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A parabólica

 


A Antena do Sucesso

Aquele barzinho, encravado no final da Rua das Palmeiras, era sombrio demais para o garoto Valtinho.

Herdado do pai, o pequeno comércio vivia cercado por concorrentes de peso. Ali perto ficava a Pizzaria Cinderela, famosa no bairro e considerada uma das melhores da cidade. Mais acima, no trecho nobre da Rua Direita, o Bar Para Todos dominava a esquina, reunindo em suas mesas a fina flor da sociedade.

O Para Todos tinha música ao vivo nos fins de semana, servia refeições à la carte e o famoso self-service, moda absoluta entre os comensais. Enquanto isso, Valtinho olhava suas poucas mesas vazias e tentava entender como atrair fregueses que levantassem o astral — e a renda mensal, que mal passava de um salário mínimo.

— Faça promoção de cerveja — sugeria o vendedor.
— Dê desconto aos bancários — aconselhava um freguês interessado na própria vantagem.

Ermenegildo Solon, jornalista experiente, morador da redondeza e amigo do velho Valter, falecido em trágico acidente, era o maior incentivador do rapaz.

— Valtinho, é hora de decidir se quer continuar o negócio do seu pai.
— Querer eu quero, Solon. Mas está difícil competir.
— Que nada! Vamos montar uma estratégia para colocar essa birosca — no bom sentido — para frente.

Dias depois, Solon reapareceu com uma antena parabólica e um aparelhinho “milagroso”, segundo ele.

— Chame o Japonês para montar isso. É a última moda nos bares da capital.

Valtinho ficou espantado:

— O que é isso? Está ficando louco? Quanto custou essa parafernália?

Solon foi direto:

— É a chave do seu sucesso. Vá aos bancos, discretamente, e convide os funcionários para ver futebol ao vivo e em cores aqui no bar. O resto deixa comigo.

Na cidade, a novidade ainda não havia chegado. O Bar do Valter virou ponto de encontro. Cerca de trinta fregueses diferentes apareciam a cada jogo transmitido.

Os concorrentes ficaram atônitos.

— Qual é o segredo do Valtinho?

Enquanto tentavam descobrir, ele reinava absoluto. Foi fazendo caixa, ampliando o espaço, pintando as paredes, exibindo as quatro bandeiras dos clubes cariocas e instalando duas TVs de 29 polegadas. Criou até um canto reservado para quem quisesse jantar em privacidade ou levar a família para ver a novela com imagem perfeita.

— Um cinema! — dizia Janilce, vizinha que virou a vedete do lugar — no bom sentido, claro.

O tempo passou. A novidade se espalhou. Quase todos os bares passaram a transmitir jogos.

Mas Valtinho já estava consolidado.

Contas em dia. Clientela fiel. Respeito conquistado.

— A receita é simples — diz ele. — Neutralidade. Colocar no ar o jogo do time com maior torcida no local. Manter sempre um canal esportivo ligado. E, claro, ter um amigo como Ermenegildo Solon por perto nos momentos decisivos.

No fim das contas, não foi só a antena que salvou o bar.

Foi visão.

E amizade.

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