A Seresta no Bar do Amado
Amado era um sujeito simpático, amigo antigo do meu pai. Como ele, também mantinha um bar — com freguesia variada e fiel.
Havia apenas uma diferença: o nosso, em frente à Prefeitura de Miracema, fechava cedo. Meu avô e meu pai encerravam as atividades logo após o anoitecer. Só em festas da igreja ou da cidade funcionava até mais tarde.
Já o bar do velho Amado ganhava vida justamente no fim da tarde e no cair da noite.
Recordo que ele mudou de endereço três ou quatro vezes. Conheci o primeiro, na Rua da Capivara. Depois, já quase adulto, tocando e cantando no Conjunto do Zé Viana na Sociedade Operária, reencontrei o Bar do Amado no térreo do prédio. No andar de cima, os bailes; embaixo, o botequim servindo petiscos e bebidas para os rapazes e moças que subiam as escadas para dançar ao som do nosso conjunto.
Mas foi no penúltimo endereço — na Rua do Biongo, lá no final — que aconteceu o episódio que ele jamais esqueceu.
Muitos se lembrarão do Sargento Lecine, militar linha-dura que chegou a Miracema em 1966 para reorganizar o Tiro de Guerra 217. Seu pai, Seu Faustino, era músico excepcional, integrante da Orquestra da Globo e amigo pessoal de Carlos Alberto, grande nome da música brasileira daquela década.
No meio de 1967, o sargento resolveu organizar uma seresta para arrecadar fundos para a reforma do TG. A grande atração seria justamente Carlos Alberto.
Quando o artista chegou à cidade, fez um pedido simples:
— Quero ir a um botequim. Sentir o ambiente.
Lecine recusou o convite do meu pai. Achou que ali não seria o ambiente ideal para o cantor tomar suas pingas com tranquilidade.
Foi então que sugeri:
— Leva no Bar do Amado, lá no Biongo.
O sargento conhecia o velho Amado. Foi conferir. Pediu apenas que o reservado ficasse livre na tarde seguinte, emendando pela noite.
E assim foi.
Na sexta-feira, véspera do show no Cine XV, lá estávamos: o sargento, eu e dois atiradores encarregados da segurança do artista.
Carlos Alberto foi recebido como rei.
Nem preciso dizer.
O homem se fartou, se animou e pediu aos atiradores que fossem ao hotel buscar o violão.
Quando o instrumento chegou, o botequim virou palco.
O que hoje chamaríamos de happy hour — palavra que nem sonhávamos existir — transformou-se numa seresta noite adentro.
E ali, no Bar do Amado, um dos grandes nomes da música brasileira cantou como se estivesse entre amigos de infância.
Anos depois, em minha última visita a ele — levado pelo amigo José Souto Tostes, já no Alto do Cruzeiro, onde Amado encerrou seu tempo — ouvi novamente a mesma frase:
— Menino, você me proporcionou o maior momento da minha vida. Nunca vou esquecer Carlos Alberto cantando no meu botequim.
Ele dizia isso como se eu fosse o responsável por aquele milagre.
Mas o milagre não era meu.
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