segunda-feira, 6 de abril de 2026

O tempo passa...

        Entre o tempo e a guarânia

Cuiabá. Férias na virada da década de 70 para 80.

Calor daqueles que não se explica — só se aceita.

Na noite de réveillon, entre mesas cheias e conversas soltas, conheci um grupo que não estava ali apenas para tocar. Eles cantavam como quem conta a própria vida.

Fiquei. Ouvi. Gostei.

Sem convite, sem palco, cantei junto — baixo, no meu canto — como se já fizesse parte daquilo.

E aplaudi. Muito.

Não por educação, mas por reconhecimento.

Dias depois, 3 de janeiro.

Meu aniversário. 40 anos.

A gente acha que já viu de tudo aos 40.

Ledo engano.

Meu primo Frederico, desses que entendem a gente sem precisar de explicação, preparava em silêncio algo que dinheiro nenhum compra.

Uma surpresa.

E não era só festa.

Era aquele mesmo grupo.

Ali, na sua casa.

Ali, pra mim.

E então aconteceu de novo — mas diferente.

A guarânia voltou a ecoar, só que agora mais perto, mais íntima, mais minha.

As vozes já não eram novidade, eram companhia.

A música já não era descoberta, era memória sendo criada.

Não havia palco.

Não havia distância.

Só gente, som e verdade.

Hoje, olhando a foto, percebo duas coisas:

Uma me mostra que o tempo passou.

A outra insiste que ele apenas mudou de roupa.

E entre uma e outra, sigo eu —

ainda ouvindo aquela noite que nunca terminou.

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