teste da nostalgia
O Teste da Nostalgia
— Brincou de queimado?
— Não é “queimado”, isso é coisa de paulista. É queimada. Todas as noites, na Praça Dona Ermelinda, a garotada se reunia. Não tinha televisão. Era pique e queimada. Bons tempos.
— Lembra quando Ronnie Von jogava a franjinha de lado e cantava Meu Bem?
— Eu não tinha a franjinha do Ronnie Von, mas o Tiara jogava para o lado e convidava os cabelos a voltarem ao lugar.
— Assistia Perdidos no Espaço?
— Sempre que podia dava uma escapada para a casa do Joel Alvim para “filar” a tevê. Ficava um tempão por lá. Eles sempre foram generosos comigo.
— Sabia de cor a música de Bat Masterson?
— “No velho oeste ele nasceu, e entre bravos se criou…” Quer mais?
— Sabe quem foi Fantomas?
— O mascarado vingador do Tele-Cath.
— E Ted Boy Marino?
— O mocinho do mesmo Tele-Cath.
— Assistia ao Repórter Esso?
— Todas as noites, por volta das oito, na casa dos pais do Adrian Core.
— E o Toppo Giggio?
— Um ratinho importado da Itália, apresentado por Agildo Ribeiro.
— Via Vila Sésamo?
— Acho que era na hora das nossas peladas no Rink.
— Sabe quem foi Johnny Weissmuller?
— Êpa, Solon… esse era seu ídolo. O eterno Tarzan.
— Assistiu ao Vigilante Rodoviário?
— Lembrança das férias no Rio, na casa da tia Durvalina.
— Quem foi Odorico Paraguaçu?
— Até sua neta sabe essa.
— Lembra o que era compacto simples e compacto duplo?
— Tinha coleção deles, comprados na loja do seu José de Assis, com o dinheiro que ganhava no Vicente Dutra.
— Já teve um Bamba?
— Rasguei muitos nas quadras do Rink.
— E o Vulcabrás 752?
— Não só o 752. Aquele servia para o colégio o ano inteiro.
— Usava japona?
— Tinha uma que ganhou até nome: Cavú. Não me pergunte por quê.
— Na sua época os graus eram primário, admissão, ginásio e científico?
— Estudei no Prudente. Fiz admissão, ginásio (em oito anos), comércio e normal. Mas a bola foi minha maior escola.
— Chamava revista em quadrinhos de gibi?
— Ainda chamo. Só que hoje ou são água com açúcar ou violência demais.
— Sua mãe tinha caderneta no armazém?
— Minha mãe, meu pai, meu avô… e até eu, que era mais bobo.
— Usou bomba de flit?
— Solon, se não tivesse bomba de flit, quem dormia em Miracema?
— Já andou de Simca Chambord?
— Não sei se era do Washington Torres ou da Prefeitura, mas pose eu fiz.
— Conheceu o Aero Willys?
— Esse era da Prefeitura, no tempo do seu Jamil Cardoso. Ficava estacionado em frente ao bar do meu pai.
— E o Karmann-Ghia?
— Saudade mesmo é do Gordini do Maioli, que nos levava para todo canto.
— Já andou de Vemaguete?
— Vá à terrinha e verá a do Xico da Gráfica ainda rodando.
— Usou gasolina azul?
— Naquele tempo eu nem pensava em ter carro.
— Sua mãe usava cera Parquetina?
— Meus joelhos lembram perfeitamente.
— Sabão em pó Rinso?
— Caramba… como era branca a camisa do Nossa Senhora das Graças!
— Televisão com seletor rotativo?
— Eu sou do tempo do “televisinho”, portanto…
— Sua mãe usava bombinha de laquê?
— Não tinha esse luxo. Era rolinho mesmo.
— Usou meia com risca atrás?
— Êpa! Está me desconhecendo?
— E anágua?
— Nem no Carnaval. Mas ficava esperando o vento ajudar…
E então veio a pergunta final:
“Você teve o privilégio de viver tempos maravilhosos?”
Olhei para Solon.
Será mesmo?
Ou não é hoje — como dizia minha vó Maria — que o tempo é maravilhoso?
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