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A volta do Solon

 

A Máquina de Fazer Loucos

Meu guru, Ermenegildo Solon, visitou Miracema recentemente e riu escancaradamente nas conversas com os amigos mais chegados. Eles comentavam sobre alguns e-mails que chegavam às suas máquinas de fazer loucos — o computador — e um deles sinalizava a irremediável passagem do tempo.

Um sorriso aqui, uma gargalhada ali, e aos poucos os motivos de tanta alegria iam sendo colocados à mesa.

À sua volta, como sempre, cinquentões e sessentões animados com a visita do ilustre conterrâneo faziam de tudo para arrancar algum comentário mais íntimo da figura, que naquela altura já tinha ponto de vista formado.

Sentei-me ao lado do Aquino, que também nos honrava com sua presença, e esperei pela chegada do Mendes, um dos mais antigos da roda e, por sinal, o maior consumidor de todos os produtos citados no tal e-mail.

Batista, um pouco mais tímido, parecia peixe fora d’água. Segundo ele, sua infância foi muito sofrida e quase não teve acesso àqueles maravilhosos e milagrosos manufaturados.

Mercante, frequentador assíduo da sinuca do Vicente Dutra, garantia que jamais tomou um Q-Suco e que o melhor mesmo eram os refrescos de laranja do Bar do Vicente ou do Bar do Vavate — com o que concordo plenamente.

— O Vavate era legal, mas não tinha Grapette, que só tomei no Bar do Seu Arthur, na Tijuca, quando visitava minha tia Durvalina — confesso aos amigos.

— Você era do tempo da Cuba-Libre, Dutra? — provoca Aquino, antigo apreciador da mistura de rum com Coca-Cola.

— Não muito. Sempre gostei mesmo era de uma cerveja Portuguesa, casco escuro. Foi a primeira que degusteI. Mas minha turma realmente consumia Cuba-Libre nos bailes e nas festinhas do ginásio.

Solon, hoje morando na capital, faz pose de saudosista e lança a pergunta:

— Quem daqui já tomou leite naquelas embalagens com tampinha de alumínio?

Apenas Aquino e Mendes, mais viajados e mais antigos, levantaram a mão.

Nós outros só conhecíamos aquilo por ouvir dizer. Eu mesmo só tive a chance de abrir uma dessas embalagens na casa da tia, no Rio, e virar no gargalo, como nos filmes americanos.

Batista volta do banheiro dizendo estar com dor de cabeça.

— Toma uma Cibalena — sugere Solon, e emenda: — Ainda existe Cibalena?

— Claro que sim. Tem Cibalena, tem Biotônico Fontoura — que muita criança da minha geração tomou achando que ia crescer para namorar e jogar futebol — respondo.

Solon quer saber se conheço pomada Minâncora, aquela milagrosa contra espinhas.

Como nunca sofri com o problema, jogo a pergunta para o Mendes, sempre bem barbeado:

— Usava a gilete do seu pai ou já tinha grana para comprar a sua?

— Sempre fui independente. Nunca gostei de usar material dos outros — devolve Mendes, que também era usuário do famoso Leite de Colônia.

Já Batista, cutucado pela turma, admite ter usado Violeta de Genciana — mas garante que foi só nos cantinhos da boca, a famosa “boqueira”, provocada por beijos no Cinema Sete.

Solon observa uma menina que acaba de entrar no bar.

— Engraçado esse lenço na cabeça. No meu tempo, para arrumar o cabelo para festa, era preciso passar horas no salão sob o calor do secador.

A prosa segue animada. Os mais antigos revivem um passado cheio de novidades. E a conversa deriva para as brincadeiras.

— Já jogaram bilboquê? — pergunta Aquino.

— Isso deve ser coisa de paulista — respondo. — Aqui a gente brincava de pique-esconde, polícia e ladrão. Eu usava um distintivo feito de tampinha de Guaraná do Lucas, que era o melhor da cidade.

As quermesses eram organizadas pela Igreja Católica e animadas com fogos de artifício de primeira qualidade. Enquanto os rojões subiam aos céus, a molecada soltava bombinhas e busca-pés para desmanchar as rodinhas das meninas, que tomavam suco e comiam salgados preparados pelas senhoras da pastoral.

Batista pergunta se ainda tenho marcas dos tombos de carrinho de rolimã, montado pelo Zébinho, com o qual eu descia a ladeira da Rua Santo Antônio e fazia a curva na casa do Amaro Leitão como se fosse Ayrton Senna.

Solon então resolve me sabatinar. A maioria ali já era sessentona — e os produtos que viriam a seguir eram da minha geração.

Educadamente, aceitei o desafio.

E surgiu o texto, trazido da internet pelo Rafael, autor desconhecido, que serviu como roteiro para encerrar a prosa.



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