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O trem azul em Vila da,Serra

Sentado na calçada do condomínio, aqui em Vila da Serra, sem canudo ou canequinha, mas com o sol batendo direto na cabeça, deixo o pensamento correr solto — desses que só aparecem quando a gente não chama.

Fico imaginando como conseguem fazer canções. Letras, no caso. Como alguém junta meia dúzia de palavras e, de repente, desmonta a gente por dentro. Tem música que não toca — atravessa.

E aí me vejo embarcando num trem azul, desses que não param em estação nenhuma. Não tem chegada, nem despedida. Só leva a gente pra um passado recente, ainda quente, ainda vivo.

No fone, Paulo Diniz pergunta: “como vou deixar você?”. E eu fico aqui, sem resposta. Porque, meu caro, a vida às vezes só anda mesmo em linhas tortas. Como é que deixa, se ainda ama?

Logo depois, como se fosse combinado, aparece Belchior. E aí já era. Ele vem com aquele jeito de quem entende tudo sem explicar muito. Eu não sou um Rapaz Latino-Americano, é verdade — mas estou cansado. Cansado de pensar no tempo, de tentar entender o que não precisa de explicação.

Não quero mais falar de coisas sem fim. Quero coisa simples. Quero lembrar da sessão de cinema das cinco, daquela luz meio amarela da tarde, e da pressa boba de esconder a camisa suja de batom — como se isso resolvesse alguma coisa.

E fico pensando nesse garoto sonhador, sem dinheiro no banco, que um dia saiu por aí acreditando em alguma coisa — qualquer coisa. Talvez não tenha encontrado tudo, talvez tenha perdido um tanto pelo caminho. Mas chegou.

E hoje carrega a saudade no peito aberto — dessas que não se escondem — e ainda assim segue com um coração cheio de amor pra dar.

No fim das contas, talvez seja isso que as canções fazem com a gente: não explicam nada… mas fazem tudo fazer sentido.

Porque, no fundo, como já disseram por aí, viver é melhor que sonhar.




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