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O Coreto e a bola

 

O Coreto e a Bola

A Praça até que ganhou uma bela roupagem. Há uns trecos esquisitos por ali — dizem que é arte moderna. Vejo gente passeando de mãos dadas, dois recém-enamorados talvez. Um carrinho de bebê surge do nada. E com ele, as lembranças.

Começo a fitar aquele pedaço de terra com mais firmeza. O tempo parece voltar num movimento brusco e inesperado.

Num segundo apenas, me vejo com o joelho ralado e o olho roxo — resultado de um salto errado e de um choque com aquela arvorezinha que ficava bem atrás do nosso coreto.

Abro os olhos — e não estou no presente.

Há gritos naquele chão.

— Eu só jogo se for na linha! A bola é minha e ponto final!

Era o filho do político, impondo condições no racha.

— Entra aqui, Penacho! Sua vaga tá garantida! — gritava Nenê, escalando os amigos.

O dono da bola mal sabia que o que todos queriam era tirar uma lasquinha da novidade. Bola nova era raridade naquele pedaço de mundo.

— Venha, Penacho! Venha estrear a bola de couro!

E lá fui eu, mesmo com o joelho ralado e o olho roxo da batida na arvorezinha atrás do coreto.

Times definidos.

— Três na linha e Canela no gol! — decretou Nenê.

Canela era ruim na linha, mas bom no gol. Filho do professor de matemática, também bom em prosa e verso. No outro time, comandado por Jomba, o filho do político era “café com leite”. E assim, segundo Nenê, ficava tudo equilibrado.

Fui jogar na linha, chutando para o gol que ficava perto da arvorezinha, atrás do nosso coreto.

Como sofria a bola nova.

Ninguém ali era Didi, Mengálvio, Zito ou Dequinha. Havia Leônidas da Selva, Foguete, Lua e outros centroavantes menos votados.

A bola vinha com inscrições oficiais: “Autorizada pela CBD”, “Oficial da Copa Bernardo O’Higgins” e coisa e tal. Mas apanhava como qualquer outra. Chutes tortos, bicos mal dados, trivelas sem querer.

E, vez ou outra, lá ia ela beijar a tal arvorezinha atrás do coreto.

Éramos representantes do anti-futebol, é verdade. Mas éramos felizes. Corríamos para cima e para baixo na maior farra do mundo.

A bola, maltratada, devia estar feliz também.

Racha é coisa de criança. E de adulto que ama bola, mesmo sem intimidade com ela.

Tinha bicanca, tinha bicicleta — como a do Marquinho, que encerrou a pelada com um gol de pintura. Justamente naquele gol, perto da arvorezinha atrás do coreto.

De repente, silêncio.

Um cidadão chega com um punhado de livros. Sem pedir licença, toma a bola e começa a chamar os nomes.

O filho do político baixa a cabeça. Era hora de aula.

O campo esvazia.

— E agora? — pergunta Canela. — Como vamos entrar naquele coreto?

Ficamos debaixo da arvorezinha, enxugando o suor.

E então entendemos.

Estamos sonhando.

Nos sonhos, as roupas ficam brancas como a neve.

Num estalar de dedos, já estávamos sentados no coreto, tocando um dobrado ensinado pelo professor Garcia, na maviosa Sociedade Musical Sete de Setembro.

Entende agora a insistência com o coreto?

Não sei qual político teve a infeliz ideia de derrubá-lo e colocar ali um punhado de arte moderna. Talvez fosse para que sentíssemos falta. Para que sonhássemos.

Porque, naquele pedaço de praça, em cada sopro de instrumento e em cada gomo de bola perdido, havia sempre um coração de criança batendo mais forte.

E isso nenhuma obra moderna substitui.



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