos parceiros, frustrados ou não, que em um belo dia curtiram a glória de ter resolvido uma partida de forma individual, como o grande Eduardo resolveu contra um combinado de Nova Iguaçu. – Um Timaço –diz ele- que o Polaca trouxe para jogar no dia da festa da cidade. – Eu decidi o jogo praticamente sozinho. Fiz três passes para o Nem e o Careca marcarem os gols e o Bitico marcou outros dois também em jogadas minhas. Fui o nome do jogo. Arrematou o "craque", que aquela altura já pagava as despesas de todos os que concordavam ou insistia para que concordássemos com suas vitórias. Claro que ninguém contestou, principalmente porque ali, exceto o Lauro –filho do Bitico- era o único que não poderia desmentir o ex-artilheiro.
De um outro lado, lá beirando o paralelepípedo, estava uma outra geração de "craques", que empolgados pelo encontro inesperado, contavam suas vantagens de uma forma mais particular, menos gritante e bem menos exagerada. Eram garotos da geração 70, hoje na casa dos 35 anos, mas não menos exibida do que o velho artilheiro Eduardo, já na casa dos 60 anos. – Este jogou muito. Driblava o time adversário inteiro, mas na hora do passe exagerava e não passava a bola. Dizia o Júnior em referencia ao Berg, hoje em Volta Redonda, exibindo uma bela barriga, atípica a um atleta de sucesso.
As cervejas iam se acumulado nos engradados vazios, postados estrategicamente atrás de um balcão, os chopes eram consumidos de forma gulosa por todos e de acordo com o grau etílico a conversa ficava mais animada e com isto, como de praxe, as histórias eram alteradas ou até mesmo criadas naquele pequeno espaço de tempo.
Os craques de verdade chegavam e saiam com a mesma velocidade que os contadores de “causos’ contavam mais uma. Passa o Geneci, um belo goleiro e com boas histórias para narrar, mas ao seu lado chega o Chico, cuja pequena passagem pelo futebol não deu para reunir sequer meia dúzia de "causos", mas ele traz na bagagem quase uma centena deles, e o que é pior, todos concordam para não ouvir os xingamentos do ex-provável craque.
Esta é a roda viva da Kiskina, uns contam histórias verídicas, outros narram "causos" ou histórias fictícias, mas como boleiro, pescador e caçador precisam de boas histórias, é melhor a gente concordar para não cair do cavalo quando quiser inventar uma das nossas favoritas.
E por falar nisto, eu bem que gostaria de contar uma boa história vivida por este escriba, mas deixa para uma outra oportunidade, afinal hoje eu cobrei dos personagens reais e posso ser desmentido por algum deles, que provavelmente tenham presenciado alguma história surreal deste ex-artilheiro e contador de histórias tal qual o Chico, o Ronzê, o Eduardo, e tantos outros goleadores, frustrados ou não, que freqüentam mesas da Kiskina ou de qualquer outro boteco da nossa Miracema.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O CENTRO HISTÓRICO DE MIRACEMA

O que é um centro histórico de uma cidade? É tudo aquilo que um dia foi história e, certamente, onde tudo começou. Correto. Então o centro histórico de Miracema seria na Praça Dona Ermelinda e seu entorno? Certo? Não. Pelo menos no ponto de vista de algumas pessoas da cidade o Centro Histórico é tão somente a Rua Direita, que anos atrás era o pulmão do município e hoje, infelizmente, o que resta são os poucos casarões que embelezam a atual Rua Marechal Floriano. Em coluna especial, no meio deste ano, sugeri que este nome, Marechal Floriano, fosse retirado e que a Rua Direita se dividisse em quatro partes, cada uma levando o nome de um dos heróis da emancipação, ou seja, “Os Quatro Diabos”. Uns gostaram e outros me criticaram, mas é apenas uma opinião de um miracemense ausente e você pode ter a sua que não contestarei em hipótese alguma. O centro histórico não tem mais os bazares, como a casa Cacheado, os armazéns, como o do Seu Pinheiro, as sorveteiras, como a do Abdo, os bares, como ...

AO SOM DE CARTOLA, ELIS E OUTROS

Revendo textos - Esta é de outubro de 2005    Quatro horas da tarde. Lá fora o sol forte, aqui dentro o ar refrigerado ligado no limite e na vitrola o disco de João Gilberto, em volume médio, toca para motivar este velho escriba a falar sobre música e artistas. Ligo para meu amigo Motta, que está na internet –sua nova companheira- e me recuso, no momento, a entrar na grande rede. O telefone toca. Penso em não atender. Marina chama: É prá você. É o Solon. Bingo. Era o que precisava para traduzir certas canções de Cartola. Pensava até em ligar para o Nascimento, lá em Miracema, mas Solon chegou na hora.  Fala aí, amigo velho. – Amigo velho, não. Velho amigo. Fica mais poético e mais saudável. – O que manda? – Acho que preciso de alguém para conversar, estou só e os dedos estão cansados demais para dedilhar nas teclas do computador. – Eu até gostei de sua ligação. Tava pensando em fazer umas colocações sobre a música de Cartola e só mesmo quem viveu estes momentos pode divid...

As badaladas da Ave Maria

São várias lembranças que me fazem buscar o computador e escrever, antes de que desapareça de meu pensamento, sobre o cair da noite, ou o cair da tarde na linguagem poética, principalmente de Augusto Calheiros em sua Ave Maria, datada de 1953, e que fez um punhado de senhorinhas, que sentavam à beira da calçada, suspirarem com a passagem do seu possível par romântico nos bailes da vida.  Pode ser também a angústia que me bate nestes períodos, lembrando dos dias solitários no Rio de Janeiro, quando pensava em Miracema e declamava os versos de Fernando Nascimento:  "Quando a lua desce aqui no Rio, eu sinto ânsia, sinto angústia, sinto frio. Quando a Lua nasce cor de prata eu relembro Miracema em serenata." E seria a lembrança de minha mãe, que nesta segunda-feira, 29 de julho, completaria o seu centenário, que não será comemorado em vida, mas a lembrança das velas acesas, para esperar as badaladas, que na verdade eram as seis badaladas da manhã repetidas à noite, e que também s...