... Sobre Cartola
Conversa ao Som de Cartola
Ligo para meu amigo Motta, fiel escudeiro quando o assunto é Flamengo e música.
O telefone toca.
Penso em não atender.
Marina avisa:
— É pra você. É o Motta.
Bingo.
Era exatamente o que eu precisava para traduzir certas canções de Cartola. Cheguei a pensar em ligar para o Nascimento, lá em Miracema, mas a ligação do carioca veio na hora certa.
— Fala aí, amigo velho.
— Amigo velho não. Velho amigo. Fica mais poético e mais saudável.
— O que manda?
— Preciso conversar. Estou só e os dedos já estão cansados de dedilhar o teclado do computador.
— Até que gostei da ligação. Estava pensando em escrever sobre Cartola. Só quem viveu esses momentos pode dividir comigo a leitura da obra do mestre.
— Diga o que quer.
No som, Os Cariocas entoam Samba do Avião. Aumentei o volume.
— Que é isso, Dutra? — gritou Bicudo, o porteiro.
— Música das boas, meu caro!
— Tá bom, mas abaixa que está atrapalhando.
Volto à ligação.
— Explicar Cartola é duro, não acha? — pergunto. — O que ele quis dizer quando escreveu que O Mundo é um Moinho?
Motta responde de pronto:
— Ele tentou avisar à filha que o mundo não era como ela imaginava. “Presta atenção, querida. De cada amor herdarás só o cinismo. Quando notares, estás à beira de um abismo… abismo que cavaste com teus pés.”
Fiquei em silêncio.
— Entendeu?
— Acho que sim.
— Então me explica outra. Por que as rosas não falam, se ele vive se queixando a elas?
— Porque elas apenas exalam o perfume que roubam das musas inspiradoras dele — as cabrochas e mulatas da Mangueira.
— Nesse caso, Dona Zica é que deveria ter os olhos tristonhos…
— E talvez chorasse em seus sonhos — completa Motta.
No meu som agora é Emílio Santiago, cantando Insensatez. E eu escrevendo, com um ouvido na música e outro no telefone.
Vida dura a de aposentado: num dia não há nada para fazer; no outro, também não. E quando chega sexta-feira, dia de boteco para os mortais, estamos aqui, ouvindo música, escrevendo crônicas e procurando alguém para uma prosa.
— Motta, pensei em escrever algo para o Festival de Miracema. Vai ter o Fecami de novo. Pensei assim: “Sonhava desde menino…” Mas deixei pra lá. O Cartola já disse quase tudo. Não quero virar plagiador barato.
— Então fala de amor. Daqueles do passado.
— Você acha que eu tenho tino para isso? “Esquece nosso amor, vê se esquece…” — comecei.
— Também é do Cartola — retrucou ele. — Está virando cover.
Rimos.
Agora toca Miltinho. Depois Billy Blanco, com Samba Triste:
— Tá certo, meu amigo. Vou desligar — diz Motta. — Mas deixo um verso contigo: “Não quero mais amar a ninguém…” Você sabe o resto.
Sei sim. E sei que Cartola é o máximo dos máximos.
Desligo. Coloco Elis & Jair Rodrigues. Um recuerdo dos anos 60 — dourados, prateados, de chumbo ou qualquer outro adjetivo que a história lhes dê. Para nós, foram os melhores.
Antes de encerrar, Motta ainda manda um último recado:
— “Guerreei na juventude, fiz por você o que pude…” — cita ele.
E eu completo em silêncio.
Porque, no fundo, é isso.
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