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Sonhos de um escriba

  

O Gemini disse

Um giro pelas Ruas da Nossa História

Hoje, lá pelas duas da manhã, acordei assustado. O barulho que ouvi veio de um sonho — e, segundo os médicos, sonhar demais faz bem ao emocional. Pois bem, o susto me serviu de despertar.

Mas o que sonhava o escriba? Sonhei que demoliam a Rua Direita para homenagear os "Quatro Diabos", baluartes da emancipação de Miracema. No sonho, cada trecho da antiga Marechal Floriano recebia o nome de um daqueles velhos camaradas.

Foi um sonho, sim. Mas a realidade é amarga: quase nenhum de nossos vultos históricos tem seu nome grafado nas vias principais. A exceção é o Deputado Luís Fernando Linhares que, por obra do destino, nomeia a avenida construída logo após sua trágica morte.

Mas pergunto aos meus botões: onde fica a Rua Altivo Linhares? Onde está a avenida Jamil Cardoso? Quais vias principais levam os nomes de Salim Bou-Issa, José de Carvalho ou Jairo Tostes? Onde está o logradouro que homenageia Olavo Monteiro?

O que sobrará para Jofre Geraldo Salim, nosso último herói da emancipação ainda entre nós? Darão seu nome a uma vila na periferia? O Dr. Moacir Junqueira, ex-prefeito, hoje nomeia apenas uma travessa mínima. Pelo visto, o roteiro de esquecimento será o mesmo para os próximos ilustres.

A Rua Marechal Floriano, no coração nobre da cidade, leva o nome de um desconhecido para o cotidiano miracemense. O que Floriano Peixoto ou João Pessoa (da Paraíba) trouxeram de benesse para as nossas bandas? Absolutamente nada. São "estrangeiros" que ocupam o lugar de quem realmente suou por esta terra.

Reconheço o valor histórico de Ary Parreiras e do Coronel José Carlos Moreira, cujos nomes estão bem postos. Celebro a Praça Dona Ermelinda, justa homenagem à doadora das terras da nossa cidade. Mas Nilo Peçanha, Getúlio Vargas e Prudente de Moraes... o que representam eles para a luta da nossa emancipação?

Posso parecer cruel, mas o que pretendo é fazer justiça. Nossos líderes estão esquecidos nos armários da Prefeitura, sem o reconhecimento que merecem nas placas indicativas.

Bato nesta tecla desde os tempos de Grêmio Estudantil, passando pela Maçonaria e pelo Rotary. Sempre fui um voto vencido. Hoje, porém, alcanço a marca de cem crônicas e uso este espaço no Dois Estados para lançar um desafio à Câmara de Vereadores: se as grandes metrópoles rebatizam suas avenidas para honrar seus filhos, por que não podemos nós imortalizar os heróis de Miracema em nosso endereço mais nobre?

Que as placas das nossas ruas falem a nossa língua e contem a nossa história. Justiça seja feita a quem fez por nós.

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