O Víspora da Vó Maria
Agora há pouco, sem nada para fazer, passei horas jogando buraco on-line. Sem apostas, diga-se de passagem. Apenas diversão — e o adversário, na maioria das vezes, um robô oficial do site, que não raramente me irrita profundamente.
E o leitor perguntará: o que tem esse buraco on-line a ver com esta coluna?
Depende do ponto de vista. Os mais antigos entenderão. Os mais jovens — ou leitores de fora da minha Miracema — talvez achem que não tem nada a ver.
Mas tem.
Nas décadas de 40, 50 e até os anos 60, muito se viu na cidade os carteados e os jogos de víspora. Alguns valendo dinheiro nas noites de pôquer. Outros, mais inocentes, valendo cerveja, salgados e umas moedas nos bares ou porões.
Havia torneios em clubes e casas particulares.
Mas o lugar sagrado era outro.
A roda de víspora da minha vó Maria, na Praça Ary Parreiras.
Ali se reuniam pelo menos vinte senhoras, todos os dias — eu disse todos os dias — para duas horas de víspora. Valia apenas diversão. Dinheiro não corria. Às vezes, uma rodada final com algumas moedas de valor simbólico.
Eu adorava ficar por ali.
Algumas senhoras, já quase octogenárias, pediam minha ajuda na marcação. Às vezes sobrava um troco para o garoto. Todas as noites havia pastel fresquinho, bolo, broa com café ou refresco — que eu ajudava a preparar e servir.
E elas me tratavam como sobrinho. Ou neto.
Quem eram essas senhoras?
Amigas da minha avó Maria e da minha mãe Lili. Companheiras de missa, de procissão e das rodadas de víspora — de segunda a sexta à noite, e também nas tardes de sábado e domingo.
Era diário. E quase obrigatório.
Algumas moravam perto. Outras vinham a pé ou na bicicleta conduzida por um filho ou marido dedicado. Às nove da noite, pontualmente, despediam-se com promessa de reencontro no dia seguinte.
Até hoje sonho com os cartões.
Era a sequência da cartela — do primeiro ao último número.
Tia Ubaldina nem marcava com milho ou feijão. Decorava tudo. À medida que as pedras saíam da sacola, dizia:
E fechava o bingo sem errar. Eu apenas conferia.
Até que um dia veio o susto.
Denunciaram a víspora da vovó Maria à polícia.
Um novo delegado resolveu investigar.
Era terça-feira — lembro bem, porque passava meu programa favorito na televisão, o Rio Hit Parade.
Chego do colégio e encontro a cena:
O delegado foi recebido pela vovó Maria. Entrou na sala. Viu senhoras respeitadas, queridas por todos.
Sentiu-se, segundo ele mesmo disse, um ditador.
Foi até o quarto onde a mesa estava posta, os quitutes arrumados, as cartelas no lugar certo — cada uma com sua cadeira da sorte.
Chamou todas para conversar. Explicou a denúncia. Pediu que parassem por alguns dias, até a poeira baixar.
Foi então que tia Ubaldina, quase noventa anos, acompanhada de dona Vi e dona Georgina, perguntou:
— E nós, seu moço, vamos fazer o quê nesses dias?
O delegado olhou para aquele coro de senhorinhas. Não choravam pelo susto, mas pela possibilidade de perder o único divertimento.
Foi taxativo:
— Vocês param hoje. Amanhã estão liberadas. Com minha autorização.
E, como ninguém é de ferro, sentou-se à mesa, tomou refresco de maracujá, comeu pastel e, a partir daí, passou a visitar com frequência — sempre encontrando um quitute diferente.
Porque a víspora de Dona Maria não era jogo.
E hoje, jogando buraco contra um robô, percebo:
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