Pelé não tinha carimbo... e Canhoteiro carimbado
Estávamos na beira do meio-fio, descalços, sem camisa e com o corpo suado de tanto correr atrás da bola no rink da Praça Dona Ermelinda. Eu, Júlio e Gutinho iniciávamos mais um bafo-bafo para disputar as últimas figurinhas disponíveis no embornal das repetidas — aquelas que sobravam, as que ninguém mais queria por serem fáceis demais e sem grande atrativo.
A primeira a entrar no tapa — porque bafo-bafo era isso: tapa ou muito jeito para virar a figurinha de cara para cima — foi a do goleiro mexicano Antonio Carbajal, já veterano naquela época, mas sem nenhum apelo comercial nos álbuns comprados nas padarias, que vendiam as balas recheadas com figurinhas.
Cada página completada valia um brinde: um relógio, um rádio, uma panela e até um fogão a gás, novidade naquele longínquo ano de 1962. Ninguém no Brasil — muito menos os idealizadores da coleção — imaginou uma possível classificação da Seleção da Tchecoslováquia para a final contra a Seleção Brasileira. Por isso, jogadores como Josef Masopust, Josef Pluskal ou o goleiro Viliam Schrojf apareciam facilmente nos embornais das repetidas.
Era uma febre. E confesso: ali nasceu meu vício por colecionar álbuns de figurinhas.
Até pouco tempo atrás, antes da última e definitiva mudança, ainda guardava em algum canto da casa da Pereira Nunes, no bairro Pelinca, alguns cards daqueles chicletes famosos da metade dos anos 70. As figurinhas das balas eu repassei ao Gustavo Rabelo, e imagino que ainda estejam guardadas em algum canto de sua casa.
O bom de colecionar álbuns era que, além da disputa, a gente aprendia geografia, história e sonhava com o mundo. No álbum do Chile, por exemplo, aprendíamos sobre a Cordilheira dos Andes, sobre Santiago e sobre o país mais “europeizado” da América do Sul, como diziam os textos da época.
Trocar um Canhoteiro por um Garrincha? Impossível.
Já Gilmar por Djalma Santos era mais viável. O goleiro era titular absoluto, enquanto o lateral ainda brigava por espaço. Nilton Santos também carregava aquele carimbo de figurinha difícil. Curiosamente, Vavá não.
E o mais curioso de tudo: Pelé não tinha carimbo. Já Canhoteiro, que sequer foi à Copa, era uma das figurinhas mais difíceis de encontrar.
No interior do nosso Rio de Janeiro, pouca gente conhecia Canhoteiro. Só os mais fanáticos, os que passavam horas ouvindo transmissões da Rádio Record ou da Rádio Panamericana nos rádios dos avós.
As calçadas no entorno da Igreja Matriz viviam tomadas de guris. A correria para completar uma página era coisa séria. A padaria do Garibaldi já não dava conta da freguesia, até descobrirmos que, lá na Rua da Laje, numa venda em frente ao Prudente de Moraes, havia chegado um novo lote de balas com figurinhas diferentes.
Acabou o sossego do armazém.
A molecada invadiu os balcões e, em menos de dez minutos, as balas já estavam todas detonadas. O bafo-bafo saiu da Praça da Matriz e foi parar na Rua da Laje, bem em frente ao grupo escolar.
Uma festa diferente para a turma lá de cima.
Depois vieram outros álbuns, mais sofisticados, como os das Copas de 70 e 74, bem mais elaborados do que aquele primeiro que conheci, da Copa do Mundo FIFA de 1958, já com certo ar de modernidade e bem ao estilo italiano de conquistar a cabeça dos colecionadores.
Ah, e antes que eu esqueça: até hoje ninguém soube se algum colecionador realmente ganhou o tal fogão a gás prometido pela editora.
Relógios e canetas, vá lá... eu até ganhei.
Mas o fogão...
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